COSTA
MARQUES: COISAS QUE VI, OUVI E VIVI
Já comentei aqui, com justiça
ou não, que Costa Marques sempre lembrou-me aquele realismo
fantástico de Gabriel García Márquez, levando-me a chamá-la de a
nossa Macondo.
Morei
por lá pouco mais de mês e meio, mas retornei várias vezes por
motivos profissionais. Pretendo agora contar algumas das coisas
peculiares, estranhas mesmo, que chegaram ao meu conhecimento, todas
ligadas a Costa Marques.
Todos
os fatos abaixo ocorreram, ou deles fiquei sabendo, quando exerci lá
o cargo de Promotor de Justiça.
RETARDO
MENTAL MAIS PEDOFILIA
Numa
manhã, estava em Costa Marques o Secretário de Segurança de
Rondônia, visitando a Delegacia de Polícia local.
Fui
avisado de que o Secretário queria falar comigo lá na Delegacia.
Atendi o chamado e fui levado a uma sala onde estavam o Secretário,
o Delegado de Polícia e alguns agentes.
No
meio de todos eles, um enorme sujeito, negro, mal vestido e
ostentando aquele olhar apalermado às vezes estampado na cara dos
débeis mentais (hoje, com a onda do politicamente correto, ele seria
chamado de mentalmente prejudicado, ou coisa que o valha).
Destinei
um olhar interrogativo ao Secretário de Segurança e este fez-me
sinal com a mão para apenas observar.
Eu
não sabia ainda, mas naquela manhã haviam encontrado morto no
cemitério local um menino, de uns 6, 7 anos de idade, depois de uma
longa busca dos pais pela pequena cidade.
O
corpo da pobre criança estava em decúbito ventral, ou seja, deitado
com a barriga para baixo sobre a terra ainda fresca de um túmulo. O
rostinho da criança estava enterrado no chão, o que causara sua
morte por sufocamento.
Investigando,
a Polícia descobriu que alguém vira a criança de mãos dadas com o
sujeito agora detido, notório amalucado por todos conhecido em Costa
Marques.
Agora,
com a minha presença, o Delegado começou a interrogar o preso. Na
sua simplicidade de doente mental, o sujeito contou que a criança o
tinha chamado para passear com ele. Acrescentou que a criança é que
o tinha chamado para praticar relações sexuais dentro do cemitério.
O
Delegado, diante do pasmo de todos, indagou-lhe:
O
maluco (perdoem-me os politicamente corretos por chamá-lo assim)
respondeu, negando enfaticamente:
Não, ele é quem me chamou
e gostou tanto que, depois que eu terminei, ele continuou deitado no
chão, querendo mais...
Na
verdade, o menino, com aquele enorme sujeito deitado sobre ele e
estuprando-o, estava morto, sufocado por ter a cabeça enfiada na
terra úmida da cova recém utilizada para sepultamento.
A
história é feia, mas eu quis registrá-la. Nesse nosso Brasil de
tantas carências, não sei que fim levou aquele doente mental, pois
não existiam, e ainda hoje não existem, instituições próprias
para tratar quem tem distúrbios mentais.
Mas
sempre dói lembrar-me do infeliz menininho, que, ao “ir com aquele
tio”, deu adeus à sua própria vida...
UM
ÁLCOOL AINDA MAIS FORTE
Por
aqueles lados, os trabalhadores mais pobres, quando acabam a pinga e
o dinheiro para comprá-la, improvisavam.
Deu-se
que, certo dia, eu soube que três homens, todos bolivianos, haviam
morrido lá do seu lado da fronteira, além de um outro que estava
muito mal no hospital.
Os
quatro, num pequeno casebre da Bolívia, do outro lado do rio
Guaporé, começaram a beber no fim de tarde. Pouca pinga, fizeram um
improviso costumeiro: usar álcool hidratado (desses que usamos para
limpeza ou para acender o fogo na churrasqueira) misturado com o suco
de uma fruta qualquer, laranja, caju, etc.
Tarde
da noite, já todos bêbados, um deles foi ao depósito de materiais
do barracão, onde moravam e trabalhavam, buscar mais álcool.
