SUJEITINHO
IGNORANTE...
Mesmo
este sendo um blog para falar dos meus tempos de Promotor de Justiça
na, na época, selvagem e esplendorosa terra de Rondônia, vou contar
um causo, lá ocorrido, que, de certa maneira, liga-se com a minha vida anterior,
jovem ainda, nas terras paranaenses.
Para
ganhar a vida no início dos anos 1970 eu tive que “carregar
pasta”, que era como se descrevia a atividade do vendedor viajante.
Não
por meus méritos e sim devido ao fato de eu ser filho de um dos
maiores vendedores de autopeças que o Paraná já conheceu, acabei
sendo contratado por uma firma que vendia para as lojas de autopeças
do interior do Paraná.
Meus
conhecimentos do ramo automotivo eram tão grandes que alguns dos
meus clientes, quando faziam o pedido de uma determinada peça,
mostravam a dita cuja para mim, de modo que eu ficasse sabendo do que
se tratava.
Assim,
o sujeito pegava uma “coisa” na prateleira e me dizia “isto
é uma bobina”,
ou “isto
é o rolamento da embreagem”.
Mas
eu fui aprendendo (tinha que aprender, pois a profissão rendia um
bom salário, que nada mais era que comissão sobre o total vendido),
e qualquer dia desses conto alguma das minhas aventuras pelo noroeste
do Paraná, que incluem a extirpação de uma penosa
do
âmbito de vigilância do seu proprietário.
O
dinheiro auferido com minha curta carreira de vendedor viajante
possibilitou-me cursar a universidade (a gloriosa UEM –
Universidade Estadual de Maringá), onde me graduei em Direito.
Logo
depois da formatura, passei no concurso e fui ser Promotor de Justiça
lá em Rondônia.
Fui
designado para atuar na cidade de Cerejeiras, local bastante remoto e
precário que já rendeu alguns causos para este blog. Hoje é uma
belíssima cidade.
Um
dia qualquer aparece lá na Promotoria um sujeito querendo falar
comigo. Como sempre atendi a todos que procuravam o Ministério
Público, recebi aquele homem, que tinha o semblante preocupado.
Ele
sentou-se em uma cadeira defronte à minha mesa, sacou alguns papeis
de sua pasta (olha a “pasta” aí de novo...) e, colocando-os em
cima da mesa, disse:
- Doutor, eu quero providências, pois estes donos de autopeças compraram da minha firma, não pagaram e não querem pagar.
Pois
não é que o sujeitinho achava que o Promotor de Justiça tinha que
“botar os sujeitos na linha” e mandar que eles pagassem as
compras feitas?
Segurando
o riso, tive que explicar ao maganão-vendedor que minha função não
era aquela e, sem contar-lhe que eu também tinha passado por aquele
tipo de trabalho, disse que cabia a ele verificar a idoneidade do
comprador para, só então, fazer a venda.
Ele
deve estar, até hoje, xingando aquele funcionário público
vagabundo que não quis atendê-lo.
Mas
foi embora dando tratos à bola (para os não iniciados em gíria,
significa pensar)
em como faria para receber suas duplicatas (homem chamam isso de
boleto)
sem ameaçar os devedores com a cadeia...
Esse acontecimento entrou para o rol de maus causos
porque ligou, na experiência de vida, minhas duas atividades
profissionais.
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