quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Ah, então são os dois, o piloto e o motor?


AH, ENTÃO SÃO OS DOIS, O PILOTO E O MOTOR?


Eu já era Procurador de Justiça em Porto Velho (que nada mais é do que o Promotor de Justiça que atua nos Tribunais) quando, diante de um feriado prolongado, fui convidado por colegas de Ministério Público a fazer uma curta pescaria no Sul do Estado de Rondônia, mais precisamente no rio Guaporé, proximidades do município de Pimenteiras d' Oeste.

A distância de Porto Velho até Pimenteiras é de mais ou menos 900 quilômetros, mas o convite envolvia uma viagem de avião, a preço de custo (somente o combustível).

Esse avião era fruto do sonho de Charles, também Promotor, que vendeu seu único imóvel para comprar um monomotor Minuano usado, mas ainda bom para se planar junto das nuvens.

Tudo pronto, embarcamos para o voo de ida. Para passar o tempo de quase duas horas da viagem, trouxemos um companheiro que não ocupava muito espaço e era bastante divertido: um litro de Dimple, uísque envelhecido por quinze anos.

A companhia revelou-se muito útil e prazerosa. Quando começamos a sobrevoar o campo de pouso, nosso amigo Dimple despediu-se, tão vazio quanto tristes nós ficamos. Chegamos perto do meio-dia.

Em Pimenteiras d' Oeste, um churrasco nos aguardava na sede da fazenda onde nos hospedaríamos, numa casa simples.

Fomos à pesca e ali exercitamos aquela teoria de que, numa pescaria, o peixe é um detalhe. O importante é curtir a natureza e os amigos, tudo com a vista maravilhosa que o rio Guaporé proporciona a quem tem a felicidade de conhecê-lo.

A sede da pescaria foi outra fazenda, às margens do Guaporé, alguns quilômetros abaixo de Pimenteiras.

No domingo de tarde iniciamos o nosso retorno. O plano era voltar para a fazenda da nossa hospedagem primeira e, depois de lá pernoitar, fazer o voo de volta a Porto Velho.

Mas o rio Guaporé, para quem não sabe, tem praias maravilhosas. E ocorreu que numa dessas praias, bem junto de Pimenteiras, estava acontecendo um festival anual. A esse festival comparece muita gente. Alguns levam barracas e acampam na praia mesmo.

Nesses festivais aparece de tudo. Churrascos, muita bebida, meninas “alegres”, etc. Às vezes aparecem até pregadores, tentando levar mais fiéis aos seus templos. Como eu disse, há de tudo.

Pois não é que paramos por um pouco nessa praia do festival? Após tomarmos algumas cervejas, bem de tardezinha resolvemos ir para a primeira fazenda para dormir e, no dia seguinte, iniciar o voo de retorno.

Havia um problema. Nosso piloto, o Lucinho, desaparecera. Nós o procuramos mas, naquele amontoado de pessoas, algumas dormindo (ou até fazendo coisas menos confessáveis dentro de barracas), não foi possível achar o Lucinho.

A solução, cansados que nós estávamos, foi deixar um companheiro por ali para continuar procurando o raio do piloto fujão.

Já eram nove horas da noite (bastante tarde, em se tratando de uma fazenda no meio da mata e sem energia elétrica) quando aparece o companheiro que ficara no festival de praia, vindo num táxi.

Com ele, bastante a contragosto, o Lucinho. Ele estava bêbado de um jeito tal que nós procuramos afastá-lo de qualquer fonte de fogo, pois havia o perigo de explosão.

O companheiro autor do resgate do piloto contou-nos que o achara escondido num canto, bêbado de se matar com chapéu (expressão muito usada em Rondônia), enredado com uma daquelas meninas “alegres”.

Segundo ele, Lucinho não queria vir para a fazenda de jeito nenhum. O jeito que ele arranjou para convencer o renitente Lucinho foi dizer-lhe:

  • É, Lucinho, isso aqui está bom demais. Vamos fazer o seguinte. Vamos lá pra fazenda comigo, que assim você me ajuda a convencer os outros a voltar para cá.

Com esse papo e muita paparicação, ele conseguiu convencer o Lucinho a buscar-nos para a continuidade da “festa”.

Lucinho chegou animado, embora parecesse estar cercando galinhas ao andar:

  • Bora lá, pessoal! A festa tá boa “dimais da conta”!. Ô, taxista, espere aí que nós vamos voltar!.

Nós outros, com muito jeito, o convencemos a dispensar o táxi, dizendo que iríamos mais tarde com o outro carro disponível, e que era melhor ele tomar um banho, “ajeitar a aparência” e comer alguma coisa antes de voltar para a gandaia.

Ele concordou, gritando para o motorista do táxi:

  • Pó voltá, motorista, que nós vamos logo mais. Avisa as “menina” que daqui a pouco eu estou de volta!

Já de caso pensado, nós o convidamos para, junto com a comida, tomar mais uma cerveja. Claro que ele aceitou.

O plano deu certo. Mal acabou de ingerir a comida e meio copo de cerveja, Lucinho desabou sua cabeça na mesa, dormindo a sono solto.

Para evitar maiores confusões por parte dele, só chamamos Lucinho quando nós todos fomos dormir, contentes com o fim da confusão.

Que nada!, bêbados sempre “aprontam” mais uma.

Nós ficamos, todos, apenas num quarto, quarto esse equipado com beliches. Lucinho, sujeito de pequena monta, baixinho, logo subiu num deles. Charles, com as camas-beliches todas ocupadas, pôs um colchão no chão e deitou-se.

