sábado, 30 de agosto de 2014

Um tiro de arrogância que saiu pela culatra...

UM TIRO DE ARROGÂNCIA QUE SAIU PELA CULATRA...



Para quem é versado nas coisas do Direito e da Justiça, é sabido que os membros do Ministério Público e do Poder Judiciário têm uma garantia de ordem processual, que consiste no chamado privilégio de foro.

Isso significa que os Promotores e Procuradores de Justiça, bem como os Juízes de Direito, quando porventura cometam crimes, serão processados criminalmente não como acontece com relação às demais pessoas, e sim perante o Tribunal de Justiça do Estado onde trabalham.

Justo ou injusto, esse privilégio (será mesmo privilégio?) está escrito na Constituição Federal. Mas notem que esse foro privilegiado existe somente para julgar os eventuais crimes cometidos pelos Promotores de Justiça e pelos Juízes.

Assim, caso o Promotor ou o Juiz tenham uma pendenga de natureza civil (ação de cobrança de dívida, divórcio, cobrança de alugueis atrasados, etc), eles terão que solucionar isso com uma ação judicial comum, como os demais cidadãos.

Pois bem, este causo vai tratar de um sujeito que se achava sabido demais e acabou traído pela sua própria ignorância a respeito dessas prerrogativas judiciais.

Dito sujeito fez um concurso para o cargo de Promotor de Justiça. Para isso, tinha que apresentar certidões de cartórios provando que não era processado criminalmente e nem civilmente, ou seja, que era “ficha limpa”.

Acontece que ele tinha uma dívida não paga, que estava sendo cobrada judicialmente. Ele não estava nem aí para o credor, e enrolava a questão.

Então o que ele fez? Através de uma artimanha qualquer, conseguiu tirar certidões negativas que mostravam sua ficha limpinha como bumbum de bebê (logo depois do banho, é óbvio).

Com as certidões negativas que apresentou, o sujeito foi considerado como uma pessoa sem máculas e, portanto, foi nomeado Promotor de Justiça.

Mercê da sua esperteza, lá estava ele, havia mais de um ano já, trabalhando na sua comarca como Promotor de Justiça.

Ocorreu que o credor dele, quando soube disso, pediu que a cobrança do seu dinheiro fosse encaminhada para o Juízo da comarca onde o mau devedor estava investido agora da autoridade ministerial.

Chegando a cobrança que ia atrás do devedor (isso chama-se carta precatória), o Juiz da comarca despachou normalmente, como faz com todos os processos desse tipo.

Assim, saiu um mandado de citação para o Promotor relapso, determinando que ele pagasse o débito ou indicasse bens para penhorar, a fim de garantir os direitos do credor.

Mas o espertalhão, imbuído de ignorância jurídica e de empáfia, devolveu o mandado de citação para o Juiz, dizendo que somente o Tribunal de Justiça do Estado poderia processá-lo. Lembrem-se do que foi dito no início deste causo: a ação era de natureza civil.

O Juiz, mesmo vendo a bobagem cometida pelo devedor/autoridade, não se fez de rogado: mandou o processo todo para o Tribunal de Justiça, na capital.

O Tribunal de Justiça, em recebendo a chamada “heresia jurídica”, remeteu o processo para a chefia do Ministério Público.

Para além da bobagem jurídica cometida pelo Promotor, sua chefia percebeu que a dívida era antiga e que a ação de cobrança já tramitava há bastante tempo no Poder Judiciário.

A conclusão óbvia foi a de que, como todas as certidões apresentadas pelo sujeito quando foi contratado como Promotor eram negativas, havia algum caroço naquele angu.

Ficou evidente que, para apresentar suas certidões sem aquela que registrava a dívida cobrada judicialmente, alguma fraude – ou seria mais aplicável maracutaia? -, teria havido.

Encerro o causo dizendo que o Promotor perdeu o cargo, sendo exonerado após um rápido procedimento interno.

Mas digam: foi ou não foi um típico caso de tiro que sai pela culatra? Vejam que, se o sujeito fosse bem-intencionado, teria pago sua dívida imediatamente, quando chamado pelo Juiz.

Mas não, achou-se autoridade demais e resolveu engambelar o credor por mais algum tempo, já que era Promotor...




segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Previsão certeira, mas...

PREVISÃO CERTEIRA, MAS...



Vou contar aqui um acontecimento do início do século passado, quando, em 1904, um almirante inglês, Sir John Fisher, chamado a assessorar o soberano da Inglaterra, Edward VII, num imbroglio internacional, afirmou que o rei não precisava se preocupar, pois o assunto seria resolvido, chegando a apontar, num mapa, o local exato.

