POLITICAMENTE
CORRETO? NÃO, MAS...
É um mistério, pelo menos
para mim, como se encadeiam as circunstâncias que acabam por definir
a vida das pessoas, como elas chegam a determinado ponto que acaba
por definir suas vidas.
Isso pode ser traduzido no dito
popular que se refere às voltas que o mundo dá.
Um exemplo muito claro do que digo aqui é o caso do Mike Tyson, o
espetacular pugilista que, nos anos 1980, espantou o mundo com a
violência dos seus golpes.
Mike
Tyson disparava potentes socos, que levavam à lona e ao nocaute seus
adversários no ringue ainda nos minutos iniciais das lutas em que
ele punha em disputa seu título de campeão mundial dos pesos
pesados.
Esse
extraordinário lutador veio de uma infância difícil, abandonado
pelo pai aos dois anos de idade, passou pela delinquência criminal e
uma internação em reformatório. Foi no reformatório que
descobriu-se seu talento para o boxe, o que definiu seu futuro (pelo
menos o mais próximo), ficando para a história como um campeão
mundial invencível e cheio de dinheiro.
É
bem verdade que ele colocou tudo a perder, envolvendo-se numa
acusação de crime de estupro que o colocou numa penitenciária e
dissolveu seu sucesso, bem como a muita grana que conseguira.
Essa
introdução é feita para reforçar o que eu disse antes sobre as
circunstâncias que moldam o nosso futuro.
Foi
assim comigo. As circunstâncias pessoais, familiares e econômicas
levaram-me a exercer, por algum tempo, a profissão de
vendedor-viajante de auto-peças. Eu viajava pelo noroeste do Estado
do Paraná, a serviço da ótima (e hoje extinta) Hermes Macedo S/A,
vendendo peças de reposição para automóveis.
Minha
clientela eram as lojas de Auto Peças, cujos donos (alguns deles,
pelo menos) eram verdadeiras “peças” (serviço cultural: peças,
no sentido de figuras extravagantes, engraçadas, cheias de manhas),
sobre as quais pretendo um dia, no futuro, contar aqui no Blog.
Enquanto
fui viajante-vendedor, tinha que, a cada quinze dias, comparecer a
reuniões estratégicas na cidade de Londrina, próxima a Maringá
(na época, 120 kms; hoje, 80 kms).
Para
economizar, eu me juntava a outros vendedores-viajantes e íamos
todos num carro só para as reuniões de trabalho.
Se
a clientela tinha muitas peças,
os vendedores constituiam uma fauna ainda mais especial,
a maioria deles engraçadíssimos, o que tornava as viagens
quinzenais uma verdadeira terapia, com muitas risadas.
O
causo
de hoje vai falar sobre o Nestor, um figuraça que ficou guardado na
minha memória (o que justifica contar sobre ele no Blog), dotado de
um humor ferino, mordaz mesmo.
Viajávamos
de Fusca (por um bom tempo o único carro possível para a classe
média trabalhadora do Brasil, na Economia fechada dos anos 1970),
comigo na direção e com o Nestor sentado ao meu lado, na “carona”.
Quando
estávamos atravessando uma cidadezinha (dentre as várias entre
Maringá e Londrina), o Nestor vê um sujeito fortíssimo, parrudo
mesmo, pedalando uma bicicleta.
Ele
não se segurou, e debruçando-se sobre a janela do Fusca, soltou:
- E aí, negão?!?! Roubou a bicicleta e está levando, hein??
Como
o sujeito tivesse ficado indignado com a ofensa, começando a gritar
ameaças, o Nestor começou a gargalhar, feliz com a própria
“sacanagem”, dizendo que o Negão
ficara muito bravo.
Pelo
retrovisor, eu o avisei de que o Negão
parecia furioso e pedalava, também furiosamente, a sua bicicleta,
tentando nos alcançar.
Nestor,
como estávamos de carro, não demonstrou preocupação. Contudo,
duas quadras adiante, havia um sinaleiro (semáforo) e, quando
chegamos ao cruzamento, ele estava fechado.
Cumpridor
das leis de trânsito, parei o veículo (é ótimo chamar o Fusca de
veículo...) e, olhando outra vez pelo retrovisor, avisei ao Nestor
que o sujeito, com todo o jeito de enfurecido, ainda vinha pedalando,
tentando nos alcançar.
Como
eu já disse, o Negão
era bem forte e o Nestor, olhando para trás, sentiu o perigo da
situação. Começou, então a gritar, apavorado:
- Fura o sinal, Osmar!! Fura o sinal, Osmar!!! Vai, vai, vai!!
Fiquei
entre a cruz e a espada, monitorando a futura abertura do sinal para
verde e o Negão
injustamente ofendido, que se aproximava como se fosse uma
locomotiva, daquelas tipo Maria
Fumaça.
O
sinal abriu!!
Como
também podia “sobrar” para mim, dada a fúria do Negão,
arranquei com toda a velocidade possível e logo deixamos para trás
a ameaça justa e
iminente.
Nestor
demorou a se recuperar da “gracinha” mal calculada, mas seguiu
com sua vida de figuraça.
A
moral deste causo?
Evidente: não mexa em quem está quieto pedalando.
Esse
período, o de ganhar a vida como vendedor-viajante, possibilitou-me
continuar os estudos, ingressar na Faculdade de Direito e,
finalmente, tornar-me Promotor de Justiça, o que veio a definir
minha trajetória pela vida.
Neste
tempos de politicamente incorreto que hoje vivemos, explico o título
da postagem e o próprio ocorrido. Naqueles dias, brincávamos sem
policiamento sobre a cor das pessoas, sua orientação sexual, etc.
Não
havia, em meu entender (e não estou sozinho neste entendimento),
nenhuma maldade nisso. Ou não, como diria Caetano Veloso...
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