A
LEI DE MURPHY ou
TUDO
QUE PODE DAR ERRADO, DÁ ERRADO...
Antes de iniciar este causo,
vou falar um pouco sobre o cenário em que ele aconteceu.
Guajará-Mirim, cognominada de Pérola do Mamoré,
foi minha segunda comarca no estado de Rondônia e tornou-se um xodó
para mim para a vida toda.
Guajará
enfeita a margem brasileira do rio Mamoré, onde tem um movimentado
porto fluvial. A Bolívia tem, por seu lado, bem defronte a Guajará,
o porto fluvial da cidade de Guayaramerin.
O
rio Mamoré é, com certeza, uma das maravilhas da natureza que se
pode ver quando estamos em Guajará. Ele tem 1.900 kms e, em seu
final, deságua no também grandioso rio Madeira.
Quem
tem a felicidade de visitar Guajará pode embarcar em pequenos barcos
ou nas catraias, que são embarcações de pequeno calado, bastante
grandes para acomodar várias pessoas e navegar nas partes rasas dos
rios.
Subindo
o rio Mamoré por uns 6 kms, você encontrará a foz do rio Pacaás
Novos, curso d'água de médio porte, belíssimo com suas águas
límpidas, que refletem a mata das margens, num efeito visual
maravilhoso.
Digno
de ser visto nesse ponto é o encontro das águas do rio Pacaás
Novos, azuis e límpidas, com as águas barrentas do rio Mamoré.
As
águas dos dois rios ficam bem demarcadas, sem se misturarem, só
consumando o casamento forçado, feito na foz, e tornando-se apenas
uma, a barrenta, rio Mamoré abaixo.
Ao
se navegar o Pacaás Novos (Pacaás, para os íntimos) acima,
veem-se, no verão, praias branquíssimas, inúmeras espécies de
pássaros e até jacarés de todos os tamanhos.
A
maior praia disponível fica pouca coisa rio acima, quando se chega a
um lugar chamado Três Bocas.
Quando
já se está instalado numa dessas praias, tomando banho nas águas
frias do Pacaás, de vez em quando acontecerá de aparecerem os botos
cor-de-rosa, brincando indiferentes à invasão dos humanos.
Então,
quando alguém falar das dificuldades de se viver em Guajará, com
seu calorão e a péssima estrada que a liga à capital, Porto Velho
(320 kms de pedaços de asfalto ligados por enormes buracos), não
creia muito no chororô dele.
Eu
já era Promotor na capital, mas nunca me desliguei de Guajará,
visitando-a sempre que podia junto com minha família. Em Guajará, o
visitante curtirá a natureza exuberante e a benfazeja e pródiga
amizade da maioria dos seus habitantes.
Numa
dessas visitas, e já estou chegando ao causo propriamente dito,
combinei com meu amigo Valdir e sua bela Ida de fretarmos uma catraia
para passar um dia nas praias do Pacaás.
Graças
a inventividade do Valdir e à minha natural disposição para
atividades de lazer (atenção, isso não é um auto-elogio), na
catraia foi instalado um fogão a gás e uma churrasqueira, além de
enormes caixas térmicas para fornecer-nos cerveja e refrigerantes
gelados (mais cerveja, é óbvio).
O
dia começou com um churrasco para abrir o apetite e terminou com uma
bela caldeirada de tambaqui, um gostoso cozido do peixe com legumes e
ovos.
Depois
de muito desfrutar o banho nas águas deliciosas do Pacaás (como o
blog também é cultura, alerto para o fato de que, nos rios da
Amazônia, sempre se deve andar arrastando os pés, nunca pisando,
para evitar a ferroada dolorosa das arraias), iniciamos o retorno a
Guajará no final da tarde.
Os
filhos de Valdir, um par de gêmeos, tão endiabrados que pareciam
necessitar de um exorcista, subiram ao teto da catraia para ir
apreciando a paisagem da viagem de volta.
Acontece
que os dois tinham apenas sete ou oito anos de idade, e se entende a
razão do título dado a este causo, ligando-o à famosa Lei
de Murphy.
Logo
depois que entramos nas águas caudalosas do rio Mamoré, escutamos
um nítido “tchibuum!”,
logo seguido do grito de um dos gêmeos avisando que o irmãozinho
caíra do teto!
Valdir,
ouvindo o barulho do mergulho do filho e o aviso do outro,
incontinenti saltou da catraia para o rio.
O
Mamoré é largo e, repito, muito caudaloso. Entramos todos numa
espécie de catarse, temerosos das consequências daquele inesperado
acidente.
O
piloto da catraia rapidamente desligou a tração do barco, pronto
para o que desse e viesse.
Para
nosso alívio e felicidade, enquanto olhávamos para aquele mundão
de água, pudemos ver o braço do Valdir acenando para nós com um
braço.
Olhando
melhor, pudemos ver que ele tinha, sob o outro braço, o filho
“fujão”.
A
memória me falha nos detalhes, devido à tensão daqueles momentos,
pois só me lembro de que rapidamente embarcamos Valdir e o gêmeo
aquático de volta.
O
que sempre me vem à mente quando recordo tais acontecimentos, é a
pequena distância que separa o final feliz da tragédia.
Conto
este causo para fazer um alerta a todos, pois devemos procurar, em
todas as nossas atividades, antecipar o que pode dar errado.
Ou, trocando em miúdos, devemos ser cautelosos.
O
criador dessa Lei de Murphy foi
o capitão da Força Aérea dos EUA, Edward Murphy. Consta que ele
quase foi a primeira vítima de sua lei.
Ele
era um dos engenheiros envolvidos nos testes sobre os efeitos da
desaceleração rápida nos pilotos de aeronaves. Para medir esses
efeitos, ele criou um equipamento que media os batimentos cardíacos
e a respiração dos pilotos.
Aconteceu
que um técnico foi designado para instalar o equipamento no avião,
mas houve uma pane. Murphy foi chamado para consertar o equipamento
que criara. Pois não é que o equipamento estava instalado de forma
bastante equivocada?
Diante
disso, Edward Murphy formulou sua lei, que dizia que “se
alguma coisa tem a mais remota chance de dar errado, certamente dará”
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Se você não conseguir comentar nas outras opções, faça-o como anônimo, identificando-se abaixo do texto. Esse feed-back é muito animador para mim.