Nestes nossos tempos, em que, mesmo com pesquisas eleitorais realizadas por vários institutos e repetidas vezes, não conseguimos nem saber o que acontecerá nas eleições presidenciais deste ano, essa previsão certeira do almirante chama a atenção.

Deu-se que o Czar russo, imperador da Rússia, buscando privilegiar os interesses comerciais do seu país, começou a se movimentar na direção das florestas do Yalu, na Coreia.

Ocorre que a Coreia era um país que vivia debaixo da influência do Japão, que não queria nenhuma potência europeia se intrometendo nas áreas de dominação nipônica.

Assim, em fevereiro de 1904, a esquadra japonesa, sem nenhuma declaração formal de guerra, afundou três navios russos em Port Arhur, na Manchúria, região da Ásia que fica bem próxima do Japão.

Como se nota, esse parece ser um costume dos japoneses, já que fizeram exatamente o mesmo em 1941, quando arrasaram Pearl Harbor, iniciando a guerra contra os EUA sem qualquer aviso.

Dois dias depois que os navios russos foram a pique, a guerra Japão X Rússia foi declarada. Naqueles tempos, essas brigas entre países deixavam a Europa numa tensão danada, porque os diversos países queriam evitar um conflito de grandes proporções.

A Inglaterra permaneceu neutra, mas o rei Edward VII foi informado, por seus especialistas, que a guerra devia terminar com a derrota do Japão.

E aí é que entra em cena o Almirante John Fisher. Falando ao rei sobre o desenrolar da guerra, apontou no mapa mundi o local exato onde a marinha japonesa seria aniquilada.

Embora o Reino Unido estivesse neutro, a guerra russo-japonesa logo levou a Rússia e a Inglaterra a um grave conflito. Os russos, tendo sido derrotados nas batalhas em terra, tentaram obter o domínio das águas, para isso transferindo sua esquadra de navios para os mares da China, passando pelo canal de Suez.

Numa certa noite de outubro de 1904, no porto inglês de Hull, aportaram navios pesqueiros ingleses seriamente desmantelados, cheios de mortos e feridos.

Esses barcos de pesca tinham encontrado a esquadra russa no escuro e, depois de focarem seus holofotes neles, os russos mandaram balas e granadas.

Com a notícia, a ira dos ingleses contra a Rússia foi enorme. Os jornais, a opinião pública e até alguns políticos exigiam a guerra contra os russos. O rei Edward VII, entretanto, foi sábio e paciente.

Cobrou explicações do Czar russo e este disse que havia sido tudo um terrível engano. Tendo aceitado a intermediação internacional, a Inglaterra viu a futura luta acabar com um pedido de desculpas da Rússia, acompanhadas essas de enorme indenização em dinheiro às vítimas dos barcos pesqueiros.

A esquadra russa seguiu seu roteiro em direção às águas japonesas. Falemos agora sobre a previsão certeira do título.

A esquadra russa foi exterminada exatamente no local em que o Almirante, Fisher, predissera que a Marinha do Japão iria à breca, perdendo a guerra...

A Marinha japonesa armou uma arapuca naquele local e, quando os navios de guerra russos chegaram, acabaram com eles, ganhando a guerra.

O “especialista” Fisher, como se viu, previu o fim da guerra e o local onde ele ocorreria, mas errou feio quanto a quem seria o vencedor.

A História nos ensina muitas lições. Pena que não aprendemos quase nada. No Brasil esse fato se confirma nos períodos eleitorais, quando deixamos elegerem-se velhos e antigos ladrões do dinheiro público.




quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Imagens de Rondônia em 1984 e 1985

Fórum de Guajará-Mirim, fazendo sustentação oral no Tribunal do Júri

À esquerda, vê-se o primeiro Fórum de Cerejeiras, nada mais que uma casa de madeira, abrigando o Judiciário e o Ministério Público. Ao lado, também aparecendo na foto, o prédio construído em alvenaria para ser o Fórum, onde ficamos melhor instalados.

Nestas fotos, estou fazendo sustentação oral no Tribunal do Júri, em junho de 1984, na comarca de Cerejeiras. O local utilizado era a sede local do C.T.G. (Centro de Tradições Gaúchas).

Mesma ocasião da foto acima, no CTG de Cerejeiras.

