domingo, 22 de abril de 2018

A fazenda e o long play


A FAZENDA E O LONG-PLAY



Neste causo vou contar sobre como, e com que dificuldades, foi adquirida a hoje Fazenda Carajás, uma propriedade rural localizada no município de Pimenteiras, que fica no Sul do Estado de Rondônia.

Nos anos 1970 e 1980, a ideia generalizada era a de que uma pessoa “bem de vida” seria um fazendeiro. Tem fazenda? Está rico, dizia-se.

Não era – e ainda não é – bem assim. Mas vamos seguir. Logo depois que eu fui para o novo Estado de Rondônia, ao assumir o cargo de Promotor de Justiça, meu irmão mais novo, o Paulo, seguiu atrás.

Como ele é formado em agronomia, ele foi para lá munido de pipetas e outros instrumentos estrambólicos destinados a verificar a qualidade da terra.

Logo achou terra de boa qualidade e compramos, os três rebentos da família Araujo, um lote de terras, pontapé inicial rumo ao nosso destino de futuros ricos fazendeiros.

Foi uma dificuldade enorme pagar esse investimento inicial dos “pré-fazendeiros”, e nós tivemos que raspar os cofres em busca de dinheiro (inexistente, diga-se) para pagar a compra. Também em razão disso, somente com muito bom humor pudemos “aguentar” os calhambeques que passamos a utilizar como carros.

Tivemos até problemas de memória: sair para comer uma pizza, esqueça; ir ao boteco tomar umas cervejas, esqueça.

O fato é que vencemos a “dureza” inicial e esse primeiro lote rural abriu caminho para que, anos depois, comprássemos uma área maior. Nessa compra, demos, como parte do pagamento, o lote rural que já tinhamos e ainda um jipe que era de minha propriedade.

Esse jipe era fabricado pela empresa Gurgel e parecia “pau para toda obra”, mas a verdade é que tinha um motor diesel fraquíssimo, além de mecânica de duvidosa qualidade. Era o jipe Carajás.

Esse jipe acabou sendo apelidado, pelos entendidos em automóveis, de hemorróidas. A razão desse apelido seria que, segundo diziam as más línguas, quem tinha o jipe hemorróidas, digo, Carajás, tinha vergonha de dizer que tinha...

Por causa desse jipe é que veio a inspiração para o nome da fazenda: Fazenda Carajás.

Essa aquisição da fazenda deu-se nos anos 1990 e até hoje integra o patrimônio da família Araujo (“integra o patrimônio” é uma forma romântica de referir-se a ela, pois nunca vimos um tostão de lucro por produzido ali).

Então, aquela ideia sobre a “riqueza” dos fazendeiros era mesmo uma falácia. Tecnicamente, sou fazendeiro... grana que é bom...

Mas vamos ao causo propriamente dito. Há um rio maravillhoso que corta as terras da fazenda, o rio Santa Cruz. É um rio típico da amazônia, de águas límpidas e muito piscoso. Antes que alguém comece a dar tratos à bola tentando imaginar como é um rio que “pisca”, esclareço que o termo significa que lá há muitos peixes.

Devido aos seus conhecimentos agronômicos, quem passa mais tempo na Fazenda Carajás é o mano Paulo.

Pois aconteceu que, no anoitecer de um belo dia, ele juntou suas tralhas de pesca e aboletou-se às margens do rio Santa Cruz para tentar pescar o jantar.

Já bem escuro, ocorreu algo assustador, fantasmagórico mesmo. Primeiramente, era um som quase inaudível, mas que se repetia de tempo em tempo.

O Paulo apurou os ouvidos e ficou imóvel, escutando.

Estupefato, ele verificou que, da margem do rio, logo abaixo de onde ele estava, ouvia-se uma voz humana, que cantava:

  • Maringá, Maringá, depois que tu partiste...

A seguir, o som parava, para logo depois voltar:

  • Maringá, Maringá, depois que tu partiste...

Meu irmão não é covarde, mas besta também não é e, por isso, largou a pescaria e afastou-se do rio, conformado em comer apenas arroz com feijão.

No dia seguinte, pela manhã, chamou alguns amigos das redondezas, inclusive um especializado em “rezas” (vai que é um espírito vagante...), e foram investigar aquela cantoria inusitada.

Logo acharam a resposta para o acontecido. Boiando nas águas do rio havia um pedaço de um long play (os antigos discos de música, também chamados de vinil).

A cada vez que as águas da correnteza se movimentavam, o pedaço de long play se movia para debaixo de um galho de limoeiro. Quando isso acontecia, o espinho do limoeiro fazia as vezes de agulha de toca disco e, atritando-se com o pedaço de disco, pegava exatamente aquele trecho Maringá, Maringá, depois que tu partiste.

Impressionante, não? O blog informa que a canção, cuja letra segue abaixo, foi obra do médico e compositor Joubert de Carvalho.

Foi solicitado a Joubert de Carvalho uma música que retratasse o drama das secas nas cidades paraibanas de Ingá, Pombal e Areia.

A letra da bela música fala de uma moça chamada Maria, da cidade de Ingá. Partindo-se de Maria do Ingá chegou-se rapidamente à corruptela Maringá, que deu nome à cidade natal do autor do blog e sua moradia atual.

Abaixo, a letra da música:

Foi numa leva que a cabocla Maringá
Ficou sendo a retirante que mais dava o que falar
E junto dela veio alguém que suplicou
Pra que nunca se esquecesse de um caboclo que ficou
Maringá, Maringá
Depois que tu partiste
Tudo aqui ficou tão triste
Que eu garrei a imaginar
Maringá, Maringá
Para haver felicidade
É preciso que a saudade
Vá bater noutro lugar
Maringá, Maringá
Volta aqui pro meu sertão
Pra de novo o coração
De um caboclo assossegar
Antigamente uma alegria sem igual

Dominava aquela gente da cidade de Pombal
Mas veio a seca, toda água foi embora
Só restando então a mágoa
Do caboclo quando chora


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