quinta-feira, 24 de outubro de 2013

São invencionices?

SÃO INVENCIONICES?


Dia desses, encontrei uma amiga, aqui de Maringá, e ela fez-me uma pergunta sobre este blog. Ela queria saber se os meus “causos” ocorreram na realidade, ou se eu jogava dentro deles um pouco de ficção, para dar sabor às coisas acontecidas comigo no meu tempo de Rondônia.

Outro amigo questionou-me sobre a supostamente decantada coragem, que teria sido narrada nos “causos”. Este último apontou especificamente o “causo” intitulado “Um bandido às antigas”, questionando minha visita ao presídio prestes a entrar em rebelião.

Respondi negativamente aos dois amigos, mas não vi nenhuma má-fé por parte dos dois, e sei o que os motivou: ambos não conhecem Rondônia, e não a conheceram nos seus tempos pós-criação do novo Estado.

Ao longo desse texto, vou citar algumas situações típicas daqueles tempos, quando pioneiros do Ministério Público (Promotores e Procuradores de Justiça) e do Poder Judiciário (Juízes e Desembargadores), vindos das mais diversas partes do País, tomaram a si a tarefa de transformar aquela terra praticamente sem lei num Estado Federativo organizado.

Naqueles tempos, não havia tempo e nem condições materiais de se preparar os que passaram nos concursos relativos à Justiça (Ministério Público e Poder Judiciário) para o que eles encontrariam.

A maior parte deles recebeu uma carteira vermelha, com um brasão da República, tornando-os autoridades, sendo depois despachados para as respectivas comarcas. Muitos, na população, não sabiam bem o que eles eram e como deviam tratá-los.

Quanto à minha propalada (propalada é uma palavra horrível...) coragem, digo que foram poucas as vezes em que esta apareceu – como no “causo” citado acima -, e eu sempre digo que esse destemor era mais fruto do atrevimento da minha juventude.

Acho que em alguns “causos” propalei (vamos propalar, gente...) minha falta de coragem frente a acontecimentos fantasmagóricos, bem como minha absoluta incompetência no manejo de armas de fogo.

Como dificilmente haveria bandidos com a largura de dois elefantes abraçados, muito mais dificultosamente eu teria êxito me defendendo, a tiros, de um agressor.

Mas vamos a algumas situações que passei em Rondônia, como Promotor de Justiça no interior, e que dão uma boa ideia do que acontecia por lá no início da década de 1980.

Em fins de 1983, eu estava na comarca de Costa Marques, com a carteira de Promotor, o terno e a gravata estalando de novos, sentado em meu gabinete.

Anunciaram-me que um casal queria falar comigo, ou seja, com o Promotor. Mandei que os fizessem entrar.

Era um casal de índios, parcamente vestidos ele e ela, sendo que a mulher trazia ao colo um bebê-índio recém-nascido.

Não me lembro do assunto tratado (será uma visita daquele velho alemão, o Alzheimer?), mas ficou-me gravado na memória o cheio indescritível que exalavam. Deixemos de eufemismo: eles fediam, e fediam muito.

Lembro-me de olhar para aquele casal que, parecia, nunca vira um banho bem tomado, e que o bebê estava a mamar nos bicos dos seios da mãe índia.

Fiquei com mais pena do bebê do que de mim mesmo. Afinal, não devemos lavar as mãos (sem trocadilho com mães, por favor), talheres e pratos antes de comer?

Finalizada a sofrida (para mim) audiência com o Promotor, o casal saiu. Eu voei da cadeira onde estava sentado para abrir com violência as janelas da Promotoria.

Naquele dia louvei a inteligência e a argúcia do Promotor que me antecedera na comarca, pois achei um inusitado spray de aerosol, daqueles que perfumam o ar. Êta sujeito esperto e previdente!!

Continuemos com minhas peripécias, ainda tentando mostrar aos eventuais leitores as dificuldades pelas quais passávamos e porque alguns “causos” parecem muito estranhos.