Pouco mais de uma hora depois, ouvimos:

  • ÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊ!!!!! - era um grito, seguido de uma pancada seca, TUM!

Todos acendemos as lanternas, naquela escurão total, e vimos Lucinho esparramado sobre o pobre do Charles, que fora esmagado pelo tombo do piloto. O Charles só faltava soltar fogo pelas ventas...

Indagado sobre o porquê daquilo, Lucinho disse que pretendia ir ao banheiro, visando se livrar da enormidade de cervejas que tomara, e se esquecera de que estava no alto do beliche.

O Charles, não tão machucado assim, relevou o ataque noturno do seu empregado, o piloto.

Na manhã seguinte, para nossa surpresa, quando acordamos Lucinho já estava pronto, de banho tomado e vestido com o uniforme de comandante da aeronave.

João, um dos nossos colegas, dizia, com ar preocupado:

  • Gente, sei não. Será que esse cara já está bom? Se ele estiver bêbado, ele vai nos matar a todos, derrubando esse avião.
Nada disso!” - garantimos a ele - “o Lucinho é bom piloto, e a carraspana de ontem já era”. Essa nossa garantia era parecida com aquela dada nas compras no Paraguay, onde o vendedor nos fala “a garantia soy jo!”.

Seguimos para a pista de aterrissagem e rapidamente o avião decolou. Pudemos notar que João se persignava o tempo todo, fazendo o sinal da cruz, e entendemos que ele não confiava tanto assim nas nossas garantias.

Abro agora um parêntese. Sabem aquele ditado que diz que se a vida lhe der um limão, esprema-o a faça uma limonada? Pois o Charles nos apresentou sua versão para o dito popular.

Visando a curtir a ressaca da bebida do dia anterior, Charles pegou aquela garrafa de uísque consumida no voo de ida e torceu-a com muita fé. Sua fé não removeu montanhas, mas sim algumas gotinhas do Dimple, rapidamente engolidas por ele.

Depois disso, Charles nos avisou de que teríamos que fazer um pouso na cidade de Ji-Paraná, a meio caminho de Porto Velho. Ele vai abastecer, pensamos.

Avião no solo, fomos todos até o bar do aeroporto. João pediu à atendente um copo de água, recebendo-o. Depois pediu o açucareiro e praticamente despejou-o todo no copo de água.

Assim, mexendo com a colherinha aquela mistura pastosa de água com açúcar, explicou que estava querendo se acalmar, pois aquele voo com o piloto ainda curtindo sua bebedeira, o estava assustando muito.

Tudo pronto no avião, reembarcamos e seguimos o voo para Porto Velho. Pouco depois, alguém, puxando assunto, perguntou ao Charles se ele tinha colocado muito combustível no tanque da aeronave. Charles respondeu:

  • Não, eu coloquei combustível apenas o suficiente para chegarmos a Porto Velho e um pouco mais, para margem de segurança. Nós precisávamos parar, também, para colocar mais óleo no cárter do motor, pois esse avião está queimando óleo.
Foi o suficiente para o João comprovar, para si próprio, que seus temores eram fundados:

- Espera aí, gente. Quer dizer que, além do Lucinho estar pilotando essa coisa ainda de ressaca, e quem sabe ainda bêbado, o motor do avião está para fundir? Assim não dá...

João não parou mais de reclamar, até pousarmos em Porto Velho. Na verdade nós todos sabíamos que o João era pau pra toda obra e que, se o chamássemos para nova pescaria e novo voo, ele seria dos primeiros a concordar.

E assim, a vida, às vezes, era perigosa até mesmo quando nós estávamos nos divertindo. A Amazônia não é para amadores...




quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Dois frutos da velhice: a surdez e a impotência


BALA AZEDINHA

DOIS FRUTOS DA VELHICE: A SURDEZ E A IMPOTÊNCIA


Esses dois “causos”, típicos da Bala Azedinha, chegam-me vindos de uma velha e querida amiga, hoje, como eu, Promotora de Justiça aposentada.

Ela autorizou-me a citar seu nome neste blog, e eu o faço com enorme orgulho e satisfação: Doutora Maria Aurizete Saldanha Gontijo, que trabalhou nas cidades de Pimenta Bueno e Porto Velho.

Quase ninguém chamava Aurizete por este nome, e sim pela alcunha que ela ganhou em acontecimentos que logo ganharam todo o Estado de Rondônia: Chica Bandeira.

Aconteceu que ela, na década de 1980, resolveu acompanhar uma diligência policial na cidade de Porto Velho, mais precisamente na chamada Zona do Baixo Meretrício.

Chegaram ela, os Delegados de Polícia e demais agentes ao local e prepararam-se para “dar uma geral” nos lupanares.

Contudo, havia um certo constrangimento por parte dos policiais, por causa da natureza do lugar, com prostitutas, bandidos e desocupados de toda ordem, sem falar naquelas casas iluminadas pela indefectível luzinha vermelha.

Certamente os policiais hesitavam, pensando em como fariam naquele lugar, acompanhados de uma Promotora, uma mulher...

Percebendo a indecisão da Polícia, Aurizete tomou a frente na ação e, escancarando com um pontapé a porta do prostíbulo mais próximo, lá entrou para tornar um pouco mais difícil a vida daquelas mulheres de vida fácil.

Não me rotulem como um energúmeno porco chauvinista por causa da expressão usada acima (mulheres de vida fácil), mas é que sou dado a licenças poéticas, hehe.

A diligência policial foi um sucesso, mas Aurizete ganhou ali, para sempre, o seu brasão: Chica Bandeira.

No primeiro “causo” narrado por ela vamos tratar de um dos efeitos da velhice.