Em destaque no CTG de Cerejeiras, foto do Juiz de Direito e do autor do blog, em plenos trabalhos no Tribunal do Júri.

Nestas fotos, vemos o réu, condenado a uma pena elevada, na ocasião em que, ao ouvir a sentença ao lado de dois oficiais de Justiça, por ser o mandante de um homicídio cai ao solo, sendo amparado.

Também cenas do Tribunal do Júri no CTG de Cerejeiras.

Esta era uma das principais avenidas da cidade de Cerejeiras, comarca de onde fui o primeiro Promotor de Justiça. O Hotel Real, que aparece na foto, foi minha moradia por algum tempo.

Novas fotos do Tribunal do Júri no CTG de Cerejeiras. Aparecem o autor do blog, o Juiz de Direito, o escrivão Eduardo Xavier e o oficial de Justiça Orisvaldo Augusto de Carvalho, bem como o réu ouvindo a sentença.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Amizade Inseparável

AMIZADE INSEPARÁVEL



Carlos e Álvaro eram amigos de longa data. Reuniam as famílias por qualquer motivo, gostavam dos filhos do outro. Faziam pescarias juntos, de quinze em quinze dias. Quando os conhecidos viam um deles em algum lugar, já sabiam: o outro também estaria por lá.

Se analisados por um psicólogo, este diria que um complementava a personalidade do outro, sendo reciprocamente necessários, como se um fosse a calça que protegia as nádegas. Os amigos deles iam direto ao assunto: Esses dois são cu e carça”.

As esposas de ambos preocupavam-se diante da possibilidade de que, por causa de suas profissões e empregos, um deles tivesse que mudar de cidade. Afinal, diziam elas, quando os dois estão juntos, pelo menos um cuida do outro.

Mas a vida seguia, enquanto Carlos e Álvaro se infernizavam mutuamente, contando entre si as piadas mais infames, cuja graça estava simplesmente no fato de não terem graça alguma.

Na última vez que haviam se encontrado no boteco de sempre – que já tinha separadas a mesa e as cadeiras dos dois – Carlos peguntara a Álvaro se ele sabia o que o Saci-Pererê, ao chegar em casa cheio de testosterona, dissera à sua mulher, a Sacia?

Álvaro, já esperando um absurdo qualquer, típico entre eles, disse que não sabia.

Então Carlos, antegozando a ótima piada e já rindo, respondera que o Saci-Pererê gritara para a mulher Sacia: Fica de três aí!!

O nível da piada já fora demonstrado pelo nome dado à esposa do folclórico curumim de cor morena, dotado de apenas uma perna e usando ridículos gorrinho vermelho e cachimbo...

O nome ridículo dado à esposa do peralta perneta, Sacia, tinha a única finalidade de determinar que ela também era perneta.

Então, sobreveio o desastre...

Álvaro sofrera um brutal infarto, que abreviou sua vida; em plena maturidade, mas ainda longe da velhice.

Os amigos procuravam consolar Carlos, chamando-o para suas casas e festas. Mas ele parecia inconsolável. Era nítido o abalo que sofrera.

Pouco mais de um mês após a morte e sepultamento de Álvaro, a mulher de Carlos, depois de muita conversa, o convenceu a fazer uma pescaria no mesmo local onde sempre pescava com o amigo.

  • Vá, Carlos, você precisa se distrair... Pense nessa pescaria como uma homenagem ao seu amigão Álvaro... - dizia ela.
Acabou convencendo o marido. Carlos resolveu que iria para as margens do rio, cenário de suas pescarias e das muitas piadas infames.

Ele saiu cedo. Embora a distância da viagem fosse pequena, logo que o sol saiu e clareou sua tristeza, Carlos pegou seu carro e pôs-se na estrada.

No começo da viagem, um belo susto. Quando seu carro atingiu o cimo de uma lombada, Carlos deu de cara com uma carreta fazendo uma ultrapassagem arriscada!

Reagindo rapidamente, Carlos deu uma guinada no volante e seu carro deu uma forte sacudida, logo voltando a rodar normalmente.

Ficou abalado com o susto. Suas pernas tremiam. Seu fôlego começou a voltar aos poucos. Tirou o pé do acelerador, fazendo diminuir a velocidade do seu carro.

Passado aquele imprevisto apavorante, Carlos seguiu viagem. Todavia, parecia que o trânsito, naquela manhã em especial, estava perigoso.

Pouco mais adiante, um carro entrou de inopino na estrada, fazendo com que Carlos fizesse malabarismos ao volante para escapar da batida, evitando que seu próprio carro capotasse.