Minha comarca seguinte, da qual eu seria o primeiro Promotor de Justiça, Cerejeiras (façam fila os historiadores, por favor), tinha uma Promotoria, como se diz hoje, virtual.

Não havia nada ali que lembrasse, ainda que remotamente, um órgão público para o Promotor trabalhar. Os móveis a serem utilizados numa inexistente sala do Promotor tinham sido despachados da capital, Porto Velho, e ainda estavam na estrada.

Aliás, a estrada era tão ruim (mais de 800 kms de buracos, barro e poeira) que os tais móveis, quando chegaram, chegaram completamente quebrados, inutilizáveis.

A saída foi eu procurar o mandatário que fazia as vezes de Prefeito, pois este seria eleito apenas na próxima e distante eleição.

Consegui dele uma escrivaninha e uma cadeira bem precárias, uma caixa de papel sulfite, uma caixa de papel carbono e uma máquina de escrever Remington Rand.

Com exceção do papel sulfite, recomendo aos leitores mais novos que pesquisem no Google o que eram as outras coisas.

Por incrível que pareça (e aqui vai um auto-elogio), consegui fazer tudo funcionar muito bem, inaugurando a nova comarca na base do vai ou racha.

A energia elétrica era um problemão, já que fornecida apenas em parte da tarde e da noite, sendo cortada após as 23:00 horas. Mas problema mesmo era uma coisa básica, quase banal: o corte de cabelos!

Cerejeiras não tinha um babeiro digno desse nome, e eu tinha que viajar quase 120 kms no barro para cortar os cabelos na metrópole Vilhena. Imaginem perder um dia inteiro, em viagem de ida e volta, apenas para ajeitar o penteado

Vou parar por aqui para não me alongar muito no assunto. Mas vejam, naquele tempo, com tantas dificuldades, encontrava-se pessoas diferentes, corajosas, desbravadoras, muitas sem escolaridade alguma.

Mas, com exceção dos bandidos que tentaram se esconder da Justiça naquelas paragens, fugindo da punição por seus crimes cometidos em outros lugares do País, eram pessoas boníssimas, prestativas, sempre prontas para amparar os recém-chegados.

Aliás, mesmo os bandidos eram mais corretos, em sua lógica fora-da-lei, sabendo que poderiam ser punidos se pegos pela Polícia. Hoje, sabemos que não mais é assim.

Espero ter respondido a eventuais questionamentos acerca dos “causos” que contei e das pessoas de quem falei.

Talvez eu mesmo seja uma pessoa estranha, diferente, modificada pelas agruras da profissão que abracei e pelos lugares onde passei, e talvez isso fique espelhado nesses “causos” que ando contando.


Uma coisa sei: no meu entender, sou um sujeito muito melhor, sei mais da vida e do respeito devido às outras pessoas, do que antes de eu sair do Paraná e ir ajudar a fazer parte da história de Rondônia. 

terça-feira, 22 de outubro de 2013

A Lei de Murphy ou...

A LEI DE MURPHY ou
TUDO QUE PODE DAR ERRADO, DÁ ERRADO...


Antes de iniciar este causo, vou falar um pouco sobre o cenário em que ele aconteceu. Guajará-Mirim, cognominada de Pérola do Mamoré, foi minha segunda comarca no estado de Rondônia e tornou-se um xodó para mim para a vida toda.

Guajará enfeita a margem brasileira do rio Mamoré, onde tem um movimentado porto fluvial. A Bolívia tem, por seu lado, bem defronte a Guajará, o porto fluvial da cidade de Guayaramerin.

O rio Mamoré é, com certeza, uma das maravilhas da natureza que se pode ver quando estamos em Guajará. Ele tem 1.900 kms e, em seu final, deságua no também grandioso rio Madeira.

Quem tem a felicidade de visitar Guajará pode embarcar em pequenos barcos ou nas catraias, que são embarcações de pequeno calado, bastante grandes para acomodar várias pessoas e navegar nas partes rasas dos rios.