O lugar era a cidade de Pimenta Bueno, nos anos 1980, extremamente violento, onde ocorriam muitos homicídios. Vai daí que um dos principais trabalhos da Promotora era a realização de Júris.

Depois de terminados os trabalhos, ao fim da realização de uma grande série de sessões de Tribunais do Júri, todos ainda cansados, o Juiz resolveu punir aqueles jurados que, mesmo escolhidos para trabalhar naquela temporada de Júris, não haviam comparecido.

Como as coisas da Justiça ainda não eram bem conhecidas na Rondônia daqueles tempos, algumas pessoas, mesmo intimadas a comparecer no Fórum para ser juízes de fato, não apareciam.

Para efetivar as punições, o Juiz começou a ler, em voz alta, os nomes dos jurados faltosos, para que o cartório judicial providenciasse o chamamento deles à responsabilidade.

Uma funcionária do Fórum, sabedora de que aqueles nomes estavam sendo apontados como relapsos para com o Tribunal do Júri, estranhou a leitura de um desses nomes e disse ao Juiz:

  • Mas, Excelência, esse senhor não faltou, não! Eu o vi todos os dias aqui sentado no salão do Tribunal do Júri.

Todos estranharam a informação e começaram a investigar o que se passara. Nas pequenas cidades do interior, isso é tarefa extremamente fácil.

Descobriram que a surdez acometera aquele jurado e que, mesmo presente para a realização dos julgamentos, não ouvira chamarem seu nome.

Mesmo chamado seu nome diversas vezes no salão, ele ficou impávido, pois estava surdo como uma porta.

Vamos ao segundo “causo'.

Nesta mesma cidade de Pimenta Bueno deu-se a conhecer outro efeito, este mais constrangedor, da velhice.

O fato ocorreu numa audiência feita para tentar reconciliar um casal que pretendia separar-se. O Juiz tentou por todos os meios salvar aquele casamento, embora percebesse que a diferença de idade entre os cônjuges era bem grande.

A mulher era muito mais nova. Como continuassem no firme propósito de darem fim ao casamento, o Juiz, já exasperado, perguntou-lhes qual era o verdadeiro motivo da separação. A mulher esclareceu, na bucha, o motivo.

  • Acontece que ele só chupa, não faz mais nada na cama, Doutordisse, na lata, a mulher.

A resposta caiu como uma bomba naquele ambiente judicial, tão formal e presenciado por pessoas não acostumadas com um linguajar tão direto.

Ao magistrado somente restou pigarrear, olhar para os lados e, como que livrando-se de um peso, sentenciou, concedendo a separação:

  • Conciliação infrutífera por manifestação expressa das partes.
    Nota do autor do blog: fico imaginando, presente nessa audiência judicial, o locutor Galvão Bueno. Depois dessa resposta acachapante da mulher, justificando a separação, acho que ele diria, ou melhor, gritaria:
  • ACABOOOUUU! ACAAABOUUU! ELE É BROXAAA! ELE ÉÉÉÉ BROXAAA!


segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O ás nos céus (ou O asno no céu)

O ÁS NOS CÉUS (OU ASNO NO CÉU)


Estamos em janeiro de 1984. Eu deveria, em breve, sair da Promotoria de Guajará-Mirim para assumir, no outro extremo do Estado de Rondônia, ao sul, a minha primeira comarca, Cerejeiras, de onde eu seria o primeiro Promotor de Justiça.

Quando eu saíra, pouco mais de um mês antes, da comarca de Costa Marques, eu deixara por lá alguns pertences, e deles ainda precisaria.

Assim, estava eu no falecido Banco do Estado de Rondônia (Beron) quando o gerente da agência disse-me que precisava mandar para Costa Marques um malote de dinheiro.

Nessa época, Costa Marques somente era acessível por rio, numa viagem longuíssima, ou por avião. Esse isolamento deixava a pequena cidade dependente do envio de muitas coisas para o seu dia-a-dia, inclusive de dinheiro.

Ao ouvir isso, perguntei ao gerente de que forma ele mandaria o dinheiro, obtendo como resposta que o Banco fretaria um avião. Pedi a ele, então, se não seria possível que o avião, em seu retorno a Guajará-Mirim, trouxesse meus pertences.

Natanael, o gerente, animou-se:

  • E se o senhor for o portador do malote de dinheiro, Doutor? Resolveríamos o seu problema e também o meu...
  • Sem problemas, Natanael, é só você marcar o voo que eu serei o seu mensageiro. - respondi, até porque eu sempre quis ser o portador de boas-novas. Querem melhores boas-novas do que dinheiro?

Tudo marcado, no dia seguinte, pela manhã, fui ao Banco e, devidamente escoltado, dirigi-me ao aeroporto, onde embarquei num bimotor Seneca, tendo como bagagem uma bolada em dinheiro vivo.

Autorizadas pelo gerente, embarcaram mais duas pessoas, pegando “carona” para Costa Marques.

O piloto pediu que eu usasse o assento do co-piloto, com o que eu concordei de pronto, sentindo-me um Charles Lindbergh. Durante o voo, o piloto, talvez querendo “fazer uma média” com o Promotor, perguntou-me se eu queria pilotar um pouco o avião. Recusei, é claro.

Mas Francisco, o piloto, todo gentil, insistiu em colocar o manche em minhas mãos, ensinando-me a manter o avião estabilizado (acho que é esse o nome que se usa para manter-se o aviãozinho do relógio no painel alinhado com o horizonte artificial) e no rumo certo, o NE.

O espírito de Charles Lindbergh, que momentos antes eu achara ter incorporado, abandonou-me, assustado com minha incompetência aérea.