No
escuro, ele acabou pegando um recipiente que continha o álcool
combustível (etanol). Embora estranhassem o gosto, a embriaguez
embotou suas cabeças e eles beberam o líquido fatal.
“Acordaram
mortos”, diz o povo na
linguagem simples. A bebida improvisada acabou vitimando todos. O
único sobrevivente não durou muito, morreu um dia ou dois depois.
Resumo
da ópera, como diria um ilustre paraibano, Jackson Abilio de Souza:
miséria e incúria.
O
DONO DA LUZ
A
Costa Marques de antigamente era iluminada por energia elétrica
provida por um grande motor estacionário, movido a diesel. Por
motivo de economia, havia energia elétrica apenas após as cinco e
meia da tarde, e durava apenas até a meia-noite.
O
responsável por manter e acionar e desligar o motor era um antigo
funcionário da fornecedora de energia de Rondônia, um senhor já
entrado em anos.
Havia
um acordo entre o hospital e o encarregado do motor de luz: quando
houvesse alguém internado, e com a saúde em estado grave, o médico
solicitava e a energia não era desligada à meia-noite.
Os
adeptos da boemia na pequena cidade, já cansados da falta do que
fazer nos finais de semana, brincavam:
Tomara que alguém fique
doente, bem doente, na sexta-feira ou no sábado! Se ninguém
adoecer, a festa vai ser à luz de velas...
Esse
acordo médico-energético foi a causa, embora não desejada, de um
grande drama humano.
Uma
menina adoeceu e ficou em estado muito grave, internada no hospital.
O médico fez sua parte, comunicando ao operador do motor de luz que
a pequena doente estava mal.
O
drama humano e familiar centrou-se no fato de que a criança doente
era a neta do encarregado de prover a energia elétrica.
Houve
como que apostas na cidade. Ele certamente não desligaria os motores
e a cidade teria luz a noite toda.
Pois
“seu” Antônio, o encarregado da luz, foi até o hospital e
conversou com o médico. Queria saber das chances de sobrevivência
de sua neta.
O
médico, indagado pelo “seu” Antônio, foi franco. A menina
estava muito mal e eram poucas as suas chances, acrescentando que
iria fazer de tudo para evitar a morte.
Pois
naquele dia, exatamente à meia-noite os motores foram desligados e a
luz deu seu adeus. Naquela mesma madrugada, a neta do “seu”
Antônio também despediu-se da vida.
Para
quem teve a coragem de perguntar a ele, “seu” Antônio foi curto
e grosso: “ela não ia passar dessa noite mesmo!”.
Fiquei,
na época, somente imaginando o tamanho do sofrimento da filha do
encarregado da energia elétrica, não sabendo se devia culpar, pela
morte de sua filha, a doença propriamente dita ou a rigidez do avô
dela.
SANTO
NA CORONHA
Encerrando
essas pequenas histórias da vida na Costa Marques de antanho, conto
sobre o dia em que fui chamado à Delegacia de Polícia. O Delegado
queria me mostrar um “achado”.
Ao
chegar na Delegacia, o Delegado contou-me que detivera um sujeito
bastante estranho, desconhecido na região.
Quando
perguntei a ele o porquê de sua afirmação, o Delegado mostrou-me a
arma que apreendera em poder do sujeito. Naquele tempo, o porte de
arma não era crime como hoje. Esse porte ilegal de arma configurava
mera contravenção penal. O detido pagava uma pequena fiança e
ia-se embora.
A
razão da certeza do Delegado? Ele mostrou-me o velho revólver
calibre 38 apreendido. Nada parecido com as fulgurantes armas que
vemos nos filmes de ação. A periculosidade da arma e do seu
portador estavam demonstrados em dois detalhes.
No
cano, a arma continha vários (eu disse vários) riscos verticais,
certamente indicando cada uma das vítimas do pistoleiro. Na parte de
baixo da coronha, estava grudada a figura de um santo, utilizado para
“jurar a vítima”.
Dizem,
a respeito dessa particularíssima “profissão”, que depois que o
pistoleiro recebe o dinheiro para matar, e “jura a vítima”, não
tem mais jeito: ela vai morrer!!
Ainda
bem que isso não existe mais. Ou será que...