Subindo o rio Mamoré por uns 6 kms, você encontrará a foz do rio Pacaás Novos, curso d'água de médio porte, belíssimo com suas águas límpidas, que refletem a mata das margens, num efeito visual maravilhoso.

Digno de ser visto nesse ponto é o encontro das águas do rio Pacaás Novos, azuis e límpidas, com as águas barrentas do rio Mamoré.

As águas dos dois rios ficam bem demarcadas, sem se misturarem, só consumando o casamento forçado, feito na foz, e tornando-se apenas uma, a barrenta, rio Mamoré abaixo.

Ao se navegar o Pacaás Novos (Pacaás, para os íntimos) acima, veem-se, no verão, praias branquíssimas, inúmeras espécies de pássaros e até jacarés de todos os tamanhos.

A maior praia disponível fica pouca coisa rio acima, quando se chega a um lugar chamado Três Bocas.

Quando já se está instalado numa dessas praias, tomando banho nas águas frias do Pacaás, de vez em quando acontecerá de aparecerem os botos cor-de-rosa, brincando indiferentes à invasão dos humanos.

Então, quando alguém falar das dificuldades de se viver em Guajará, com seu calorão e a péssima estrada que a liga à capital, Porto Velho (320 kms de pedaços de asfalto ligados por enormes buracos), não creia muito no chororô dele.

Eu já era Promotor na capital, mas nunca me desliguei de Guajará, visitando-a sempre que podia junto com minha família. Em Guajará, o visitante curtirá a natureza exuberante e a benfazeja e pródiga amizade da maioria dos seus habitantes.

Numa dessas visitas, e já estou chegando ao causo propriamente dito, combinei com meu amigo Valdir e sua bela Ida de fretarmos uma catraia para passar um dia nas praias do Pacaás.

Graças a inventividade do Valdir e à minha natural disposição para atividades de lazer (atenção, isso não é um auto-elogio), na catraia foi instalado um fogão a gás e uma churrasqueira, além de enormes caixas térmicas para fornecer-nos cerveja e refrigerantes gelados (mais cerveja, é óbvio).

O dia começou com um churrasco para abrir o apetite e terminou com uma bela caldeirada de tambaqui, um gostoso cozido do peixe com legumes e ovos.

Depois de muito desfrutar o banho nas águas deliciosas do Pacaás (como o blog também é cultura, alerto para o fato de que, nos rios da Amazônia, sempre se deve andar arrastando os pés, nunca pisando, para evitar a ferroada dolorosa das arraias), iniciamos o retorno a Guajará no final da tarde.

Os filhos de Valdir, um par de gêmeos, tão endiabrados que pareciam necessitar de um exorcista, subiram ao teto da catraia para ir apreciando a paisagem da viagem de volta.

Acontece que os dois tinham apenas sete ou oito anos de idade, e se entende a razão do título dado a este causo, ligando-o à famosa Lei de Murphy.

Logo depois que entramos nas águas caudalosas do rio Mamoré, escutamos um nítido “tchibuum!”, logo seguido do grito de um dos gêmeos avisando que o irmãozinho caíra do teto!

Valdir, ouvindo o barulho do mergulho do filho e o aviso do outro, incontinenti saltou da catraia para o rio.

O Mamoré é largo e, repito, muito caudaloso. Entramos todos numa espécie de catarse, temerosos das consequências daquele inesperado acidente.

O piloto da catraia rapidamente desligou a tração do barco, pronto para o que desse e viesse.

Para nosso alívio e felicidade, enquanto olhávamos para aquele mundão de água, pudemos ver o braço do Valdir acenando para nós com um braço.

Olhando melhor, pudemos ver que ele tinha, sob o outro braço, o filho “fujão”.

A memória me falha nos detalhes, devido à tensão daqueles momentos, pois só me lembro de que rapidamente embarcamos Valdir e o gêmeo aquático de volta.

O que sempre me vem à mente quando recordo tais acontecimentos, é a pequena distância que separa o final feliz da tragédia.

Conto este causo para fazer um alerta a todos, pois devemos procurar, em todas as nossas atividades, antecipar o que pode dar errado. Ou, trocando em miúdos, devemos ser cautelosos.