Quando eu conseguia estabilizar o avião, o rumo ia para as cucuias, e vice-versa. Terminou aí minha efêmera carreira de piloto.

Depois de algum tempo, chegamos a Costa Marques e o piloto alinhou o avião para o pouso. Tudo parecia bem. Fomos baixando, baixando e, enfim, tocamos o solo.

Mal corremos alguns metros pela pista, Francisco gritou alguma coisa sobre ter pego um vento de través, ou coisa parecida, e acionou violentamente os motores para decolar novamente.

Eu ali, do lado, testemunha muda e sem ação da estrepolia aérea. Os motores do Seneca roncavam, poderosos. O problema era que o final da pista de decolagem estava chegando e eu já me via enfiado no topo daquelas árvores todas (Costa Marques era pouco mais que uma clareira na selva amazônica).

Francisco de repente puxou freneticamente o manche em direção ao seu peito e a aeronave começou a se elevar lentamente. Eu olhava fascinado para as árvores que, tudo indicava, iam ganhar um fruto paranaense, ou seja, eu.

Passamos tão rente às árvores que, no meu assento de co-piloto, levantei discretamente as nádegas para evitar qualquer arranhão.

Logo que se decola do aeroporto de Costa Marques pega-se, pela frente, os elevados da Serra dos Pacaás Novos, o que força um desvio rápido, seja pela direita, seja pela esquerda.

Francisco, ainda assustado pelo quase desastre, optou por fazer a curva à esquerda, desviando-nos do choque com a serra. Com o avião já voando calmamente de novo, olhei para trás para ver como estavam os dois passageiros “caronas”.

Tudo bem com eles, pois ambos estavam com a famosa cara de paisagem. Pensei comigo: “que caras durões, sô!”.

Voltei minha atenção para o nosso piloto, o Francisco. Ele estava novamente com o semblante desassossegado, aparentando medo mesmo.

  • O que há, Francisco? Qual o problema agora? - perguntei ao comandante daquela que virara uma aventura dos ares.
  • Doutor, agora estamos perdidos! Não tenho a menor ideia de onde estamos. Como vamos fazer para voltar ao aeroporto de Costa Marques?

Com a simplicidade daqueles que ignoram as complexas teorias da navegação e os mapas daqueles tempos pré-GPS, eu procurei acalmá-lo:

  • Francisco, se você virar o avião um pouco para a direita, fazendo o retorno, e seguirmos em frente, logo veremos Costa Marques.
  • Você tem certeza, Doutor? Será que nós invadimos o espaço aéreo boliviano? O senhor tem mesmo certeza?

O pânico fazia Francisco negar a lógica mais evidente. Mas ele fez o que eu disse e, logo mais, vimos novamente a pista do aeroporto de Costa Marques.

Dessa vez, o tal de vento-de-través não deu as caras e pousamos normalmente. Descemos todos. Para surpresa minha, os dois “caronas” continuavam com cara de paisagem. São mesmo corajosos, pensei, ou não perceberam o que aconteceu. Qual o que...

Ao entrarmos na pequena construção que fazia as vezes de prédio do aeroporto, ambos entraram correndo no banheiro, onde ficaram bastante tempo. Não esperei para ver se os dois tiveram que lavar os fundilhos de suas calças, mas tive a certeza de que, tão cedo, não pegariam carona em aviões.

Para concretizar meu efêmero papel de tesoureiro de Banco, entreguei o malote de dinheiro na agência local do Beron e embalei minhas coisas numa pequena mala, pronto para voltar.

O voo de retorno deu-se no mesmo dia, e o piloto Francisco, como se nada de mais importante tivesse acontecido, estava de novo falastrão, contando-me suas proezas aéreas.

Mal sabia eu do que escapara.

Pouco tempo depois, tive que ir ao aeroporto pegar uns documentos que foram trazidos pelo avião do governo do Estado de Rondônia. Após pegar os documentos, comecei a conversar com os dois pilotos do governo. Avião oficial tem piloto e co-piloto de verdade.

Nesse ínterim, vimos o Seneca de Francisco decolando para mais um voo. Um dos pilotos diz para o outro:

  • Lá vai o Chico Mentira. Cada decolagem e pouso dele são milagrosos. Deus sabe como é que ele ainda está vivo.

Aquelas palavras, é óbvio, me interessaram muito. Perguntei-lhes, então, o que eles queriam dizer com aquilo. Com um ar de menoscabo, e certamente ignorando minha viagem recente, os pilotos disseram-me:

  • Ele é ruim demais. Nós o chamamos de Chico Mentira porque ele mente muito sobre seus voos. Ninguém sabe como ele conseguiu brevetar-se (refiro-me ao brevê, espécie de habilitação para pilotar aviões). O fato é que nós esperamos, a qualquer momento, que ele se esborrache com o avião, dada a sua ruindade.

Depois desses acontecimentos, saí de Guajará-Mirim, indo para Cerejeiras, onde trabalhei por algum tempo. Nunca mais ouvi falar de Francisco, o Chico Mentira. Acho que acabou não caindo com seu avião, pois queda de avião é sempre notícia, e nunca ouvi essa notícia.

Como se vê neste causo, os perigos para um Promotor de Justiça naquela amazônia de então não limitavam-se ao enfrentamento com bandidos e traficantes. Essa viagem de avião colocou minha vida mais em risco do que nunca.




quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Justiça! Operação roupas limpas


JUSTIÇA! OPERAÇÃO ROUPAS LIMPAS


A audiência judicial transcorria plácida naquela manhã de sol. Embora o processo de que se tratava fosse criminal, tudo estava tranquilo, até porque o réu não estava preso.