  • Que coisa! Que maluco! - pensou Carlos.

Essa pescaria não se prenunciava boa. Logo a seguir, o carro de Carlos, parecendo tomar vida própria, começou a acelerar fortemente a velocidade, assustando-o novamente. Seria o cabo do acelerador com defeito? Aquilo logo cessou.

Assim, impressionado com os seguidos incidentes na estrada, Carlos, ao ver uma frondosa árvore no acostamento, provendo uma sombra maravilhosa, resolveu fazer uma parada para descansar.

Sim, era isso de que ele precisava: um bom descanso.

Após estacionar cuidadosamente o veículo junto da árvore, Carlos notou que havia mais alguém ali, sentado tranquilamente e gozando a sombra benfazeja.

Resolveu acercar-se do sujeito, para conversar um pouco e contar as suas recentes desditas rodoviárias.

Aí veio o susto seguinte: quem estava lá sentado era Álvaro!!

Confuso, estupefato, Carlos olhou firme para aquela cópia do seu amigão Álvaro. Nada conseguiu dizer, pois aquilo era muito estranho.

O sujeito levantou-se calmamente e, olhando carinhosamente para Carlos, quis explicar-lhe a situação:

  • Meu querido amigo Carlos! Sou eu mesmo, o Álvaro! Sei que você está estranhando encontrar-me aqui, até porque você foi ao meu enterro recentemente.

Recuperando-se um pouco da sua confusão mental, Carlos perguntou:

  • Álvaro? Como você pode estar aqui? Eu estava indo para o nosso acampamento, na beira do rio, e pretendia fazer uma homenagem póstuma a você. Meu plano era jogar sua tralha de pesca no fundo do rio...

Com uma entonação tranquila, Álvaro, abraçando Carlos, clareou a mente dele:

  • Carlos, lembra-se daquele ponto na estrada em que você quase bateu de frente com um caminhão? Pois é, você não passou dali. Bateu de frente com ele e morreu na mesma hora. Os demais quase-acidentes havidos depois disso eram uma tentativa de prepará-lo para esta hora. Como não deram certo, eu próprio vim contar para você.

Devem estar, ambos, pescando e contando piadas infames...





quinta-feira, 3 de julho de 2014

Coragem efêmera

CORAGEM EFÊMERA



Nos primeiros anos de meu trabalho como Promotor de Justiça, acabei por ter uma prova cabal da “macheza” de alguns homens.

A Promotoria de Guajará-Mirim, de longe a preferida por mim e a que guardo com mais carinho na memória, foi o palco dos acontecimentos.

O dia de trabalho mal tinha começado (eram pouco mais de oito horas da manhã), e eu estava a postos no meu gabinete.

Entra um sujeito, ar de assustado, pedindo para falar comigo. Eu o mandei sentar-se e perguntei-lhe qual era o problema.

Ele foi direto ao assunto: queria saber como mudar o nome do seu filho.

  • Por quê você quer mudar o nome da criança? O cartório registrou o nome errado? Qual é o problema? - perguntei a ele.

Ele disse que não tinha havido erro do cartorário ao registrar o nascimento do filho dele, mas que mesmo assim precisava mudar o nome da criança.

Já que o sujeito demonstrava nervosismo, pedi-lhe para me mostrar a certidão de nascimento do filho. Ele passou-me o documento.

Para minha surpresa, o registro tinha sido feito naquele mesmo dia, cerca de uma hora antes!

Verifiquei o nome dado à criança, e era um desses nomes normais, nada como um desses exemplos: Comigo é Nove na Garrucha Trouxada, Colapso Cardíaco da Silva, Faraó do Egito Souza, João Sem Sobrenome, Napoleão Sem Medo e Sem Mácula, Produto do Amor Conjugal de Marichá e Maribel, ou coisa parecida.

Acredite nos exemplos acima, pois há quem tenha esses nomes. Mas não era o caso daquele sujeito e de seu filho recém-nascido.

Comecei, portanto, a interrogar o mais novo membro da comunidade dos pais, e vi que a coisa era mesmo cabulosa.

Deu-se que, no dia anterior, o filho do sujeito, pretenso trocador de nome, nascera. Em conversa familiar com a esposa e a sogra, na noite anterior, decidiram elas que o nome seria um que homenageasse o avô, pai da mulher e marido da sogra.

No dia seguinte, bem cedo, o pai saiu de casa, encaminhando-se para o Fórum, onde ficava o cartório do registro civil.

