domingo, 19 de agosto de 2018

Sujeitinho ignorante...


SUJEITINHO IGNORANTE...



Mesmo este sendo um blog para falar dos meus tempos de Promotor de Justiça na, na época, selvagem e esplendorosa terra de Rondônia, vou contar um causo, lá ocorrido, que, de certa maneira, liga-se com a minha vida anterior, jovem ainda, nas terras paranaenses.

Para ganhar a vida no início dos anos 1970 eu tive que “carregar pasta”, que era como se descrevia a atividade do vendedor viajante.

Não por meus méritos e sim devido ao fato de eu ser filho de um dos maiores vendedores de autopeças que o Paraná já conheceu, acabei sendo contratado por uma firma que vendia para as lojas de autopeças do interior do Paraná.

Meus conhecimentos do ramo automotivo eram tão grandes que alguns dos meus clientes, quando faziam o pedido de uma determinada peça, mostravam a dita cuja para mim, de modo que eu ficasse sabendo do que se tratava.

Assim, o sujeito pegava uma “coisa” na prateleira e me dizia “isto é uma bobina”, ou “isto é o rolamento da embreagem”.

Mas eu fui aprendendo (tinha que aprender, pois a profissão rendia um bom salário, que nada mais era que comissão sobre o total vendido), e qualquer dia desses conto alguma das minhas aventuras pelo noroeste do Paraná, que incluem a extirpação de uma penosa do âmbito de vigilância do seu proprietário.

O dinheiro auferido com minha curta carreira de vendedor viajante possibilitou-me cursar a universidade (a gloriosa UEM – Universidade Estadual de Maringá), onde me graduei em Direito.

Logo depois da formatura, passei no concurso e fui ser Promotor de Justiça lá em Rondônia.

Fui designado para atuar na cidade de Cerejeiras, local bastante remoto e precário que já rendeu alguns causos para este blog. Hoje é uma belíssima cidade.

Um dia qualquer aparece lá na Promotoria um sujeito querendo falar comigo. Como sempre atendi a todos que procuravam o Ministério Público, recebi aquele homem, que tinha o semblante preocupado.

Ele sentou-se em uma cadeira defronte à minha mesa, sacou alguns papeis de sua pasta (olha a “pasta” aí de novo...) e, colocando-os em cima da mesa, disse:

  • Doutor, eu quero providências, pois estes donos de autopeças compraram da minha firma, não pagaram e não querem pagar.

Pois não é que o sujeitinho achava que o Promotor de Justiça tinha que “botar os sujeitos na linha” e mandar que eles pagassem as compras feitas?

Segurando o riso, tive que explicar ao maganão-vendedor que minha função não era aquela e, sem contar-lhe que eu também tinha passado por aquele tipo de trabalho, disse que cabia a ele verificar a idoneidade do comprador para, só então, fazer a venda.

Ele deve estar, até hoje, xingando aquele funcionário público vagabundo que não quis atendê-lo.

Mas foi embora dando tratos à bola (para os não iniciados em gíria, significa pensar) em como faria para receber suas duplicatas (homem chamam isso de boleto) sem ameaçar os devedores com a cadeia...

Esse acontecimento entrou para o rol de maus causos porque ligou, na experiência de vida, minhas duas atividades profissionais.

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