Como se sabe, quando o réu está encarcerado, há que se transportá-lo até o Fórum, com viaturas policiais, escolta, etc. Em resumo, era uma audiência plácida.

Isso acontecia no Fórum criminal de Cerejeiras, nos idos de 1984, e a sala de audiências era apenas um aposento de uma casa residencial, de madeira, transformada, num passe de mágica – ou quase isso -, em Palácio da Justiça.

Foi então que notei algo estranho. Volta e meia o réu e o seu advogado esticavam seus pescoços, endireitavam as costas no encosto da cadeira e, até mesmo, levantavam-se um pouquinho.

Que coisa estranha, pensei, e passei a observá-los, tentando descobrir se ali não estava acontecendo uma conspirata para acabar com a audiência e dar um fim ao processo que tentava colocar o réu na cadeia.

Logo imaginei vários capangas do réu, armados até os dentes, escondidos do lado de fora, esperando para invadir a Fórum e impor sua vontade.

O esticar de pescoços continuava, e eu mais encafifado ficava. Urdi, às pressas, um plano para tentar deslindar o mistério.

Quando foi-me dada a palavra, tentando estampar no rosto um ar inteligente e compenetrado (duas coisas difíceis de fazer, creiam-me, eu me conheço...), peguei o processo e levantei-me, folheando vagarosamente suas páginas.

Que ideia brilhante exporá, que majestosa manifestação jurídico-científica fará o Promotor de Justiça? - pensava eu que estavam se perguntando réu, defensor, testemunhas e Juiz, na minha grande modéstia.

Assim, caminhando tal qual Cícero no senado romano, acabei por ficar atrás do réu e do advogado. Descobri o que estava acontecendo muito rapidamente.
Na Cerejeiras de 1984 não tínhamos energia elétrica, de modo que a refrigeração da sala de audiência era obtida deixando-se abertas todas as portas e janelas, fazendo com que o ar circulasse.

Bem defronte à janela, em vez de capangas armados de revólveres, pistolas, metralhadoras e escopetas, o que se via eram apenas os fundos da casa vizinha ao Fórum.

A vizinha em questão esfalfava-se num tanque de lavar roupas. A cada vez que ela se debruçava sobre o tanque, no seu labor de esfregar as roupas sujas, ela mostrava a sua, digamos, carenagem traseira.

A bun..., digo, a carenagem traseira da vizinha era vistosa, e essa era a razão das peripécias físicas do réu e do seu advogado.

Desfazendo a cara de inteligente (isso foi bem mais fácil, acreditem-me), voltei ao meu assento na sala de audiências, de onde, aliás, não dava para avistar o que havia na janela que mostrava o labor da vizinha (malditos engenheiros...).

Continuando a audiência, acabei por perceber que o próprio Juiz forçava o pescoço para os lados, como quem estivesse se ressentindo de um torcicolo, certamente desviando seu olhar para compartilhar a vista com os dois primeiros espectadores da vizinhança.

Devo confessar que, com réu e advogado tão preocupados com outras coisas, foi-me muito mais fácil condenar o primeiro pelo crime praticado. Suas mentes estavam longe do processo criminal.

Restou-lhes, pensei comigo, o consolo de que, quando o réu estivesse na cadeia, já saberia como lavar as próprias roupas...



terça-feira, 20 de agosto de 2013

Garimpos: vidas ceifadas


GARIMPOS: VIDAS CEIFADAS


Em fins da década de 1980, e mesmo no início da década de 1990, os garimpos eram um chamariz para aventureiros de todo o Brasil, que vinham para Rondônia em busca do ouro do rio Madeira.

O ouro existente no fundo do rio Madeira era de natureza aluvional, ou seja, havia um depósito considerável de ouro no fundo e nas margens do rio, trazido pela correnteza.

Esse depósito de material aurífero dá-se porque o rio Madeira transporta em seu leito as águas vindas de vários outros rios, desde a Cordilheira dos Andes, na Bolívia.

A exploração do ouro começou com as dragas, tipos de embarcação providas de equipamentos que sugavam a terra/areia depositada no fundo do rio para a superfície, matéria-prima de onde era separado o ouro.

No início, para os pioneiros na atividade, o lucro veio farto, com muito ouro e fortunas criadas do dia para a noite. Mais tarde, com a notícia do sucesso da atividade garimpeira, vieram muitas outras dragas.

Havia trechos do rio Madeira que pareciam uma cidade flutuante, tal a quantidade de dragas competindo pelo ouro.

Em Porto Velho, nessa época, os preços de imóveis, principalmente, eram fixados em quilos de ouro, o que inflacionava o já caro custo de vida na Rondônia de antanho.

Como sói acontecer, nessa busca pelo ouro e pela riqueza, a vida das pessoas era completamente desprezada, e ninguém acautelava-se para preservar a própria vida. O objetivo era o ouro e e riqueza dele advinda.

Essas dragas funcionavam da seguinte forma: para sugar o lodo do fundo do rio, era descido um homem, que ficava encarregado de movimentar o cabo de sucção para extrair a maior quantidade possível de material.

O rio Madeira sempre foi barrento, com águas escuras. Quem nele mergulhava até o fundo nada via, e tinha que se mover meio que por instinto, na escuridão das profundezas.

Com todo esse risco, se as pessoas encarregadas de tal trabalho fossem especializadas, ainda poder-se-ia esperar alguma margem de segurança.

Mas não. Os recém-chegados do Brasil todo queriam porque queriam trabalhar no garimpo e enriquecer, mesmo trabalhando de empregados para o dono da draga.