O criador dessa Lei de Murphy foi o capitão da Força Aérea dos EUA, Edward Murphy. Consta que ele quase foi a primeira vítima de sua lei.

Ele era um dos engenheiros envolvidos nos testes sobre os efeitos da desaceleração rápida nos pilotos de aeronaves. Para medir esses efeitos, ele criou um equipamento que media os batimentos cardíacos e a respiração dos pilotos.

Aconteceu que um técnico foi designado para instalar o equipamento no avião, mas houve uma pane. Murphy foi chamado para consertar o equipamento que criara. Pois não é que o equipamento estava instalado de forma bastante equivocada?

Diante disso, Edward Murphy formulou sua lei, que dizia que “se alguma coisa tem a mais remota chance de dar errado, certamente dará



segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Uai, sô!?!?

UAI, SÔ!?!!


Vou contar esse “causo” aqui porque, numa ocasião, fazendo brincadeira a respeito de “fazer as malas”, ou seja, o ato de colocar-se numa mala as roupas e demais acessórios para alguma viagem, fui surpreendido por uma intervenção inesperada e... muito engraçada.

Quando eu exercia o cargo de Corregedor-Geral do Ministério Público de Rondônia, houve um encontro nacional, a ser realizado na cidade de Belo Horizonte, entre todos os Corregedores e Procuradores-Gerais do país.

Eu viajei sozinho, mas o Procurador-Geral levou junto, na viagem, a sua esposa.

A viagem de avião, que deveria fazer uma escala em Brasília, teve um incidente assustador, daqueles que fazem nossas pernas bambearem.

Eu, sempre que vou embarcar para uma viagem aérea, procuro observar como está o céu. Se este apresenta-se azulzinho, sem nuvens, é um indicador bastante bom que o voo será tranquilo, sem as intimidadoras turbulências.

Quando embarcamos, vi que tínhamos o famoso “céu de brigadeiro” e fiquei tranquilo. Esse céu bonito esteve assim por todo o caminho até Brasília.

Tudo parecia absolutamente normal, e o piloto da aeronave anunciou pelo alto-falante que nosso pouso estava autorizado, mandando que a tripulação se assentasse e atasse os cintos de segurança.

Beleza, pensei. Repentinamente, num átimo de segundo, uma massa de água envolveu o avião, que deu uma balançada feia.

Olhei pela janela para ver o que estava acontecendo e, para minha surpresa, o céu azul fora-se embora, e nada se via, estando tudo na cor cinza.

Brasília desaparecera! Confesso que fui egoísta ao encher-me de medo com aquela situação. Por quê egoísta?

Se pensarmos bem, Brasília desaparecer, levando consigo toda aquela camarilha de políticos que passa o tempo todo pensando no nosso bem-estar e no progresso do Brasil, seria uma boa ideia, não é?

Mas voltemos à situação do nosso avião. Sem nada ver do lado de fora, tive uma pista do que acontecia, ao sentir o barulhão das turbinas com potência total e ver que a parte da frente da aeronave embicara para cima.

Em pouco tempo estávamos, novamente, naquele céu azul que faz a delícia dos viajantes do ar.

Inacreditavelmente o novo procedimento de pouso do enorme Airbus (A-320) foi tranquilo, sem turbulências e mostrando um céu e um sol maravilhosos.

Tivemos a explicação do que ocorrera quando, ao descer do avião, entramos no aeroporto de Brasília: o interior dele estava todo molhado, com poças d'água pelo chão. Fora uma rápida e intensa chuva que atrapalhara nosso pouso.

Como todo medroso que não foi flagrado por um grito fora de hora, comentei com meu colega e a esposa dele, com um ar blasé, que aquilo tudo fora absolutamente normal em viagens de avião. Mas estou fugindo do assunto que levou-me a contar esse “causo”. Voltemos a ele.

