segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A vida é um sopro

A VIDA É UM SOPRO...



Vou contar, aqui, um acontecimento mais recente, já na condição de aposentado do Ministério Público. Faço isso mais como uma homenagem a uma pessoa que, bem-humorada e de bem com a vida, dela partiu por causa de eventos inusuais.

Logo que adquiri minha casa da Pousada do Paranapanema, localizada no município de Santo Inácio, tratei de comprar um barco destinado ao lazer e às minhas pescarias e da incomparável Zilda.

Cauteloso, antes de colocar o meu barco para navegar no belo rio Paranapanema, procurei alguém que conhecesse o rio e seus mistérios, para me ensinar as armadilhas que – acreditem – todo rio tem.

Quando o meu “professor” do rio chegou, na manhã em que iríamos ser apresentados ao rio, ele se identificou como sendo o Baixinho.

Navegamos, Zilda, ele e eu por umas três horas, enquanto eu procurava memorizar os pontos problemáticos do rio Paranapanema.

Terminado o passeio fluvial, paguei ao Baixinho por seus serviços e perguntei o nome dele, pois não gosto de chamar ninguém pelo apelido.

Ele não disse. Afirmou que todo mundo o conhecia como Baixinho e que, se eu perguntasse por ele pelo nome de batismo, ninguém saberia dizer quem era. Se era esse o seu desejo, não seria eu a contrariá-lo.

Ao longo do tempo, fizemos outros passeios e pescarias no rio, sempre com ele sendo prestativo e atencioso.

Mas, o destino...

Certo dia, no ano de 2012, eu fui para a minha casa na Pousada a bordo de um carro novo, “zero” quilômetro”, todo pimpão com a novidade (pobre é assim mesmo...).

Logo depois que cheguei, o Baixinho apareceu, com sua moto, e veio conversar comigo. Desmoralizou, logo de saída, meu carro novo:

  • E aí, seu Osmar, carro bem reformadinho, hein?
Relevei a inoportuna agressão às minhas vaidades automobilísticas e, como tinha pouco antes ido, numa viagem, à Bolívia, o presenteei com uma carretilha nova em folha. Pescador inveterado, ele ficou felicíssimo.

A minha esposa, sabedora dos meus nulos conhecimentos práticos, logo pediu ao Baixinho que a ajudasse a montar um dos móveis da casa. Gente boa, ele não rejeitou o trabalho e logo resolveu a “coisa” que, para minhas inábeis mãos, levaria décadas.

Em seguida, eu perguntei-lhe se não poderíamos ir pescar um pouco naquela tarde, pois eu queria conhecer novos pesqueiros.

Pescaria o Baixinho não recusava de jeito nenhum. Assim, logo começamos a aprontar meu barco e separar a tralha de pesca, ficando tudo prontinho. Como era quase hora do almoço, ele disse-me que iria almoçar com a sua esposa e que, logo após, nós sairíamos para a pesca.

Passaram-se dez, quinze minutos, depois da saída do Baixinho e apareceu um sujeito, de moto, perguntando se era eu quem iria pescar com ele.

Eu respondi afirmativamente, é claro. O sujeito falou-me:

  • Olha, o Baixinho pediu para avisar o senhor que ele não vai poder mais ir pescar, pois ele caiu da moto e vai ter que ir ao Hospital.
Incontinenti, peguei meu carro novo, que o Baixinho desqualificara pouco antes, e sai atrás do motoqueiro, pois pretendia levar o acidentado ao Hospital com meu carro que, apesar de bem reformado, é grande e espaçoso.

Chegando ao local, ofereci-me para levá-lo ao Hospital, mas ele recusou, dizendo que, como tinha problemas na coluna cervical, esse tipo de transporte improvisado poderia prejudicá-lo ainda mais.

Assim, procurando ser solidário, aguardei junto com ele, que estava deitado no chão e com dores, até que a ambulância chegasse.

Depois de uma meia hora, esta chegou. Cuidadosamente colocamos o Baixinho na maca e o instalamos dentro da ambulância.

Como eu gostava muito do Baixinho, pouco antes de o motorista da ambulância fechar as portas do carro eu dei-lhe um tapinha nos ombros e disse-lhe para ficar tranquilo, e que tudo daria certo.