Os mais corajosos topavam fazer o papel de mergulhadores. E, em sua maioria, morriam nessa tarefa.

O equipamento do mergulhador era o escafandro, pesadíssimo, que tinha o ar para sustentar a vida abaixo da superfície provido por compressores que funcionavam na própria draga.

Alguns recém-chegados ao garimpo, diante da oferta de mergulhar naquelas águas barrenta e profundas, acabavam por topar. Mas, para criar coragem, a maioria descia encorajada pelo álcool ou por cocaína, relativamente barata essa droga pela abundância, já que a região era fronteiriça com a Bolívia.

Exame de saúde? Nem pensar. Se o sujeito, o novel mergulhador, era hipertenso, por exemplo, ou mesmo cardíaco, findava sua aventura logo no começo.

Os operadores da draga, na superfície, ficavam observando a movimentação do tubo que trazia o material do fundo do rio para cima e, quando este parava de se movimentar, era sinal de problemas.

Quando isso acontecia, os operadores içavam o infeliz mergulhador, e não era raro encontrar-se o corpo, já morto, dentro do escafandro, muitas vezes cheio de sangue. Alguns infelizes simplesmente explodiam (se é que se pode usar essa palavra que, na verdade, dá uma ideia bem boa do que acontecia).

Outro perigo era a concorrência. Como já dito antes, o agrupamento de dragas em certas partes do leito do rio Madeira era muito grande, sinal de que, naquele ponto específico, havia muito ouro. Chamavam esses locais de fofoca.

Houve casos em que um mergulhador, ao “embolar-se” com outro num local de farto ouro, simplesmente cortou a mangueira de ar do outro, numa crueldade que somente a febre do ouro pode explicar.

A luta pela vida, a luta pelo dinheiro, joga as pessoas num turbilhão quando elas anteveem a possibilidade de retornar para suas famílias, em lugares diversos locais do Brasil, já enriquecidas, inebriadas pelo próprio sucesso.

Morria-se muito facilmente nos garimpos, mas os ganhos (pelo menos para os mais humildes) eram bem acima da média e justificavam o perigo corrido.

Em Porto Velho, por exemplo, não havia a menor possibilidade de encontrar-se empregadas domésticas.

Quase todas as mulheres disponíveis para o trabalho doméstico iam para o garimpo, trabalhar como cozinheiras nas dragas, sendo que podiam, ainda, aumentar seus ganhos no período mais calmo da noite. Vocês podem imaginar com qual atividade...

Os crimes de morte, nessas cidades flutuantes, consistiam no crime perfeito. Bastava crivar de facadas o rival e jogar o seu corpo nas águas do rio.

O rio Madeira, pouco antes de chegar a Porto Velho - abaixo, portanto das fofocas do garimpo -, tinha a Cachoeira do Teotônio, que pela força de suas águas profundas e revoltas, parecia um liquidificador.

Não havia corpo humano que não saísse aos pedaços (mais apropriado seria dizer pedacinhos) depois de passar pela cachoeira. Hoje, essa força da natureza não mais existe, sacrificada que foi pela construção da Hidrelétrica de Santo Antônio.

Cometido, pois, o assassínio, e jogado o corpo da vítima nas águas, não havia o crime de homicídio porque, em linguagem jurídica, faltava a materialidade, ou seja, o corpo morto.

Também às margens do rio Madeira, porém mais longe de Porto Velho, na estrada em direção de Guajará-Mirim, surgiu o tristemente famoso garimpo de Periquitos.

Também ali muito gente se fez milionária, ao lado da grande maioria que foi conhecer o Criador.

Nessa época, eu era Promotor em Guajará-Mirim, em cuja comarca ficava a área do garimpo de Periquitos.

A bebedeira nos bares do garimpo eram homéricas. Os bares não passavam de meras barracas de acampamento ou de uma cobertura de lona sustentada por quatro estacas de madeira.

Nessas noites de violência ímpar, com a Lei completamente ignorada, a prostituição, o álcool e, principalmente a droga (pasta base de cocaína) imperavam.

As brigas eram inevitáveis, seja com faca, no braço ou com arma de fogo. Os brigões, enlouquecidos pelo cérebro embotado, disparavam quase a esmo, atingindo, longe dali, quem nem sequer sabia da confusão.

Pelo menos ali o corpo da vítima não desaparecia no liquidificador do rio Madeira. A dificuldade era de outra ordem.

O Delegado de Polícia de Guajará, coitado, bem que tentava. Mas os crimes eram diários, e eram muitos.

Quando o Delegado instaurava o inquérito policial para esclarecer o crime, tudo o que ele vinha a saber era que o garimpeiro “Caititu” matara o garimpeiro “Pernambuco”, ou seja, somente os apelidos dos envolvidos na ocorrência. A possibilidade de descobrir-se a identidade de vítima e matador era zero.

Eu poderia falar ainda muito mais sobre esses problemas ligados aos garimpos, mas não quero estender-me. Quis, tão somente, dar uma pálida ideia da história recente da minha querida Rondônia.



segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O garimpeiro desafortunado


O GARIMPEIRO DESAFORTUNADO


Quando cheguei à Delegacia de Polícia de Porto Velho, ao entrar na sala do Delegado, encontrei o policial quase sem fôlego, de tanto rir.

Esperei até que ele se recompusesse e indaguei-lhe o motivo de tão gostosas gargalhadas. O Delegado de Polícia estava, nesta ocasião, em sua sala, tendo à sua frente um sujeito, que o olhava com um ar entre surpreso e indignado.

O Delegado explicou-me que o sujeito sentado à sua frente era um garimpeiro, vítima de assalto, e contou-me a história dele.