Já estando na capital mineira, saímos à noite para jantar e nos fartamos com a excelente culinária mineira. Ao retornar para o hotel em que estávamos hospedados, brinquei com a esposa do meu colega dizendo que, como eu não sabia “fazer malas”, era sempre a minha Zilda que o fazia por mim.

Aí, sempre naquele “papo cabeça” de fim de noite, lamentei pelo esquecimento de Zilda ao fazer minha mala: ela se esquecera de colocar um saquinho com pães de queijo, e que eu ia ficar sem minha guloseima preferida.

Quando eu acabara de dizer isso, veio o inesperado. O motorista do táxi, virando-se para mim e me olhando como se eu fosse o ET de Varginha, exclamou:

  • Uai, moço! Isso de pão de queijo tem demais da conta por aqui, sô!! Qualquer barzinho (na verdade ele disse “barzim”) em que o senhor for, vai achar pão de queijo!!!

O resto da viagem até o hotel foi uma agonia para mim, querendo segurar o riso. Agradeci educadamente ao motorista a informação.

Afinal, por que motivo os fabricantes não fazem modelos de malas que permitam levar um queijim, um pão de queijo ou até mesmo uma pinguinha?


Ou será que os mineiros não viajam?

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Um advogado danado de esperto

UM ADVOGADO DANADO DE ESPERTO


Rondônia, a exemplo de outros lugares do país, tem os filhos de ricos, que desfrutam uma boa-vida proporcionada pelo dinheiro dos pais. Quase sempre são alienados, preguiçosos e dispostos a aproveitar-se das pessoas iludidas pelo seu estilo perdulário de viver.

As jovens, é evidente, procuram relacionar-se com aqueles rapazes bonitos (dizem que o dinheiro embeleza...), equipados com motos potentes, carros modernos, jet skis, lanchas e celulares de última geração. E, porque não trabalham, sempre disponíveis para todo tipo de balada.

Infelizmente, também são eles os responsáveis por muitos dos acidentes nas nossas ruas, devido à alta velocidade de seus veículos e da bebida ingerida durante a balada.

Outro fruto desagradável da atuação desses jovens endinheirados é a realização de inúmeros abortos, feitos em clínicas clandestinas, opção usada para evitar a paternidade.

O “causo” que vou abordar aqui aconteceu em um passado recente, quando eu já atuava como Procurador de Justiça, em uma das Câmaras Cíveis do Tribunal de Justiça.

Um desses rapazes acabou por engravidar uma das moças que fora sua companheira numa noitada. O aborto acabou não acontecendo, pois a moça não quis submeter-se ao ato cirúrgico.

Como resultado, não houve sequer um lampejo de responsabilidade por parte do pai por acaso. A garota levou a gravidez até o final, trazendo à luz um belo menino.

O rapaz em nada ajudou, nem financeiramente nem psicologicamente. A jovem mãe, para criar o filho, teve que ajuizar uma ação civil contra o pai da criança, a tão conhecida “ação de alimentos”.

O garotão, querendo afastar de si o cálice da paternidade, de repente virou um pobrezinho na vida. Segundo alegava o seu advogado, ele ganhava, por mês, uns poucos reais que o pai dele (avô da criança) lhe pagava pela ajuda eventual no trabalho.

Ganhando tão pouco, segundo dizia, não podia ajudar a pagar as despesas do filho, a menos que o Juiz estabelecesse um valor irrisório.

Teve sucesso na ação, sendo obrigado a pagar uma pensão alimentícia muito pequena para o filho, valor longe de abarcar todas as necessidades de uma criança.

Inconformada com a decisão de primeiro grau, a mãe da criança apelou para o Tribunal de Justiça, tendo o processo vindo para mim para análise.

O exibicionismo, típico dos idiotas, trouxe a verdade à tona, em benefício da criança refugada pelo pai.

Quando abri os autos do processo, ao ler os motivos citados pelo advogado constituído pela mãe da criança para pedir que fosse fixado um valor bem maior para os alimentos, não tive como não cair na risada.

Ocorreu que o advogado, antes de apresentar seus argumentos para o Tribunal, resolveu dar uma olhada na página do Facebook do pai mandrião.

