domingo, 29 de abril de 2018

Politicamente correto? Não, mas...


POLITICAMENTE CORRETO? NÃO, MAS...



É um mistério, pelo menos para mim, como se encadeiam as circunstâncias que acabam por definir a vida das pessoas, como elas chegam a determinado ponto que acaba por definir suas vidas.

Isso pode ser traduzido no dito popular que se refere às voltas que o mundo dá. Um exemplo muito claro do que digo aqui é o caso do Mike Tyson, o espetacular pugilista que, nos anos 1980, espantou o mundo com a violência dos seus golpes.

Mike Tyson disparava potentes socos, que levavam à lona e ao nocaute seus adversários no ringue ainda nos minutos iniciais das lutas em que ele punha em disputa seu título de campeão mundial dos pesos pesados.

Esse extraordinário lutador veio de uma infância difícil, abandonado pelo pai aos dois anos de idade, passou pela delinquência criminal e uma internação em reformatório. Foi no reformatório que descobriu-se seu talento para o boxe, o que definiu seu futuro (pelo menos o mais próximo), ficando para a história como um campeão mundial invencível e cheio de dinheiro.

É bem verdade que ele colocou tudo a perder, envolvendo-se numa acusação de crime de estupro que o colocou numa penitenciária e dissolveu seu sucesso, bem como a muita grana que conseguira.

Essa introdução é feita para reforçar o que eu disse antes sobre as circunstâncias que moldam o nosso futuro.

Foi assim comigo. As circunstâncias pessoais, familiares e econômicas levaram-me a exercer, por algum tempo, a profissão de vendedor-viajante de auto-peças. Eu viajava pelo noroeste do Estado do Paraná, a serviço da ótima (e hoje extinta) Hermes Macedo S/A, vendendo peças de reposição para automóveis.

Minha clientela eram as lojas de Auto Peças, cujos donos (alguns deles, pelo menos) eram verdadeiras “peças” (serviço cultural: peças, no sentido de figuras extravagantes, engraçadas, cheias de manhas), sobre as quais pretendo um dia, no futuro, contar aqui no Blog.

Enquanto fui viajante-vendedor, tinha que, a cada quinze dias, comparecer a reuniões estratégicas na cidade de Londrina, próxima a Maringá (na época, 120 kms; hoje, 80 kms).

Para economizar, eu me juntava a outros vendedores-viajantes e íamos todos num carro só para as reuniões de trabalho.

Se a clientela tinha muitas peças, os vendedores constituiam uma fauna ainda mais especial, a maioria deles engraçadíssimos, o que tornava as viagens quinzenais uma verdadeira terapia, com muitas risadas.

O causo de hoje vai falar sobre o Nestor, um figuraça que ficou guardado na minha memória (o que justifica contar sobre ele no Blog), dotado de um humor ferino, mordaz mesmo.

Viajávamos de Fusca (por um bom tempo o único carro possível para a classe média trabalhadora do Brasil, na Economia fechada dos anos 1970), comigo na direção e com o Nestor sentado ao meu lado, na “carona”.

Quando estávamos atravessando uma cidadezinha (dentre as várias entre Maringá e Londrina), o Nestor vê um sujeito fortíssimo, parrudo mesmo, pedalando uma bicicleta.

Ele não se segurou, e debruçando-se sobre a janela do Fusca, soltou:

  • E aí, negão?!?! Roubou a bicicleta e está levando, hein??

Como o sujeito tivesse ficado indignado com a ofensa, começando a gritar ameaças, o Nestor começou a gargalhar, feliz com a própria “sacanagem”, dizendo que o Negão ficara muito bravo.

Pelo retrovisor, eu o avisei de que o Negão parecia furioso e pedalava, também furiosamente, a sua bicicleta, tentando nos alcançar.

Nestor, como estávamos de carro, não demonstrou preocupação. Contudo, duas quadras adiante, havia um sinaleiro (semáforo) e, quando chegamos ao cruzamento, ele estava fechado.

Cumpridor das leis de trânsito, parei o veículo (é ótimo chamar o Fusca de veículo...) e, olhando outra vez pelo retrovisor, avisei ao Nestor que o sujeito, com todo o jeito de enfurecido, ainda vinha pedalando, tentando nos alcançar.

Como eu já disse, o Negão era bem forte e o Nestor, olhando para trás, sentiu o perigo da situação. Começou, então a gritar, apavorado:

  • Fura o sinal, Osmar!! Fura o sinal, Osmar!!! Vai, vai, vai!!

Fiquei entre a cruz e a espada, monitorando a futura abertura do sinal para verde e o Negão injustamente ofendido, que se aproximava como se fosse uma locomotiva, daquelas tipo Maria Fumaça.

O sinal abriu!!

Como também podia “sobrar” para mim, dada a fúria do Negão, arranquei com toda a velocidade possível e logo deixamos para trás a ameaça justa e iminente.

Nestor demorou a se recuperar da “gracinha” mal calculada, mas seguiu com sua vida de figuraça.

A moral deste causo? Evidente: não mexa em quem está quieto pedalando.

Esse período, o de ganhar a vida como vendedor-viajante, possibilitou-me continuar os estudos, ingressar na Faculdade de Direito e, finalmente, tornar-me Promotor de Justiça, o que veio a definir minha trajetória pela vida.

Neste tempos de politicamente incorreto que hoje vivemos, explico o título da postagem e o próprio ocorrido. Naqueles dias, brincávamos sem policiamento sobre a cor das pessoas, sua orientação sexual, etc.

Não havia, em meu entender (e não estou sozinho neste entendimento), nenhuma maldade nisso. Ou não, como diria Caetano Veloso...

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