VACILO
OU MANCADA? O LEITOR DECIDE
Um
dos melhores comediantes que já vi e ouvi foi o José Vasconcelos,
um humorista daqueles que nos faz rir sem dizer qualquer piada. O
José Vasconcelos tinha um dito famoso. Ele dizia que o “brasileiro
é o único sujeito no mundo que sabe que vai dar mancada...e dá!”.
A
minha brasilidade não está só estampada nas bandeiras nacionais
que ostento em meu apartamento e em minha casa de campo. Ela fica
patente nas várias mancadas – vacilos? - que já dei em minha
vida, das quais vou contar duas para, num ato de expiação, falar
mal de mim mesmo.
A
primeira deu-se em Porto Velho. Faleceu um querido amigo meu, o Nenê
e, depois de comparecermos ao enterro, veio o costumeiro convite para
a missa de sétimo dia.
Pergunto-me
sempre a razão de tal ofício religioso da Igreja Católica
chamar-se missa de sétimo
dia. Será
que os dogmas religiosos procuram certificar-se de que, após sete
dias de morto o “missado”, ele não vai ressuscitar e estragar a
missa celebrada em sua homenagem?
A
resposta eu deixo para os teólogos, vez que as religiões em geral
não são o meu forte (se é que há alguma coisa forte em mim).
Acompanhado
de minha querida consorte (pelo que eu próprio sei de mim mesmo, ela
é uma com-azar...), fui à igreja homenagear, pela última vez, o
amigo de vários anos.
Lá
dentro encontrei um casal de amigos chegados, que sentaram-se na
fileira de bancos exatamente atrás da minha. Eu os cumprimentei e
logo iniciaram-se os trabalhos diassetimais
(o
blog, para honrar a cultura brasileira, cria neologismos).
Lá
na frente o padre celebrava a missa, com as homenagens de praxe ao
falecido. Eu, por não ser católico, não sei bem qual é o
organograma burocrático das missas em geral e costumo observar
calado o senta-levanta
e as recitações
em resposta ao que o padre fala.
Por
que eu fico observando? Para não dar mancada, vacilo, bobeira ou
outro nome para aquilo que você faz errado e chama a atenção sobre
si.
Lá
para as tantas, todos os presentes à missa (missantes
ou missivistas?)
levantaram-se e começaram a cumprimentar-se.
O
meu amigo que estava atrás de mim bateu em meu ombro e deu-me a mão,
bem como sua esposa. Aí é sacanagem. Toda a minha cautela foi para
o espaço sideral.
Eu
perguntei a eles, na bucha:
- Já vão?
Levei
uma forte cutucada da Zilda, me alertando para o fato de que aquele
cumprimento não era uma despedida do meu amigo, e sim uma parte
(ignota pra mim) dos rituais da missa.
Segundo
fiquei sabendo mais tarde, as pessoas que estão na missa desejam a
Paz do Senhor
às pessoas que estão próximas a você.
Mas
as pessoas podem perfeitamente ir
embora e
estar na
Paz do Senhor,
não podem?
Minha
segunda mancada foi pior, muito pior!
Deu-se
que, estando em férias, viajamos de Porto Velho para Curitiba, onde
os filhos estudavam.
Na
primeira noite livre, eu quis ir a um daqueles bares bacanas da
capital paranaense para tomar um chopinho, junto com os filhos.
Antes
de sair para o boteco,
fizemos um “apronto” enquanto esperávamos meu filho Gerson
chegar, pois ele havia ido buscar a sua namorada. Comigo estavam
também meu outro filho Zé Luiz e meu sobrinho Rafael.
Quando
o Gerson chega, ele nos apresenta à sua namorada, que tinha uma
especificidade física: ela não tinha uma das mãos.
Eu
estava indo bem, até porque não quis trocar um aperto de mãos com
a tal namorada...
Após,
tomamos um táxi e chegamos a uma choperia muito ajeitada, típica
das de Curitiba.
O
garçom veio e nos trouxe os chopps e o papo iniciou. Em minha
defesa, digo que o papo com os filhos, o sobrinho e a jovem é
naturalmente difícil, vez que eles estão na flor da idade e eu
estava no início das minhas férias, com a cabeça ainda “girando”
no ritmo dos processos judiciais.
Resolvi,
então, animar aquela mesa. Mas nesse exato momento, um dos meus dois
neurônios (pode-se chamá-lo de neuronhos,
vez que eu estava no segundo chopp), saiu para fazer alguma coisa e
eu, pegando alguns palitos de fósforo, dei a minha José
Vasconcelada
(pode chamar de mancada que ela atende):
- Vamos jogar palitinhos?
Seria
a mesma coisa que chamar para jogar futebol um tetraplégico!
O
jogo acabou acontecendo, com as dificuldades que vocês podem
imaginar.
Como
eu sou um tipo de sujeito daqueles que pode ser caracterizado como o
cara do carção
verde
(como diz um querido amigo), aprendi a lição. Nunca peço para
jogar palitinhos antes de ver se não há algum deficiente físico
dentre os presentes.