TIPOS
INESQUECÍVEIS
Tenho
contado apenas “causos” do meu tempo de Promotor, mas agora vou,
enquanto “escavo” nas minhas memórias outros acontecimentos
dignos de ser contados, contar alguma coisa sobre colegas de trabalho
e outras pessoas que conheci na labuta promotorial.
Evidentemente não vou citar
nomes. Embora seja uma forma de homenagear colegas e pessoas
extraordinárias, pode ser que o “homenageado” não se sinta tão
elogiado assim...
Esse
colega de quem vou falar é um Promotor, já aposentado, que tem a
mania da perfeição. Tudo e todas as coisas têm que estar
exatamente
posicionados da forma que ele exatamente
quer.
A escrivaninha deste Promotor
era um primor de organização: todos os papéis que lá estavam, os
calendários, as canetas, as fotos familiares tinham que estar em uma
determinada posição sobre a mesa.
Pensam que as coisas ficavam
apenas no posicionamento dos objetos sobre a mesa? Ledo engano. A
própria escrivaninha tinha que estar posicionada em lugar
equidistante da porta de entrada, tudo milimetricamente estabelecido.
Penso que se na época já
existisse o GPS, este seria utilizado para demarcar a exata posição,
dentro do globo terrestre, para que o Promotor fizesse o que devia,
em sua função de promover a Justiça.
Os outros Promotores (apenas os
mais “atentados”, diga-se), quando o visitavam, tão logo o
“visitado” tivesse que sair por um pouco, deslocavam objetos
sobre a mesa ou a própria mesa.
Pra quê??
Imediatamente, após retornar,
a vítima recolocava o objeto em sua exata posição anterior.
Um deles, ainda mais “atentado”
que os outros, deslocou a mesa toda. A “vítima” (chamemo-la
assim, que é bem apropriado...), para repor as coisas no seu
universo, muniu-se de uma régua e pôs-se a medir a distância que
separava a mesa da parede, para que ficasse em ângulos perfeitos.
Vejam o hilário da situação:
um Promotor de Justiça ajoelhado no chão medindo a distância entre
a sua escrivaninha e a parede e ajeitando-a, novamente,
milimetricamente para que tudo ficasse simetricamente exato.
Uma vez, a vítima fui eu. Ele
começou a contar-me sobre uma viagem de férias, que fizera de carro
com a família toda, com destino ao Paraná. Eu, inocente e
desconhecedor das minúcias que envolveriam a narrativa, fiquei
atento, escutando.
Comecei a desconfiar de que
algo não andava bem após umas duas horas de narrativa, e o homem
ainda estava em Vilhena, a setecentos quilômetros de Porto Velho.
A narrativa incluía tudo: o
abastecimento do carro, o lanche feito no posto de gasolina e... até
a conversa que “rolara” enquanto o carro vencia os muitos
quilômetros da estrada!
Quando ele finalmente chegou a
Maringá, e ainda faltavam muitos quilômetros para o final da
viagem, várias horas passadas, eu já estava cogitando sobre a forma
mais indolor de cometer suicídio, chegaram outros colegas.
Naquele cumprimenta daqui,
cumprimenta dacolá, fugi de forma covarde, numa retirada tão
inglória quanto penso que foi a da família real de Portugal quando
da aproximação das hostes de Napoleão.
O perfeccionismo desse colega
ficou muito claro para mim quando, dentre os colegas que planejamos
uma pescaria, lá estava ele.
Num feriado prolongado,
fretamos um barco grande para descer o rio Madeira até a localidade
de Calama, onde pararíamos para pescar no rio Machado.
Combinou-se que todos levariam
o seu próprio colete salva-vidas, para maior segurança. Aquele que
estava organizando a pescaria conseguiu preços melhores para esse
item de salvatagem numa determinada loja de caça e pesca, onde
deveríamos todos comprar o colete.
Dias antes da data marcada para
a saída, fui até a loja para comprar o meu colete. Pedi ao vendedor
que me mostrasse os coletes salva-vidas disponíveis para escolher
um.
Escolhi
um deles e falei ao vendedor que era Promotor de Justiça e que
queria o preço melhor que havia sido combinado.
O vendedor olhou-me, incrédulo,
e perguntou:
- O senhor é Promotor? E já escolheu? Não vai experimentar o colete e nem nada?
Respondi que não
experimentaria e sim, e que queria aquele que eu já lhe indicara.
Mas estranhei a sua reação. Por que tanto ele ficara espantado?
Ele, com um ar de alívio,
respondeu-me:
- Doutor, esteve aqui um colega seu. Eu mostrei todos os coletes que eu tinha. Ele experimentou um por um. Pediu um espelho para ver como ficava. Depois, chamou a esposa, que estava no carro, para opinar como tinha ficado. E não conseguia decidir-se...
Segundo o vendedor, aquilo
durou muito tempo. Perguntei-lhe como ele se livrara do impasse. Ele,
fazendo um ar de cara muito “esperto”, disse-me:
- Doutor, eu disse a ele que levasse todos os coletes para a casa dele e que, quando se decidisse, voltasse aqui e comprasse o escolhido.
Esperto o vendedor, mais do que
eu, que perdi horas incontáveis ouvindo a história da viagem.
Apenas fiquei com pena da outra
“vítima”, a esposa do Promotor que, em casa, teve que decidir
qual o colete que ficava melhor em seu marido...
Para encerrar, digo que esse
colega lembrou-me uma seção que havia na revista “Seleções”,
nos seus bons tempos (agora está uma porcaria), e que tinha uma
série de artigos intitulados “Meu tipo inesquecível”.
Gosto muito desse ex-colega, e
espero que ele nunca mude. Pode ser, JBS?