O garimpeiro em questão, após ter conseguido uma boa quantidade de ouro, resolveu abandonar temporariamente o garimpo e ir para Porto Velho divertir-se.

O garimpeiro estava em plena “diversão”, tomando suas cervejas e gastando à larga o dinheiro conseguido, quando encontrou uma prostituta, cuja aparência lhe agradou.

Não teve dúvidas. Levou-a para um motel, onde colheria agora os frutos sexuais do seu sucesso aurífero. Estavam sossegados no quarto de motel, o garimpeiro e sua companheira eventual, quando um sujeito, armado de revólver, invadiu o quarto!

Os bandidos de Porto Velho tinham olho clínico para identificar os garimpeiros que, cheios de dinheiro, vinham à cidade para “torrar” a grana conseguida com duro trabalho no garimpo.

O assaltante surpreendeu o garimpeiro e a prostituta deitados na cama, indefesos, e apossou-se do dinheiro do infeliz aurifestante (neologismo meu para aquele que vai festar com o dinheiro apurado com a venda de ouro. “Causo” também é cultura...).

O bandido já estava se dirigindo para a porta, para sair, quando teve a ideia de aproveitar a ocasião para “divertir-se” um pouco do seu estressante 'trabalho”.

Assim decidiu e logo pôs seu plano em ação. Convocou a prostituta para fazer nele o que os norte-americanos chamam de blow job.

Para tanto, o ladrão encostou-se, de costas, na porta do quarto, para evitar surpresas por parte de alguém que chegasse. Depois, mantendo o revólver apontado para o garimpeiro deitado na cama, chamou a mulher para desempenhar o seu serviço.

Terminado esse ato sexual insólito, o ladrão fugiu sem deixar pistas. Ao garimpeiro, então, sem dinheiro para continuar a festa, somente restou ir à Delegacia de Polícia para “prestar queixa”.

Afinal de contas, perguntei-me, diante de tantas desditas sofridas pelo desafortunado garimpeiro, por que o Delegado ria tanto?

O mistério desfez-se quando o Delegado prosseguiu sua narrativa dos fatos. Já na Delegacia, o policial perguntou ao garimpeiro se ele seria capaz de reconhecer o ladrão, se o visse posteriormente.

A resposta do garimpeiro veio rápida, num desabafo:

  • Doutor, o senhor acha que eu iria olhar para a cara do ladrão? Eu só olhava para o revólver na mão dele! Meu medo era que o desinfeliz, quando gozasse, apertasse o gatilho!

Os garimpeiros que vieram tentar a sorte nos garimpos de ouro de Rondônia sofriam muito, como podem ver com essa história. Nesse caso específico, tudo terminou mais ou menos bem para o garimpeiro, pois a profissional do sexo, diante do prejuízo e da paúra sofridos por ele, não cobrou por seus serviços.

A verdade é que os garimpos eram uma máquina de ceifar vidas humanas, um inferno onde abundavam cobiça e cupidez, mas esse é assunto para um post futuro, onde contarei as desditas de quem neles entrava.

Esses acontecimentos, ocorridos na década de 1990, tiveram o seu epílogo quando eu me juntei ao Delegado numa risada ampla, lavada, estrepitosa, sendo ambos encarados furiosamente pelo garimpeiro, frustrado e indignado com a falta de solidariedade da “justiça brasileira”.




domingo, 18 de agosto de 2013

Conversando com o passado

CONVERSANDO COM O PASSADO


Vamos falar mais de Guajará-Mirim, já que é uma cidade bem antiga, diferenciada das demais cidades de Rondônia.

O que vou aqui falar sobre a cidade não tem rigor histórico, pois meu conhecimento dela é derivado de algumas pesquisas e da experiência que tive como morador, nos anos de 1984 e 1985, quando era Promotor de Justiça ali.

Sua história tem início em fins do ano de 1903, quando o Governo brasileiro firmou, com o Governo boliviano, o Tratado de Petrópolis. Com esse tratado, a Bolívia pretendia que o Brasil construísse uma estrada de ferro ligando os portos de Santo Antônio, no rio Madeira, ao de Guajará-Mirim, no rio Mamoré.

Essa estrada de ferro, a Madeira-Mamoré, era vital para que a Bolívia escoasse seus produtos para a Europa e os Estados Unidos. Como alguns sabem, o Rio Madeira, a partir do porto de Santo Antônio, em Porto Velho, era e é navegável em direção ao Amazonas e, por extensão, ao Oceano Atlântico.

Em 30 de abril de 1912 a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré ficou pronta e, na época, a extração do látex, matéria prima da borracha, era uma atividade econômica importante.

A região onde está hoje Guajará-Mirim era inóspita, existindo apenas um barracão da firma Guaporé Rubber Company, que explorava a extração e exportação da borracha produzida nos seringais.

Segundo consta, em abril de 1917 chegou à região o Capitão Manoel Teófilo da Costa Pinheiro, um dos membros da famosa Comissão Rondon. Nessa época, o Capitão nada encontrou que lembrasse uma cidade. Além de uns poucos seringueiros, a região era habitada por índios arredios.

Como era natural, as refregas entre os índios e os seringueiros eram uma constante, e se prolongaram no tempo, conforme contarei mais adiante.

Em 10 de abril de 1929, desmembrado de uma outra área maior, o município de Guajará-Mirim foi oficialmente instalado.

Feito esse breve resumo histórico, passo a contar algumas coisas de que fiquei sabendo, mais de cinquenta anos depois da criação do município, quando por lá exerci a função de Promotor.