Com o que achou, ganhou a causa. O advogado viu e imprimiu várias páginas do Facebook do rapaz, apresentando tudo no processo.

Lá estavam as fotos do pai irresponsável exibindo-se em fotos com as seguintes legendas: 'Eu com minha moto”, “eu com meu carrão”, “eu com o meu jet ski turbinado”, “eu curtindo Copacabana”, e por aí afora.

As fotos, em resumo, demonstravam o alto padrão de vida do rapaz, tornando evidente sua mentira quando dizia não poder ajudar nas despesas do filho.

É evidente que, enquanto reformavam a sentença de primeiro grau, aumentando significativamente o valor da pensão alimentícia, os Juízes também riram do exibicionismo do pai relapso.

Eu, por minha parte, anotei o nome do advogado, pois se me envolvesse numa pendenga judicial, iria contratá-lo. Era, realmente, um advogado danado de esperto.




sábado, 5 de outubro de 2013

Justiça divina ou terrena mesmo?

JUSTIÇA DIVINA OU TERRENA MESMO?


Lembrei-me de um julgamento pelo tribunal do júri, ocorrido em 1984 que, embora distante no tempo e guardado no “fundo da memória” (não confundir com vaga lembrança...), na época, trouxe-me sérias dúvidas a respeito de como as coisas mundanas se ajeitam.

Na ocasião, eu era Promotor de Justiça em Cerejeiras, sul do Estado de Rondônia. O crime era um homicídio, praticado com o uso de faca.

Sobre o crime, tudo o que se sabia era que o sujeito havia matado um companheiro seu de trabalho na roça com golpes certeiros de faca. Os dois, réu e vítima, dormiam em redes colocadas em um pequeno casebre no meio do mato.

À noite, já recolhidos para dormir, houve, como é de costume, farto consumo de bebidas alcoólicas (deixemos o eufemismo, era pinga do que se tratava).

No dia seguinte, o matador acorda da bebedeira com o seu companheiro de trabalho morto dentro da cabana. Embora ele tivesse tentado criar mil histórias para explicar a morte do colega, acabou por confessar que o matara.

Fui tranquilo para o julgamento pelo tribunal do júri, certo da condenação, já que era Promotor havia menos de um ano, carente ainda de uma experiência acerca das nuanças do comportamento dos jurados.

O advogado de defesa sustentou que o crime havia sido praticado em legítima defesa. Fiquei tranquilo com aquela tese defensiva, pois pretendia que o réu demonstrasse que realmente ele havia matado o outro para não morrer.

A defesa sustentou, basicamente, que os dois, embriagados, haviam discutido e chegado a trocar tapas e murros e, quando a luta ficou mais intensa, com a vítima querendo matar o réu, este o despachara para conhecer o Criador.

Confiante na culpa e na condenação do réu, sequer fui para a réplica, que é a hora em que o Promotor, depois de terminada a fala do advogado de defesa, faz críticas à tese da defesa e procura desacreditá-la.

Para minha surpresa, surpresa esta devida à minha inexperiência, o réu foi absolvido por larga maioria.

Enquanto o juiz lia a sentença de absolvição, fiquei olhando para o réu. Era um sujeito de cor morena, tipicamente trabalhador braçal, e de aparência humilde.

Decidi ali mesmo que não ia recorrer da decisão dos jurados.

Quando tudo terminou, fui falar com o réu, que ainda estava sentado ali no plenário. Ele olhou-me assustado, perguntando-se o que aquele Promotor que o acusara e pedira sua condenação à prisão pouco antes, iria fazer para colocá-lo na cadeia.

Eu disse a ele:

  • Olha, rapaz. A coisa vai terminar por aqui, porque eu não vou recorrer da sua absolvição. Eu sei que só estavam você e a vitima, e que os dois estavam bêbados, e por isso faltam provas do que realmente aconteceu naquela noite. Vou dar uma chance para você consertar sua vida. Você viu que encher a cara de cachaça e discutir por bobagens pode acabar com a vida de alguém. Eu vejo que você é trabalhador pelas mãos calosas. Você me promete que vai endireitar?