Palavras nada proféticas...

Como a pescaria estava cancelada, almocei tranquilamente, com direito à sesta depois.

Depois de acordado, sai para dar uma volta pelo lugar e encontrei uns funcionários do Condomínio, que me perguntaram:

  • O senhor soube do Baixinho?

Eu respondi que sabia, sim, pois eu até o ajudara a embarcar na ambulância. Para minha surpresa, eles disseram:

  • Não, então o senhor não sabe. Ele morreu.

Pois não é que a ambulância, velha demais, típica do desprezo dos políticos brasileiros depois do momento eleitoral, e com pneus “carecas”, teve um deles estourado na viagem e, capotando, causou no Baixinho ferimentos que o mataram?

Chocado, triste, somente me restou aguardar a chegada do corpo do Baixinho na cidade de Santo Inácio, onde seria velado e enterrado.

No dia seguinte, ao ir ao velório, finalmente descobri o nome do Baixinho: era Clodoaldo.

Como eu disse no título, a vida é um sopro...





quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Tempos pré-internet e DNA

TEMPOS PRÉ-INTERNET E DNA



Hoje, nesses tempos bicudos, quando está em evidência o matadouro patrocinado pelos Sarney lá no Maranhão, é até fácil prender criminosos. O problema é que faltam cadeias.

Na década de 1980, o meio de comunicação mais moderno que havia era o telex, uma máquina grande e feia, dotada de um teclado enorme.

Assim, prender criminosos que fugiam para outras paragens do País era muito mais difícil, pois também era muito fácil obter-se novos documentos nos vários Estados do Brasil.

Para novo nome e novos documentos, bastava dizer que não tinha sido registrado pelos pais e, com alguma manha, obtinha-se uma certidão de nascimento novinha em folha, com um outro nome e filiação.

Por causa disso, uma vez tive que ajudar a prender um homicida lá do Mato Grosso quase que no “laço”.

O caso deu-se quando eu era Promotor de Justiça em Guajará-Mirim, a “Pérola do Mamoré”.

Havia, no comércio local, uma excelente padaria, com uma clientela bastante razoável para cidade pequena.

Certo dia, compareceu na Delegacia de Polícia a mulher do dono dessa padaria, reclamando que havia levado uma surra do marido (naquele tempo não tinha esse negócio de Lei Maria da Penha) e que, por isso, queria delatá-lo.

Ela narrou que, quando moravam em Rondonópolis, seu marido, usando o nome verdadeiro, havia matado a tiros um oficial de Justiça. Ela contou que, enquanto o processo caminhava no Fórum, o marido fugiu para Goiás, obteve novos documentos e acabou instalado em Guajará-Mirim.

Como o negócio comercial ia bem, ele quase havia esquecido a vida anterior, encerrada bruscamente com o episódio do homicídio.

Como eu dizia, se naquele tempo não havia ainda a Lei Maria da Penha, temos que levar em conta que mulher espancada e com raiva é pior do que dormir com uma cobra cascavel dentro de casa.

Pois ela foi à Polícia e contou tudo para o Delegado. O Delegado passou o problema para mim, pois não tínhamos como provar que o à época comerciante de sucesso era o homicida de Rondonópolis. Sem isso, a prisão não seria possível.

Fiz um contato com o Promotor de Justiça de Rondonópolis, que era meu conhecido, e contei-lhe tudo. Ele, corretamente, disse-me que somente com uma planilha datiloscópica contendo a impressão digital de todos os dedos das mãos do sujeito ele poderia confirmar a acusação feita pela mulher do espancador.

Mas, como obter as impressões digitais do comerciante sem afugentá-lo?

A chance apareceu quando o sujeito, na condição de comerciante, praticou um crime de pouca gravidade, crime esse contra o consumidor.

O Delegado de Polícia não perdeu a chance.

Foi até a padaria e prendeu em flagrante o seu dono, levando-o para a Delegacia e... colheu as impressões digitais dele.

Seria, guardadas as proporções do crime (o praticado contra o consumidor), como se alguém avançasse um sinal vermelho nas ruas da cidade e o BOPE, ou a ROTA, fossem chamados para prender o motorista.

