domingo, 22 de dezembro de 2013

No esquecimento, não!

NO ESQUECIMENTO, NÃO!


Algumas coisas não podem cair no esquecimento, tal como aquele colega cheio de manhas que narrei no “causo” anterior.

Por isso, lembrei-me de uma pescaria inolvidável, menos pelos peixes fisgados e mais pelos vários acontecimentos de um período passado junto com bons amigos e no meio ambiente mais propício para se relaxar das tensões do trabalho: um rio.

Em meados da década de 1990, diante de um feriadão prolongado, alguns colegas Promotores de Justiça tivemos a ideia de aproveitar a folga no trabalho para fazermos uma pescaria no Rio Machado.

Para tanto, faríamos uma longa descida rio Madeira abaixo até chegarmos a uma localidade de nome Calama, situada exatamente defronte onde as águas do rio Machado deságuam no rio Madeira.

Éramos uns doze pescadores amadores, que, a rigor, não apresentavam grandes riscos para a fauna dos rios daquela região.

Começamos pelo óbvio: o planejamento. Este envolvia fretar um barco de dimensões médias, com capacidade para armarmos nossas redes de dormir no convés, além de cozinha e instalações sanitárias.

Além disso, teríamos que planejar as compras de mantimentos a serem levados para aquele curto período de cinco dias: carnes, aperitivos, cereais, etc, não podendo ser olvidada a importantíssima cerveja.

Os petiscos (azeitonas, salames e outras guloseimas) seriam destinados a, nas noites que passaríamos a bordo, instalados confortavelmente no convés superior do barco, podermos “colocar a conversa em dia” tomando uma cerveja gelada. Isso tudo regado à agradabilíssima brisa que sopra no rio enquanto navegávamos.

Dias antes da aventura piscatória, nos reunimos para checar a lista de gastos e ultimarmos as providências.

A lista de compras estava bastante bem discriminada, contendo carnes (costelas de boi, linguiças, picanhas, etc), o arroz e feijão tão básico para nós brasileiros e muita, mas muita mesmo, cerveja.

Nesta reunião antes da partida, decidimos que cada qual levaria o próprio equipamento de segurança, ou seja, o colete salva-vidas, para evitar que dependêssemos apenas dos fornecidos pelo dono do barco.

Essa decisão teve graves consequências para um funcionário de uma loja de Caça & Pesca, atormentado que foi por um dos colegas quando da escolha do colete salva-vidas, “causo” que já contei aqui no blog.

Ocorre que a lista de compras e providências necessárias para o período embarcados finalizava com um item pitoresco: “passagem marítima”!

Após uma rápida pesquisa no Google, confirmamos que o rio Madeira era isso mesmo, ou seja, um rio. Como, então, “passagem marítima”?

Reunidos os doutos e jurídicos pescadores-promotores, refizemos a denominação a ser dada ao pagamento dos serviços do dono do barco onde viajaríamos, chegando à impecável renomeação para “passagem fluvial”!


Resolvido tudo, embarcamos em Porto Velho e começamos a descer o rio Madeira. Para curtir aquele fim de tarde e o começo da noite, subimos todos ao deck superior da embarcação.

Todos sentados e curtindo a brisa do rio, começamos a tomar cerveja e a bater papo. Tudo parecia tranquilo e as horas passavam calmas, mas nós havíamos deixado ao acaso um importante evento ligado à navegação, e a tragédia se avizinhava.

A tragédia tomou, depois de ocorrida, o nome de sopão.

Junto conosco, havíamos levado um competente cozinheiro, que providenciaria ótimas comidas a bordo. Entretanto, como demorássemos a pedir o jantar, o cozinheiro ficou tranquilo em seu canto.

Para nossa surpresa, quando mais animado rolava o papo regado a cerveja, subiu até nós o cozinheiro “oficial” do barco e anunciou:

  • Pessoal, “a janta” está pronta, e eu fiz um sopão que dá para todo mundo”.

Uai, pensamos todos, não estava previsto que não seria o barco que providenciaria as comidas? Que surpresa era aquela?

Descemos ao deck inferior, onde estava servido o jantar. Lá estava um enorme caldeirão fumegante.

O sopão, ou melhor, a tragédia, era uma gororoba impensável – e incomível!

Todo orgulhoso, o cozinheiro, mexendo uma concha dentro do sopão, mostrou-nos os ingredientes que utilizara. O desinfeliz picara em quadradinhos os filet mignon que trouxéramos, ajuntara macarrões os mais diversos, salames fatiados, alguns tomates e, cereja do bolo, acrescentara as azeitonas destinadas a ser o “tira gosto das nossas cervejas.

O gosto daquilo era inenarrável! Uma tragédia!


O jantar daquele primeiro e glorioso dia foi pão com manteiga.

A pescaria envolveu, como é óbvio, muita pescaria, cercada esta última pelos jogos de truco e as piadinhas elegantes e requintadas que costumeiramente são contadas dentro um grupo de vários homens.

Fizemos uma ligeira parada na belíssima e curiosa cidade de Calama, situada na margem direita do rio Madeira, com uma população de mais ou menos 2.500 pessoas. Detalhe, as ruas de Calama são estreitas e gramadas, pois lá não tem veículos automotores. Uma tranquilidade.

Naquela bucólica cidadezinha o barco pernoitou, pois estava planejado que, de lá, iríamos iniciar o retorno a Porto Velho.

A viagem de ida para o local da pesca envolveu uma viagem de dez horas, praticamente um pernoite nas redes armadas no barco. Mas a viagem de retorno, agora enfrentando a forte correnteza do rio Madeira, duraria mais de quinze horas.

Durante aquele longo navegar, percebi que um dos colegas Promotores estava debruçado na amurada da embarcação, olhando pensativo as margens do belo Madeira.

Acerquei-me também da amurada e, quando ele percebeu minha presença, expôs-me seus profundos pensamentos:

  • Você sabia que técnicos altamente qualificados vindos do Japão para estudar a nossa Amazônia divulgaram, recentemente, uma surpreendente conclusão?

Olhei para ele com um ar inquisidor, razão pela qual o colega esclareceu-me:

  • Após exaustivos estudos e entrevistas com a população local, os cientistas japoneses concluíram que aqui está um percentual nunca alcançado na história da humanidade, ou seja, incríveis 100%! O relatório final deles demonstrou que 100% das pessoas que vivem nas margens do Rio Madeira são ribeirinhos!

Confesso que quase cheguei às lágrimas. Eu ali, relapso que sou, preocupado apenas com assuntos de pescaria. E aquele colega Promotor, não obstante estar num período de folga, dedicava-se a mergulhar, estudiosamente, nos mistérios da bela e selvagem Amazônia, ligando-os aos desígnios insondáveis da matemática.


Um portento!

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