A
VIDA É UM SOPRO...
Vou contar, aqui, um
acontecimento mais recente, já na condição de aposentado do
Ministério Público. Faço isso mais como uma homenagem a uma
pessoa que, bem-humorada e de bem com a vida, dela partiu por causa
de eventos inusuais.
Logo que adquiri minha casa da
Pousada do Paranapanema, localizada no município de Santo Inácio,
tratei de comprar um barco destinado ao lazer e às minhas pescarias
e da incomparável Zilda.
Cauteloso, antes de colocar o
meu barco para navegar no belo rio Paranapanema, procurei alguém que
conhecesse o rio e seus mistérios, para me ensinar as armadilhas que
– acreditem – todo rio tem.
Quando o meu “professor” do
rio chegou, na manhã em que iríamos ser apresentados ao rio, ele se
identificou como sendo o Baixinho.
Navegamos,
Zilda, ele e eu por umas três horas, enquanto eu procurava memorizar
os pontos problemáticos do rio Paranapanema.
Terminado
o passeio fluvial, paguei ao Baixinho
por seus serviços e perguntei o nome dele, pois não gosto de
chamar ninguém pelo apelido.
Ele
não disse. Afirmou que todo mundo o conhecia como Baixinho
e que, se eu perguntasse por ele pelo nome de batismo, ninguém
saberia dizer quem era. Se era esse o seu desejo, não seria eu a
contrariá-lo.
Ao
longo do tempo, fizemos outros passeios e pescarias no rio, sempre
com ele sendo prestativo e atencioso.
Mas,
o destino...
Certo
dia, no ano de 2012, eu fui para a minha casa na Pousada a bordo de
um carro novo, “zero” quilômetro”, todo pimpão com a novidade
(pobre é assim mesmo...).
Logo
depois que cheguei, o Baixinho
apareceu, com sua moto, e veio conversar comigo. Desmoralizou, logo
de saída, meu carro novo:
- E aí, seu Osmar, carro bem reformadinho, hein?
Relevei
a inoportuna agressão às minhas vaidades automobilísticas e, como
tinha pouco antes ido, numa viagem, à Bolívia, o presenteei com uma
carretilha nova em folha. Pescador inveterado, ele ficou felicíssimo.
A
minha esposa, sabedora dos meus nulos conhecimentos práticos, logo
pediu ao Baixinho
que
a ajudasse a montar um dos móveis da casa. Gente boa, ele não
rejeitou o trabalho e logo resolveu a “coisa” que, para minhas
inábeis mãos, levaria décadas.
Em
seguida, eu perguntei-lhe se não poderíamos ir pescar um pouco
naquela tarde, pois eu queria conhecer novos pesqueiros.
Pescaria
o Baixinho não
recusava de jeito nenhum. Assim, logo começamos a aprontar meu barco
e separar a tralha de pesca, ficando tudo prontinho. Como era quase
hora do almoço, ele disse-me que iria almoçar com a sua esposa e
que, logo após, nós sairíamos para a pesca.
Passaram-se
dez, quinze minutos, depois da saída do Baixinho
e apareceu um sujeito, de moto, perguntando se era eu quem iria
pescar com ele.
Eu
respondi afirmativamente, é claro. O sujeito falou-me:
- Olha, o Baixinho pediu para avisar o senhor que ele não vai poder mais ir pescar, pois ele caiu da moto e vai ter que ir ao Hospital.
Incontinenti,
peguei meu carro novo, que o Baixinho
desqualificara
pouco antes, e sai atrás do motoqueiro, pois pretendia levar o
acidentado ao Hospital com meu carro que, apesar de bem reformado, é
grande e espaçoso.
Chegando
ao local, ofereci-me para levá-lo ao Hospital, mas ele recusou,
dizendo que, como tinha problemas na coluna cervical, esse tipo de
transporte improvisado poderia prejudicá-lo ainda mais.
Assim,
procurando ser solidário, aguardei junto com ele, que estava deitado
no chão e com dores, até que a ambulância chegasse.
Depois
de uma meia hora, esta chegou. Cuidadosamente colocamos o Baixinho
na
maca e o instalamos dentro da ambulância.
Como
eu gostava muito do Baixinho,
pouco antes de o motorista da ambulância fechar as portas do carro
eu dei-lhe um tapinha nos ombros e disse-lhe para ficar tranquilo, e
que tudo daria certo.
Palavras
nada proféticas...
Como
a pescaria estava cancelada, almocei tranquilamente, com direito à
sesta depois.
Depois
de acordado, sai para dar uma volta pelo lugar e encontrei uns
funcionários do Condomínio, que me perguntaram:
- O senhor soube do Baixinho?
Eu
respondi que sabia, sim, pois eu até o ajudara a embarcar na
ambulância. Para minha surpresa, eles disseram:
- Não, então o senhor não sabe. Ele morreu.
Pois
não é que a ambulância, velha demais, típica do desprezo dos
políticos brasileiros depois do momento eleitoral, e com pneus
“carecas”, teve um deles estourado na viagem e, capotando, causou
no Baixinho
ferimentos
que o mataram?
Chocado,
triste, somente me restou aguardar a chegada do corpo do Baixinho
na
cidade de Santo Inácio, onde seria velado e enterrado.
No
dia seguinte, ao ir ao velório, finalmente descobri o nome do
Baixinho:
era
Clodoaldo.
Como
eu disse no título, a vida é um sopro...