O sujeito pagou fiança, foi solto e ficou tranquilo, sem sequer imaginar a “dedurada” que sua esposa espancada havia cometido.

Esses fatos ocorreram no ano de 1985, e vocês podem imaginar a dificuldade de enviar a planilha datiloscópica de Guajará-Mirim para Rondonópolis. Se fosse hoje, com tudo digitalizado, seriam segundos. Na época, levou muito tempo.

Demorou, mas o Fórum de Rondonópolis recebeu a planilha e confirmou que era ele mesmo o assassino do oficial de Justiça.

Finalizando, o comerciante foi preso e enviado para a cidade onde cometeu o homicídio, sendo condenado e mandado para a penitenciária.

Tudo ficou mais fácil dentro dessa dificuldade toda (Êpa!, temos aqui um paradoxo, facilidade versus dificuldade) porque eu havia feito amizade com o Promotor do Mato Grosso, o que facilitou a nossa conversa, e o fato de que, se você é um corajoso marido que bate na esposa, deve evitar cometer crimes por aí...

Não nos esqueçamos de que hoje em dia, com o exame de DNA, um simples fio de cabelo do criminoso na cena do crime e um outro fio obtido na pia da casa onde ele se esconde, bastaria para identificá-lo e prendê-lo.

Hoje em dia, com a explosão da informática e dos meios de comunicação, contraposta com a involução dos meios das Polícias, você comete o crime – qualquer crime -, tira sarro da cara dos policiais que o prenderam e do Delegado, sai da cadeia em tempo recorde e vai gozar a vida.

Alguns até conseguem fazer uma “vaquinha” para pagar as multas e despesas do processo criminal...






terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Escapando da vassourada

ESCAPANDO DA VASSOURA



Vou contar um “causo” do meu início de carreira, nos idos de 1984, bem curtinho como gostam alguns leitores.

Certo dia, saindo do Fórum para almoçar, eu dirigia-me até o restaurante. Andando junto comigo, ia um advogado, um sujeito já idoso, que também acabara de sair de uma audiência.

Não me lembro do nome desse advogado (e, se soubesse, não o diria aqui, por política do blog), mas era um desses nomes estranhos, estrambóticos, como Deuzêncio, Eulâmpio ou, no caso feminino, Holofontina.

Nós íamos conversando normalmente enquanto caminhávamos, mas, quando chegamos em certo trecho da rua, vi que ele ficou mais atento ao que nos cercava.

Logo mais adiante eu fiquei sabendo a razão daquela prudência inesperada do advogado.

Já mais próximo do restaurante, o advogado despediu-se rapidamente de mim e, andando muito rapidamente, cruzou a rua e sumiu numa transversal.

É que ele vira uma mulher, ao vê-lo passando, entrar correndo dentro de casa.

Só vi quando a mulher saiu na rua, munida de uma vassoura, gritando:

  • Cadê aquele cachorro que andou com conversinhas com minha filha? Cadê o safado?

Fiquei sabendo depois, ao comentar o ocorrido no Fórum, que o sujeito tentara “passar uma cantada” numa filha menor de idade daquela mulher, que prometeu pegá-lo de vassouradas.

Quase conseguiu...




domingo, 22 de dezembro de 2013

No esquecimento, não!

NO ESQUECIMENTO, NÃO!


Algumas coisas não podem cair no esquecimento, tal como aquele colega cheio de manhas que narrei no “causo” anterior.

Por isso, lembrei-me de uma pescaria inolvidável, menos pelos peixes fisgados e mais pelos vários acontecimentos de um período passado junto com bons amigos e no meio ambiente mais propício para se relaxar das tensões do trabalho: um rio.

Em meados da década de 1990, diante de um feriadão prolongado, alguns colegas Promotores de Justiça tivemos a ideia de aproveitar a folga no trabalho para fazermos uma pescaria no Rio Machado.

Para tanto, faríamos uma longa descida rio Madeira abaixo até chegarmos a uma localidade de nome Calama, situada exatamente defronte onde as águas do rio Machado deságuam no rio Madeira.

Éramos uns doze pescadores amadores, que, a rigor, não apresentavam grandes riscos para a fauna dos rios daquela região.