Ocorre que, no meio do caminho, aquele sujeito trêmulo sentado à minha frente encheu-se de coragem e resolveu cometer a suprema rebeldia: colocar no filho recém-nascido um outro nome, mais ao seu gosto.

Munido daquele sentimento de liberdade e de independência, chegou no cartório do registro civil e mandou bala, registrando o nome de sua escolha para o menino.

Acho que, enquanto mandava às favas a sugestão da mulher e da sogra, ele bufava heroísmo, pensando que a megera da sogra havia se “ferrado” com ele...

Terminado o registro, já com a certidão de nascimento em mãos, o corajoso encaminhou-se para casa, “pisando duro”.

Mas... quando já quase chegava em casa, veio o arrependimento. Ele parou de “pisar duro” e foi diminuindo a velocidade da caminhada. Finalmente, o medo venceu a ousadia: ele fez meia volta e voltou para o Fórum.

E ei-lo aqui, na Promotoria de Justiça, querendo que eu o ajude a mudar o nome dado ao filho. Expliquei-lhe que isso não era possível, pois a lei proibia isso.

O sujeito fez uma cara de visível desespero e perguntou-me:

  • Mas o que eu digo para a minha mulher e para a minha sogra lá em casa, Doutor? Elas vão me matar...

Eu, apenas habilitado para as lides jurídicas, longe de ter feito um curso sobre a arte militar, guerras, morticínios e outros saberes mais aplicáveis ao caso, nada pude dizer ao infeliz pai e suposto futuro defunto.

Somente pude contemplar, penalizado, o pobre pai, ex-rebelde, sair em direção à sua casa, arrastando os pés rumo ao cadafalso.

Acho que acabou não morrendo, pois não mais tive notícias dele...



domingo, 29 de junho de 2014

Bala perdida

BALA PERDIDA


João saiu de casa para o trabalho não muito cedo, até porque seu local de trabalho era bem perto de casa. No caminho, pouco antes das sete da manhã, ia pensando nos problemas que teria de resolver na empresa.

Como de costume, ia pensando sobre as coisas da sua vida. Pelo jeito agradecido de um cliente da firma, elogiando o seu trabalho, contava que seu patrão tinha reconhecido sua importância. “Tomara que isso vire um aumento de salário ou coisa parecida”.

Depois sua mente focou a vida familiar. No último domingo, quando fizera um churrasco e chamara a parentada, acabara sofrendo uma decepção. Aquele babaca do seu cunhado, que lhe devia uma boa grana, nem tocara no assunto.

João já tinha ficado meio desconfiado quando o cunhado lhe pediu um empréstimo, dizendo que tinha um bom dinheiro para entrar nos próximos dias, mas que aparecera uma oportunidade única. Se ele não conseguisse arrumar o dinheiro, perderia uma chance de lucrar bastante...

Sua mulher ajudara o irmão, seu cunhado, dizendo que não custava ajudá-lo, que certamente ele devolveria a grana logo, e toda aquela conversa própria de quem já tinha tido a cabeça feita pelo irmão.

O problema era que, passados quatro meses, aquela oportunidade única não era tão única assim e o empréstimo estava tomando ares de doação. E o cara ainda vai filar churrasco e cerveja em sua casa no domingo...

O pior, além da grana que parecia ter virado vento, era ter de aguentar a bronca do velho. Bem que o pai, quando soube do empréstimo, o qualificara de “sonora besta quadrada”. Agora, a cada momento, o velho o lembrava do dinheiro perdido.

Bem”, pensava João, mas já era sexta-feira e o futebolzinho com os amigos iria rolar no sábado, embora sua barriga estivesse tomando proporções que começavam a atrapalhar suas jogadas de craque.

E nessas divagações ia João até que uma coisa chamou sua atenção. Um carro passou velozmente por ele e, logo adiante, deu uma sonora freada, parando junto de um carro forte, desses que transportam dinheiro.

Em seguida João ouviu o som de um tiro. “Êpa, pensou, isso é um assalto e aqui vai ficar perigoso”.

Ao ouvir o segundo tiro, João, pensando rápido, jogou-se ao chão para não ficar no meio do caminho das balas. Em seguida, seus ouvidos foram agredidos por uma intensa fuzilaria.

Deitado no chão João estava e deitado ficou, pensando em fingir-se de morto para evitar que os bandidos “invocassem” com ele, ou que um policial amalucado achasse que ele também era bandido.

Ouviu-se o som do carro dos bandidos partindo em velocidade, “cantando os pneus”.