Certo dia, entabulei uma conversa muito interessante com um dos mais antigos moradores de Guajará-Mirim, ocasião em que tive uma ideia das dificuldades iniciais que a cidade enfrentara no passado.

A cidade terminava onde hoje está localizado o Posto de Gasolina Nogueira, que fica a mais ou menos 1,5 quilômetro das margens do rio Mamoré, onde se situava – e onde ainda está – o porto fluvial de Guajará.

Segundo foi-me contado, naquele pedaço limítrofe entre a cidade e a mata fechada, havia que se tomar muito cuidado.

Os moradores, para saírem de suas casas, observavam, com muito cuidado, o início da mata. A razão para essa cautela? Segundo eu soube, os índios ficavam escondidos dentre as árvores para flechar os moradores quando estes saíam para atividades externas.

Imagine você saindo de sua casa para comprar pão e voltando, como se fosse um brinde, com uma flecha encravada nas costas. Parece brincadeira, mas era uma ocorrência possível e rotineira.

Essa seria a principal ação dos índios contra os moradores em suas casas, mas eles armavam também outras armadilhas, muito mais perversas.

No então lugarejo chamado Guajará-Mirim, havia os seringueiros que tinham que adentrar na mata para fazer a colheita da seiva da seringueira, o látex, que, depois de trabalhado, originava a borracha.

O Sindicato dos Seringueiros, se existisse na época, teria uma pauta enorme de reivindicações, pois vocês podem imaginar o perigo que rondava esses homens que saíam para a mata para explorar o seringal.

Os índios eram agressivos e não titubeavam em agredir os invasores brancos.

Os silvícolas, quando surpreendiam um deles, flechavam-no. Quando o sujeito caía, os índios nada faziam. Aguardavam, quietos.

Ali, no local mesmo onde havia caído, ficava o corpo do seringueiro, por horas ou dias. A razão para tal proceder dos índios era simples. Se aparecesse outro branco e fosse socorrer o primeiro, seria também morto a flechadas.

Essas mortes, tanto nas fímbrias da cidade, quanto nos caminhos do seringal, geravam uma verdadeira guerra, com ódio recíproco entre os contendores.

A batalha entre civilizados (?) e índios, acabou por gerar uma grande tragédia, somente imaginável naqueles longínquos e primitivos tempos.

Para vingar-se dos seus mortos, os civilizados (?) organizaram uma “expedição punitiva”, com vários cidadãos de Guajará-Mirim, todos fortemente armados.

A expedição acercou-se, certo dia, furtivamente, da aldeia dos índios, desfechando um ataque formidável, seja pelo número de mortos entre os índios, seja pela violência dos atacantes.

Praticamente a aldeia toda foi dizimada.

Contava-se, segundo eu soube, que os enraivecidos atacantes da aldeia indígena jogavam as crianças índias para cima e “escoravam-nas” com o facão, disseminando a morte sem diferenciar os guerreiros dos seus filhos e mulheres indefesos.

Mesmo naqueles tempos rudes, o crime foi investigado, e alguns tornaram-se réus numa ação penal que tramitou por longos anos. Quando Guajará-Mirim foi elevada à condição de comarca, passando a ter Fórum, Juiz e Promotor, o processo passou a tramitar ali.

Quando lá cheguei, o processo estava pronto para ser levado a julgamento pelo Tribunal do Júri, só faltando ser marcada a data.

Tratava-se, pelo menos em tempos modernos, e no Brasil, de um exótico julgamento por crime de genocídio.

O julgamento demorava para ser marcado porque o comandante da expedição punitiva, único sobrevivente da chacina, tinha idade muito avançada e vivia doente, o que impossibilitava o seu julgamento.

Esse impeditivo de julgamento não era fingido e nem hipócrita, a exemplo dos casos modernos, em que subterfúgios legais protelaram e deixaram em liberdade o ex-jornalista Pimenta Neves, que matou sua namorada, a também jornalista Sandra Gomide, ou ainda o estuprador Roger Abdelmassih, até hoje foragido.

O Tribunal do Júri para julgar o genocídio nunca aconteceu, pois a morte colheu, naquele final da década de 1980, o principal réu e único participante que ainda vivia.

Como eu disse, não há rigor histórico nessa minha narrativa, dada a minha especialidade profissional. Mas penso que seja um testemunho importante e necessário, até porque até hoje desconheço a existência de pesquisas sobre tais acontecimentos.

A população de Guajará-Mirim está hoje a caminho da quarta geração, sucessora daqueles que viveram aqueles tempos heroicos. Talvez muitos deles desconheçam essas histórias.

A própria Estrada de Ferro Madeira-Mamoré terminou num fiasco, sendo desativada muito pouco tempo depois de sua inauguração, até porque a borracha foi um sucesso somente em dois ciclos, nos quais produziu muito lucro.

O primeiro ciclo ocorreu entre os anos de 1879 e 1912, tendo conseguido uma sobrevida no segundo ciclo, ocorrido nos anos 1942 a 1945, no auge da Segunda Guerra Mundial.

Os ingleses, após roubarem sementes da seringueira do Brasil, desenvolveram seu cultivo, bem como produção do látex, em suas colônias na Malásia, no Ceilão e na África.

Isso fez cair o preço e decretou o fim da riqueza produzida nos seringais brasileiros, bem como reduziu o progresso de Guajará-Mirim quando a estrada de ferro parou de funcionar.

Tal como a guerra havida entre os seringueiros de Guajará-Mirim e os índios, a guerra empreendida pelas nações desenvolvidas e ricas (como a Inglaterra) contra os países mais pobres (como o Brasil) também não observa quaisquer escrúpulos...