Começamos pelo óbvio: o planejamento. Este envolvia fretar um barco de dimensões médias, com capacidade para armarmos nossas redes de dormir no convés, além de cozinha e instalações sanitárias.

Além disso, teríamos que planejar as compras de mantimentos a serem levados para aquele curto período de cinco dias: carnes, aperitivos, cereais, etc, não podendo ser olvidada a importantíssima cerveja.

Os petiscos (azeitonas, salames e outras guloseimas) seriam destinados a, nas noites que passaríamos a bordo, instalados confortavelmente no convés superior do barco, podermos “colocar a conversa em dia” tomando uma cerveja gelada. Isso tudo regado à agradabilíssima brisa que sopra no rio enquanto navegávamos.

Dias antes da aventura piscatória, nos reunimos para checar a lista de gastos e ultimarmos as providências.

A lista de compras estava bastante bem discriminada, contendo carnes (costelas de boi, linguiças, picanhas, etc), o arroz e feijão tão básico para nós brasileiros e muita, mas muita mesmo, cerveja.

Nesta reunião antes da partida, decidimos que cada qual levaria o próprio equipamento de segurança, ou seja, o colete salva-vidas, para evitar que dependêssemos apenas dos fornecidos pelo dono do barco.

Essa decisão teve graves consequências para um funcionário de uma loja de Caça & Pesca, atormentado que foi por um dos colegas quando da escolha do colete salva-vidas, “causo” que já contei aqui no blog.

Ocorre que a lista de compras e providências necessárias para o período embarcados finalizava com um item pitoresco: “passagem marítima”!

Após uma rápida pesquisa no Google, confirmamos que o rio Madeira era isso mesmo, ou seja, um rio. Como, então, “passagem marítima”?

Reunidos os doutos e jurídicos pescadores-promotores, refizemos a denominação a ser dada ao pagamento dos serviços do dono do barco onde viajaríamos, chegando à impecável renomeação para “passagem fluvial”!


Resolvido tudo, embarcamos em Porto Velho e começamos a descer o rio Madeira. Para curtir aquele fim de tarde e o começo da noite, subimos todos ao deck superior da embarcação.

Todos sentados e curtindo a brisa do rio, começamos a tomar cerveja e a bater papo. Tudo parecia tranquilo e as horas passavam calmas, mas nós havíamos deixado ao acaso um importante evento ligado à navegação, e a tragédia se avizinhava.

A tragédia tomou, depois de ocorrida, o nome de sopão.

Junto conosco, havíamos levado um competente cozinheiro, que providenciaria ótimas comidas a bordo. Entretanto, como demorássemos a pedir o jantar, o cozinheiro ficou tranquilo em seu canto.

Para nossa surpresa, quando mais animado rolava o papo regado a cerveja, subiu até nós o cozinheiro “oficial” do barco e anunciou:

  • Pessoal, “a janta” está pronta, e eu fiz um sopão que dá para todo mundo”.

Uai, pensamos todos, não estava previsto que não seria o barco que providenciaria as comidas? Que surpresa era aquela?

Descemos ao deck inferior, onde estava servido o jantar. Lá estava um enorme caldeirão fumegante.

O sopão, ou melhor, a tragédia, era uma gororoba impensável – e incomível!

Todo orgulhoso, o cozinheiro, mexendo uma concha dentro do sopão, mostrou-nos os ingredientes que utilizara. O desinfeliz picara em quadradinhos os filet mignon que trouxéramos, ajuntara macarrões os mais diversos, salames fatiados, alguns tomates e, cereja do bolo, acrescentara as azeitonas destinadas a ser o “tira gosto das nossas cervejas.

O gosto daquilo era inenarrável! Uma tragédia!


O jantar daquele primeiro e glorioso dia foi pão com manteiga.

A pescaria envolveu, como é óbvio, muita pescaria, cercada esta última pelos jogos de truco e as piadinhas elegantes e requintadas que costumeiramente são contadas dentro um grupo de vários homens.

Fizemos uma ligeira parada na belíssima e curiosa cidade de Calama, situada na margem direita do rio Madeira, com uma população de mais ou menos 2.500 pessoas. Detalhe, as ruas de Calama são estreitas e gramadas, pois lá não tem veículos automotores. Uma tranquilidade.