Não havia mais tiros, mas João resolveu continuar ali imóvel até se certificar de que não havia mais perigo. Sua mente já antegozava o momento em que poderia contar aos colegas de trabalho a aventura de que fora protagonista.

Ficou envolvido com esses pensamentos até que teve sua atenção despertada por alguns policiais que se aproximavam dele. João pensou em levantar-se bem devagar e explicar sua condição de mera testemunha do crime.

Mas, estranho, seus braços não se mexeram para levantá-lo do solo. Tentou mover a cabeça, mas também não teve resposta do corpo.

Aquilo era esquisito, e João não entendia o que estava acontecendo. Mas o que ouviu de um dos policiais o remeteu à verdade:

Este aqui não teve a menor chance. Foi atingido por uma bala perdida, bem na testa, e caiu já morto. Infelizmente, ele estava no local e na hora errados.”



segunda-feira, 12 de maio de 2014

Três cascavéis e uma víbora

TRÊS CASCAVÉIS E UMA VÍBORA



Uma das poucas coisas que eu faço bem é preparar e assar um churrasquinho. Quando bem jovem, um cunhado, conhecido como Ligeirinho, ensinou-me um novo jeito de assar uma carne, que eu adorei e levei comigo para toda a vida.

Quase todos conhecem o tal churrasco, que é chamado, dentre outros nomes, de Gengis Khan. O preparo da carne deve ser feito com alguma antecedência – de preferência de um dia para o outro -, e envolve algumas coisas esquisitas como gengibre, shoyu, cebola e... carne, é óbvio.

Quando fui para Rondônia, apresentei aos amigos de lá esse tipo de churrasco, do qual gostaram muito. Acariciavam o meu ego me pedindo para fazê-lo de vez em quando.

Deu-se que, numa ocasião, quando eu era Promotor de Justiça em Guajará-Mirim, resolvi fazer um Gengis Khan e convidei alguns amigos. Infiel à política de não citar nomes nos meus “causos”, vou dizer o nome deles: Wadih e Valdir, com suas esposas, e o Cássio.

Preparei caprichosamente o tempero da carne com minha esposa e coloquei a carne na geladeira para descansar e “pegar” o tempero. Tudo pronto, pois, para regalar os amigos com minha especialidade.

Mas, após isso, recebi um telefonema da capital, dos meus superiores no Ministério Público, me dizendo que havia um problema qualquer na comarca de Costa Marques, pela qual eu também era responsável.

Acatando a determinação, na manhã seguinte um avião me transportou para Costa Marques, onde fiquei alguns dias resolvendo problemas. Para não deixar os amigos frustrados, pedi à minha esposa para que congelasse a carne para que, no meu retorno, eu fizesse o churrasco.

Ela, solidária com o meu churrasquus interruptus (já disse antes que o blog também é cultura...), colocou a carne toda num recipiente redondo e branco, depositando-a no congelador.

Voltei alguns dias depois para Guajará-Mirim, sentindo-um um guerreiro de volta ao lar. Dei uma rápida olhada no congelador e verifiquei que a carne lá ainda estava, pelo menos aparentemente.

Assim, no primeiro final de semana seguinte, eu disse à Zilda que iria fazer o churrasco de Gengis Khan e que iria chamar os mesmos amigos, cujos nomes já citei antes.

Liguei então para o Cássio, para o Wadih e para o Valdir, chamando-os novamente e já fui pegando a churrasqueira especial para assar a carne, assim como o carvão.

Contudo, para minha surpresa, quando peguei o tal recipiente redondo no congelador, notei que ele estava muito leve.

Intrigado, abri-o e vi que dentro dele havia apenas um bilhete, escrito com a letra da cascavel Cássio:

  • Vale um churrasco de Gengis Khan.

Não precisei ser nenhum gênio para concluir que, enquanto eu me esforçava fazendo Justiça na cidade de Costa Marques, as três cascavéis foram à minha casa, assaram o churrasco e comeram toda a carne.

Tudo isso não poderia ser feito sem o auxílio e conivência de minha esposa, que me deixou “namorar” o recipiente vazio dentro do congelador, sem contar-me que o churraquus interruptus não mais existia.

Partindo do título, vocês facilmente saberão quem é a víbora deste “causo”, não é?

Finalizo contando que os peçonhentos convidados compareceram de novo à minha casa e exigiram que eu preparasse outro churrasco.

Pois é: para fazer Justiça, sofri uma injustiça!