Ele, é óbvio, prometeu que iria andar direito na vida, e que iria “largar mão de ser bravo”, deixando para lá as confusões.

O interessante vem agora.

Uma semana depois do julgamento, exatamente uma semana depois, ele foi morto a facadas numa briga de bar ocorrida na cidade de Vilhena, próxima dali (120 Kms).

Fiquei pensando, ao saber morte trágica, que ele estava destinado a ser julgado pela Justiça Divina, já que havia escapado da dos homens.

Essa digressão sobre a existência de um destino imutável para os homens, ou a existência de uma Justiça Divina nos cobrando por nossos atos, configura tão-somente uma elucubração retórica.

O fato inquestionável é que todos devemos pensar que nossos atos podem nos levar ao desastre, o que cientificamente é denominado de vitimologia.

Aqueles que dizem não levar desaforo para casa, que agem irritadamente com as outras pessoas que supostamente os incomodam, e até mesmo aqueles que proferem impropérios e xingam o outro motorista que deu-lhes uma “fechada”, são vítimas potenciais desse tipo de tragédia.

Eu tenho uma técnica pessoal, altamente desenvolvida (olha a cultura do blog aí de novo, gente...), para vingar-me das pessoas ou motoristas que fazem uma grosseria ou uma barbeiragem.

Eu presenteio o estabanado com os mais cabeludos palavrões que conheço – e não são poucos! -, acompanhados de gestos obscenos com as mãos, vingando-me plenamente da ofensa.

Mas isso tudo é feito com a voz bem baixinha, com as mãos vistas apenas dentro do meu carro. Afinal, não preciso anunciar para todas as pessoas em volta que o sujeito é, como se diz em Rondônia, um abestado.

Isso ficou muito patente para mim ao longo de trinta anos como Promotor de Justiça.




domingo, 29 de setembro de 2013

Proeza etílica

PROEZA ETÍLICA


Logo que cheguei a Rondônia, mais precisamente para ser Promotor na cidade de Costa Marques, ouvi falar muito de uma cerveja boliviana, que seria muito boa e mais forte em percentual de álcool.

Tratava-se da Cerveza Paceña, nome dado à cerveja que é fabricada na cidade de La Paz, capital da Bolívia.

A Paceña tem teor alcoólico (11,6%) maior que as cervejas brasileiras. O que a distingue é o fato de ela ser fabricada em altitude de 3.600 metros acima do nível do mar, utilizando a puríssima água da Cordilheira dos Andes.

Quando fui ser Promotor em Guajará-Mirim, logo perguntei sobre a Paceña, de tanto que dela ouvira falar.

Entre os oficiais de Justiça de Guajará-Mirim havia o Durán, brasileiro apesar do nome. Foi ele quem disse-me um dia que ele e outros colegas da mesma função dele iriam cruzar a fronteira comigo, adentrando na Bolívia e na cidade de Guayaramerin, para “apresentar-me” a bebida.

Assim, numa bela manhã de sábado, Durán e outros dois oficiais de Justiça passaram em minha casa e convidaram-me para conhecer a tal cerveja boliviana. Sedento (trocadilho mesmo) de cultura, aceitei o convite e para lá fomos.

Já instalados na mesa de um bar lá na Bolívia, Durán e seus colegas pediram logo ao atendente que trouxesse três Paceñas.

Enquanto bebíamos a cerveja e conversávamos, notei que Durán e os outros dois trocavam olhares entre si. Como eu os conhecia havia pouco tempo, fiz que não notei nada.

A explicação para a troca de olhares veio logo. Quando “secamos” as três garrafas servidas, Durán perguntou-me, com um ar malicioso, se eu gostaria que eles pedissem mais cervejas.

Entendi, então, que eles esperavam que, com as três cervejas bebidas, com seu teor alcoólico mais forte, eu estivesse borracho – usemos a língua local -, ou pelo menos um pouco bêbado.