Naquela bucólica cidadezinha o barco pernoitou, pois estava planejado que, de lá, iríamos iniciar o retorno a Porto Velho.

A viagem de ida para o local da pesca envolveu uma viagem de dez horas, praticamente um pernoite nas redes armadas no barco. Mas a viagem de retorno, agora enfrentando a forte correnteza do rio Madeira, duraria mais de quinze horas.

Durante aquele longo navegar, percebi que um dos colegas Promotores estava debruçado na amurada da embarcação, olhando pensativo as margens do belo Madeira.

Acerquei-me também da amurada e, quando ele percebeu minha presença, expôs-me seus profundos pensamentos:

  • Você sabia que técnicos altamente qualificados vindos do Japão para estudar a nossa Amazônia divulgaram, recentemente, uma surpreendente conclusão?

Olhei para ele com um ar inquisidor, razão pela qual o colega esclareceu-me:

  • Após exaustivos estudos e entrevistas com a população local, os cientistas japoneses concluíram que aqui está um percentual nunca alcançado na história da humanidade, ou seja, incríveis 100%! O relatório final deles demonstrou que 100% das pessoas que vivem nas margens do Rio Madeira são ribeirinhos!

Confesso que quase cheguei às lágrimas. Eu ali, relapso que sou, preocupado apenas com assuntos de pescaria. E aquele colega Promotor, não obstante estar num período de folga, dedicava-se a mergulhar, estudiosamente, nos mistérios da bela e selvagem Amazônia, ligando-os aos desígnios insondáveis da matemática.


Um portento!

Era um gênio, mas foi reprovado

ERA UM GÊNIO, MAS FOI REPROVADO


Existe uma teoria dos freios e contrapesos, desenvolvida para demonstrar como devem relacionar-se os poderes do Estado.

Nós temos, como é sabido, os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário. Segundo a tal teoria, eles devem ser independentes e harmônicos entre si. Como cada um desses poderes do Estado é autônomo, eles podem exercer algum controle um sobre o outro.

O principal teorizador sobre essa harmonia e independência dos poderes na organização do Estado foi Charles-Louis de Secondat (16/01/1689 a 10/02/1755), o barão de La Brède e de Montesquieu, nome pelo qual ficou mais conhecido.

Como este blog é também cultura (mas nem tanto), vamos logo ao “causo” que se relaciona com os pensamentos de Montesquieu.

Na década de 1980 estava acontecendo em Porto Velho um concurso para a contratação de novos Promotores de Justiça. Eu, já na carreira, era um dos fiscais, ajudando na organização da aplicação das provas.

Numa das provas, o examinador elaborou uma pergunta com o seguinte teor: No que consiste a teoria dos freios e contrapesos?

Quando contaram-me sobre a resposta que fora dada por um dos candidatos, não acreditei.

Como São Thomé, entrei disfarçadamente na sala de provas e cheguei próximo à carteira onde o candidato em questão demonstrava seus saberes jurídicos.

Lá estava, com todas as letras:

  • A teoria dos freios e contrapesos consiste exatamente na fiscalização exercida pelo DNPM, o Departamento Nacional de Pesos e Medidas.


Como costumam dizer por aí, a resposta foi na lata. 

domingo, 24 de novembro de 2013

Tipos inesquecíveis

TIPOS INESQUECÍVEIS


Tenho contado apenas “causos” do meu tempo de Promotor, mas agora vou, enquanto “escavo” nas minhas memórias outros acontecimentos dignos de ser contados, contar alguma coisa sobre colegas de trabalho e outras pessoas que conheci na labuta promotorial.

Evidentemente não vou citar nomes. Embora seja uma forma de homenagear colegas e pessoas extraordinárias, pode ser que o “homenageado” não se sinta tão elogiado assim...

Esse colega de quem vou falar é um Promotor, já aposentado, que tem a mania da perfeição. Tudo e todas as coisas têm que estar exatamente posicionados da forma que ele exatamente quer.

A escrivaninha deste Promotor era um primor de organização: todos os papéis que lá estavam, os calendários, as canetas, as fotos familiares tinham que estar em uma determinada posição sobre a mesa.

Pensam que as coisas ficavam apenas no posicionamento dos objetos sobre a mesa? Ledo engano. A própria escrivaninha tinha que estar posicionada em lugar equidistante da porta de entrada, tudo milimetricamente estabelecido.

Penso que se na época já existisse o GPS, este seria utilizado para demarcar a exata posição, dentro do globo terrestre, para que o Promotor fizesse o que devia, em sua função de promover a Justiça.

Os outros Promotores (apenas os mais “atentados”, diga-se), quando o visitavam, tão logo o “visitado” tivesse que sair por um pouco, deslocavam objetos sobre a mesa ou a própria mesa.

Pra quê??

Imediatamente, após retornar, a vítima recolocava o objeto em sua exata posição anterior.

Um deles, ainda mais “atentado” que os outros, deslocou a mesa toda. A “vítima” (chamemo-la assim, que é bem apropriado...), para repor as coisas no seu universo, muniu-se de uma régua e pôs-se a medir a distância que separava a mesa da parede, para que ficasse em ângulos perfeitos.

Vejam o hilário da situação: um Promotor de Justiça ajoelhado no chão medindo a distância entre a sua escrivaninha e a parede e ajeitando-a, novamente, milimetricamente para que tudo ficasse simetricamente exato.

Uma vez, a vítima fui eu. Ele começou a contar-me sobre uma viagem de férias, que fizera de carro com a família toda, com destino ao Paraná. Eu, inocente e desconhecedor das minúcias que envolveriam a narrativa, fiquei atento, escutando.

Comecei a desconfiar de que algo não andava bem após umas duas horas de narrativa, e o homem ainda estava em Vilhena, a setecentos quilômetros de Porto Velho.

A narrativa incluía tudo: o abastecimento do carro, o lanche feito no posto de gasolina e... até a conversa que “rolara” enquanto o carro vencia os muitos quilômetros da estrada!

Quando ele finalmente chegou a Maringá, e ainda faltavam muitos quilômetros para o final da viagem, várias horas passadas, eu já estava cogitando sobre a forma mais indolor de cometer suicídio, chegaram outros colegas.

Naquele cumprimenta daqui, cumprimenta dacolá, fugi de forma covarde, numa retirada tão inglória quanto penso que foi a da família real de Portugal quando da aproximação das hostes de Napoleão.

O perfeccionismo desse colega ficou muito claro para mim quando, dentre os colegas que planejamos uma pescaria, lá estava ele.

Num feriado prolongado, fretamos um barco grande para descer o rio Madeira até a localidade de Calama, onde pararíamos para pescar no rio Machado.

Combinou-se que todos levariam o seu próprio colete salva-vidas, para maior segurança. Aquele que estava organizando a pescaria conseguiu preços melhores para esse item de salvatagem numa determinada loja de caça e pesca, onde deveríamos todos comprar o colete.

Dias antes da data marcada para a saída, fui até a loja para comprar o meu colete. Pedi ao vendedor que me mostrasse os coletes salva-vidas disponíveis para escolher um.

Escolhi um deles e falei ao vendedor que era Promotor de Justiça e que queria o preço melhor que havia sido combinado.

O vendedor olhou-me, incrédulo, e perguntou:

  • O senhor é Promotor? E já escolheu? Não vai experimentar o colete e nem nada?

Respondi que não experimentaria e sim, e que queria aquele que eu já lhe indicara. Mas estranhei a sua reação. Por que tanto ele ficara espantado?

Ele, com um ar de alívio, respondeu-me:

  • Doutor, esteve aqui um colega seu. Eu mostrei todos os coletes que eu tinha. Ele experimentou um por um. Pediu um espelho para ver como ficava. Depois, chamou a esposa, que estava no carro, para opinar como tinha ficado. E não conseguia decidir-se...

Segundo o vendedor, aquilo durou muito tempo. Perguntei-lhe como ele se livrara do impasse. Ele, fazendo um ar de cara muito “esperto”, disse-me:

  • Doutor, eu disse a ele que levasse todos os coletes para a casa dele e que, quando se decidisse, voltasse aqui e comprasse o escolhido.

Esperto o vendedor, mais do que eu, que perdi horas incontáveis ouvindo a história da viagem.