Acho que eles pensavam que iriam ter que me levar, aos trancos barrancos, de volta para o Brasil. Mas a cara deles foi de espanto com essa minha resposta:

  • Sim, é claro, Durán, vamos pedir mais três Paceñas, que essa cerveja é boa demais. Mas gostaria que você, que fala bem o castelhano, perguntasse ao dono do bar se ele não teria aí uma pinguinha, que é costume da minha terra tomar uma cachacinha antes da cerveja, que é para “limpar as turbinas”.

Pasmo total, e uma certa frustração, foi o que eu vi nas caras dos meus colegas de turismo alcoólico internacional.

Eles pediram as outras Paceñas para bebermos. Infelizmente para mim, o bar não tinha a danada da pinguinha.

Durán, agora confessando que esperavam ver-me “baleado” pela Cerveza Paceña, disse para os seus colegas:

- Viram com quem nós fomos mexer? O homem é forte! Doutor, sorte que o bar não tem a pinguinha, porque se tivesse o senhor é quem teria que levar a gente de volta.

Fiquei sabendo que o Promotor de Justiça que me antecedera na comarca de Guajará-Mirim era abstêmio, e que só bebia refrigerantes e sucos. Foi essa a razão do convite e da expectativa baldada, pois queriam ver como o novo Promotor da comarca saía dessa aventura.

Certamente este “causo” seria melhor para minha imagem se eu tivesse surpreendido as pessoas com o meu conhecimento das coisas do Direito, mas fica registrada aqui minha proeza etílica.









sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Fórum mal-assombrado

FÓRUM MAL- ASSOMBRADO


O Fórum de Guajará-Mirim, o antigo (hoje em dia há um novo, moderno), sempre foi tido como mal-assombrado. A julgar pelo que contavam as pessoas que haviam testemunhado seus “eventos” sobrenaturais, acho que ele era bem-assombrado, isso sim.

As coisas que ali aconteciam somente tinham lugar à noite. O “palco” dos acontecimentos eram a mesa central do salão do tribunal do júri e o cartório da vara cível.

Contaram-me que, altas horas da noite, escutavam-se fortes socos sobre a mesa do tribunal do júri (onde sentavam-se o juiz e o promotor). Como brasileiro não respeita nada e nem ninguém, muito menos fantasmas, logo apelidaram o autor dos socos sobre a mesa de o “Promotor bravo”.

Já no interior do cartório da vara cível, quem por lá aparecia era o “fantasma datilógrafo”.

Segundo diziam, acontecia, sempre altas horas da noite, de vir de lá de dentro sons de máquinas de datilografia (utilíssimas na época, e hoje meros objetos de museu), como se alguém estivesse datilografando furiosamente.

Sabedor desses eventos fantasmagóricos, quando fui Promotor de Justiça em Guajará-Mirim, nos anos de 1984 e 1985, certo dia, à noite, dirigi-me ao Fórum.

Sentado à porta do Fórum, o vigia Francisco lá estava pitando o seu cigarrinho. Desci do meu carro e falei com Francisco:

  • Seu Francisco, eu esqueci a minha pasta aí dentro do Fórum. Será que o senhor pode entrar lá e pegá-la para mim?

O vigia Francisco, levantando-se, respeitosamente me respondeu:

  • Pois olha, Doutor Promotor, vigiar o Fórum eu vigio, pois esse é o meu emprego. Mas entrar lá dentro eu não entro não, de jeito nenhum. Isso aí é mal-assombrado demais da conta. Se o senhor quiser, pode entrar, até porque o senhor é também Promotor, como aquele fantasma que fica batendo na mesa.

Seria uma boa oportunidade para eu demonstrar o meu destemor, o meu desassombro e coragem. Eu poderia entrar no Fórum e desafiar os eventuais fantasmas de plantão. Seria...

Pensei bem e concluí que não seria necessário eu demonstrar o meu destemor, desassombro e coragem, até porque eu teria como plateia apenas o vigia.


Mas que eu sou isso, isso sou!!