Apenas fiquei com pena da outra “vítima”, a esposa do Promotor que, em casa, teve que decidir qual o colete que ficava melhor em seu marido...

Para encerrar, digo que esse colega lembrou-me uma seção que havia na revista “Seleções”, nos seus bons tempos (agora está uma porcaria), e que tinha uma série de artigos intitulados “Meu tipo inesquecível”.


Gosto muito desse ex-colega, e espero que ele nunca mude. Pode ser, JBS?

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Condenando um canalha repulsivo

CONDENANDO UM CANALHA REPULSIVO


Em meados da década de 1980, ao chegar, recém-promovido, a Porto Velho, fui designado para atuar na Promotoria de Justiça de combate aos crimes ligados a entorpecentes, seja o uso – na época era crime -, seja o tráfico.

Dentre os processos que ficaram aos meus cuidados, havia um, esperando julgamento, que chamava a atenção pelas suas circunstâncias e, mais, pelas consequências.

O fato era, em breve resumo, o que narro a seguir. Uma jovem estudante, na faixa dos seus 16, 17 anos de idade, saiu na noite de um sábado para se divertir, no que hoje chamam de balada. Chamemo-la, para facilitar, de Maria.

A menina, junto com suas amigas da mesma idade, acabou indo a uma das mais famosas discotecas de Porto Velho. Pouco dinheiro no bolso (talvez fruto da intenção dos pais, que não a queriam em confusões), ela ficou defronte à discoteca, para ver “no que dava”.

Ali ela acabou encontrando um amigo de uma de suas colegas, um comerciante endinheirado, na faixa dos 25 a 30 anos de idade.

A futura tragédia já tinha no palco dos acontecimentos seus dois principais personagens, ou seja, a vítima e o canalha repulsivo.

O comerciante convidou as meninas para irem ao seu apartamento, onde fariam uma “festinha”, apenas para diversão.

A menina Maria, como é próprio da idade, querendo “se enturmar”, aceitou, junto com outras garotas, o convite, e foram todos ao apartamento do comerciante.

O crápula, depois que estavam instalados no seu apartamento, forneceu às jovens bebidas alcoólicas, música e... cocaína.

Maria, com a inexperiência de sua pouca idade, além de beber, resolveu experimentar a cocaína, substância entorpecente que, apesar de custosa, lhe era oferecida de graça e em boa quantidade.

Sua meninice não lhe permitiu ver o perigo que havia no uso da cocaína, tendo ela “cheirado” (aspirado pelas narinas) duas ou mais “carreiras” da droga.
O uso da cocaína era o ideal para as pretensões de Maria naquela “festinha”, pois ela, tímida, logo tornou-se eufórica, sociável e passou a sentir um enganador bem-estar.

Essa sociabilidade instantânea fornecida pelo uso da cocaína tem seu contraponto nos efeitos físicos. A droga atua no sistema nervoso central, causando a imediata aceleração dos batimentos cardíacos.

A droga causa também a dilatação das pupilas, bem como o aumento da pressão arterial. O consumo de oxigênio pelo usuário da cocaína aumenta, embora o organismo tenha diminuída sua capacidade para processá-lo.

Com a diminuição da oxigenação do sangue e as arritmias no coração causadas pela droga, quem tem pré-disposição acaba por ter um infarto.

Pois é. Maria passou por tudo isso e começou a passar mal. O comerciante e as colegas, todos também “embalados” pela droga, limitaram-se a deitar Maria num sofá: “Deixa, que daqui a pouco ela melhora”.

Mais tarde, todas as demais colegas de Maria foram embora, deixando-a no apartamento “até que ela melhorasse” e pudesse ser levada para casa.

O comerciante, já sozinho em casa, verificou que Maria morrera.

Ao invés de chamar por socorro – tanto antes quanto depois da morte -, a canalhice repulsiva do comerciante manifestou-se.

Ele resolveu colocar o corpo da jovem moça no seu carro e dirigiu-se até a rua onde Maria morava, pois sabia o endereço dos pais da jovem.

Como a rua estava bem iluminada, o canalha desistiu do seu intento de jogar o corpo de Maria no quintal da casa dos pais dela.

Partiu para um plano “B”, que consistiu em dirigir-se à BR-364, estrada que liga Porto Velho a Cuiabá, onde, achando um lugar ermo, jogou o corpo da infeliz jovem na lateral da rodovia.

Na madrugada e manhã seguintes, os pais, dando pela falta da filha, começaram as buscas por ela do modo tradicional: polícia, hospitais, etc.

Nada.

No começo da tarde os pais foram avisados de que o corpo da filha havia sido achado na beira da estrada.

Um homem que passava caminhando pela estrada viu o corpo de Maria jogado ao chão. Em virtude do tempo em que ela lá estava jogada, o corpo estava coberto por formigas.

Imaginem o sofrimento imposto aos pais ao saberem de tudo isso.

A Polícia chegou com facilidade à autoria do crime, já que o encontro do criminoso com a vítima havia ocorrido num lugar bastante público – a discoteca -, e a tentativa do comerciante de se livrar da responsabilidade havia sido feita sob efeito de álcool e da própria cocaína.

Impressionado com a repulsividade do crime, logo comecei a dar tratos à bola para conseguir obter a condenação do criminoso.

O primeiro passo foi o mais difícil. Anotei o endereço da vítima, que estava no processo, e fui até a casa dos pais.

Depois de apresentar-me como o Promotor de Justiça encarregado do caso na Justiça, fui recebido pelos pais de Maria. Vocês poderão imaginar o quão é difícil uma conversa dessas.

Expliquei aos dois que, para aumentar a pena do criminoso no caso de condenação, eu precisaria de uma cópia da certidão de nascimento de Maria, pois quando a vítima é menor de idade a pena é aumentada.

Explicando aos pais que a condenação não era certa no julgamento, garanti a eles que daria o meu melhor para punir quem fizera aquela maldade com Maria.

Para eventuais Promotores de Justiça que me leiam, essa visita que fiz aos pais da vítima eu considero também como garantir-lhes a cidadania, palavra tão em moda nos dias de hoje. Ou se quiserem, um feedback, para quem perdeu um ente querido em razão de um crime.

Meu segundo passo foi estudar a jurisprudência nacional em casos semelhantes (coisa não tão fácil naqueles tempos pré-internet), tendo conseguido bons resultados.

O dia do julgamento foi o que se chama de uma tarefa árdua: começou às 08:30 hs e só foi terminar por volta das sete da noite, período em que ocorreu uma esgrimia jurídica entre acusação e defesa, feita esta por advogado muito bom.

Quando a sentença saiu, o réu fora condenado a uma pena de quase dez anos de prisão, que deveriam ser cumpridos no presídio de Porto Velho.

Fiquei feliz pelo dever (bem) cumprido. Certamente a condenação, se não reparava a perda sofrida pelos pais de Maria, pelo menos servia de consolo.

Esse “causo” poderia terminar aqui, talvez visto como a exibição de uma boa atuação judicial do autor deste blog.

Mas (e sempre existe o mas...), depois de algum tempo, estando já o réu cumprindo sua pena, comecei a receber avisos de policiais bem-intencionados de que algo andava errado.

Segundo eles, o réu, que deveria estar fechado numa cela do presídio, constantemente era visto circulando pela cidade, em uma motocicleta, fazendo sabe-se lá qual atividade.

Apresentei a informação ao Judiciário e à Direção do presídio. Os responsáveis pelo cumprimento da pena negaram que essas saídas do réu estivessem acontecendo.

Pouco depois, fui novamente avisado, pelos mesmos informantes, das atividades, fora do presídio, do réu, tendo novamente pedido providências.

Continuei vigilante, para ver se o comerciante realmente cumpria sua pena, sem comprar “benefícios” ilegais de agentes penitenciários corruptos.

Mas devo confessar, e essa é a razão de eu contar este “causo”, tive uma vontade imensa de dividir essa minha preocupação, sobre a realidade da prisão do canalha repulsivo, com o pai da vítima.

Afinal, o pai era um graduado do Exército, já aposentado. Confesso que tive ganas de dizer a ele para vigiar a estradinha que ligava a penitenciária à cidade de Porto Velho.

Não o fiz.

Mas, por trás do Promotor que eu era, existia também o ser humano e pai. Quem não teria tais pensamentos?