O
QUASE MATADOR DO EX-MATADOR
O
sujeito chegou, de carona, naquela cidadezinha do interior de
Rondônia. Poeira infernal na estrada para ali chegar. Ele pensava
que aquele pó, entrando nas narinas e nos olhos, e acabando de
emporcalhar suas roupas, teria um fim dentro da urbe.
Nada
disso. As ruas poeirentas e pouco movimentadas davam-lhe uma ideia do
cafundó em que ele se metera.
O
desânimo logo passou quando ele pensou na boa grana que iria receber
para fazer “um serviço” naquela cidadezinha. Quase que
automaticamente, ao pensar no “trabalho” que o esperava, ele
levou a mão à cintura, onde estava bem dissimulado um revólver
calibre 38.
Sua
arma não era uma qualquer. Ele era profissional da morte, da “morte
matada”, como se dizia em sua terra natal.
Seu
Rossi, calibre 38, de seis tiros no tambor, apesar de bem antigo,
herdado de seu avô, que também exercera a atividade de matador, era
bem conservado, sendo limpo e lubrificado todos os dias.
A
arma tinha ainda uma caraterística especial: na parte final do cabo
do revólver, abaixo de onde fica o punho, estava fixada a figura de
um santo.
Por
quê o santo?
Como
o matador era profissional das antigas, ao fechar o contrato para
matar a vítima com o mandante do assassínio, ele “jurava” o
futuro defunto mostrando o santo no cabo do revólver. Assim, como
ele mesmo dizia, “pegava réiva” da vítima e dava ao contratante
a certeza de que seu desafeto iria morrer.
Depois
de se instalar numa hospedaria pulguenta, ele saiu para procurar
saber onde poderia encontrar o futuro morto e planejar como iria
executar o assassinato.
Pergunta
ali, pergunta acolá, ele saiu pela cidadezinha. Todos a quem
abordou, depois de ouvir o nome de quem ele procurava, o olhavam de
forma estranha e diziam não conhecer o sujeito.
Após
circular pela cidade – e aumentar um pouco mais o nível de poeira
que sujava suas roupas -, ele decidiu retornar à hospedaria para um
descanso, embora já preocupado com o fato de não ter sabido onde
encontrar o “alvo” do seu contrato.
Tomou
um banho e teve que colocar as mesmas roupas sujas de poeira, pois
esse negócio de troca de roupa é coisa para gente chique. Ele não.
Era matador, e dos bons...
Ao
lado da hospedaria havia um boteco, sujo e malcheiroso, mas tinha o
que ele queria, ou seja, uma boa pinguinha. O matador decidiu, então,
ficar um pouco na bodega, tomando uma “branquinha” e aproveitando
para “assuntar” sobre quem era a sua futura vítima.
Já
bem tarde da noite, o barzinho iluminado fracamente pela chama
tremeluzente de uma lamparina, apareceu por lá um típico “pé
inchado” que, convidado a “tomar uma”, sentou-se com o matador
na mesinha cheia de moscas.
O
“pé inchado” é aquele sujeito que passa o dia inteiro no bar
tomando pinga em cima de pinga (e é essa a razão do pé inchado) e
falando mal do governo, qualquer governo, que “não faz merda
nenhuma”.
Com os olhos já meio esgazeados pela imensa quantidade de pinga
ingerida, o “pé inchado”, ao ouvir o matador perguntar sobre
quem era a pessoa que ele deveria matar, fez um olhar assustado e
perguntou:
O
que você quer com esse sujeito? Deus me livre! Esse cara é
pirigoso dimais da conta, sô... Cuidado com ele, se você tiver
negócios com o cara. Ele tem fama de brabo e já matou vários
desafetos aqui na região.
O matador, com o sentido
prático dos profissionais do “ramo”, logo pensou que havia
cobrado barato demais para fazer desviver o desinfeliz. Mas o “pé
inchado” continuou falando sobre o sujeito, a quem comparou com o
demônio. Ele acrescentou:
Ouvi
dizer que ele está tiririca da vida, pois lhe contaram que seu
inimigo, num causo de terras, contratou um pistoleiro para matar
ele. Eu soube até que o pistoleiro já andou pela cidade
perguntando sobre onde ele mora...
Tendo visto que o trabalho
seria mais difícil do que pensara, e que sua chegada na cidade já
era fato sabido, o matador, por sua vez também com a cabeça cheia
de pinga, resolveu ir dormir para aclarar as ideias.
No dia seguinte, ao acordar,
abriu a porta do seu quarto e, para sua surpresa, encontrou uma vela
acesa defronte, ali colocada pelo piedoso dono da hospedaria.
Que enrascada, ele pensou. A
“empreita” era para lá de ruim. Depois de muito pensar, o
matador resolveu “desjurar” a vítima, e que o santo e o mandante
o perdoassem.
Mas como bater em retirada? Se
o sujeito era tão perigoso como parecia, certamente, ao sair da
cidade, a vítima acabaria sendo ele, morto pelo ex-futuro morto.
Um tanto de covardia já se
insinuava no espírito do nosso matador, mas ele descartou a ideia de
pedir proteção à Polícia, já que o ridículo dessa situação
era flagrante.
Após dar trabalho ao cérebro
atormentado pelas dores de cabeça causadas pela ressaca da cachaça
de péssima qualidade, ele achou ter encontrado uma saída brilhante:
daria um jeito de ser preso.
Logo passou à ação. Retornou
ao bar e parou em frente do dono, que estava no balcão, segurando
uma pano imundo para espantar as moscas que giravam, insanas, pelo
local.
Depois de um olhar provocativo
para o dono do bar, o matador disse a ele:
Dito isso, enfiou um forte soco
na cara do dono do bar, espatifando o nariz dele, de resto já
avermelhado e detonado pelo consumo excessivo de bebida alcoólica.
Como o assustado dono do bar
nada fizesse, não entendendo a razão daquela agressão. Nosso
matador tomou a iniciativa:
Que Polícia, que nada. O dono
do bar entrou para os fundos do seu “estabelecimento” e chamou a
sua mulher que, furiosa, avançou contra o matador, brandindo uma
mortífera vassoura.
Nosso heroi correu, é lógico.
Frustrado o brilhante plano que
o colocaria protegido numa cela da cadeia local, restou ao matador
partir para um plano alternativo e ainda não imaginado.
Logo seus olhos assustados
viram, na mesma rua, uma igrejinha, com alguns fieis na frente. Taí
– pensou – é me pendurando na religião que eu saio dessa.
Entrou correndo no templo e já foi gritando:
Como a igreja parecia
ecumênica, não sei dizer se quem a comandava era um pastor ou um
padre, mas essa pessoa logo acorreu para receber aquele que clamava
pela salvação.
O sujeito mandou o matador
sentar-se num dos bancos da igreja e prometeu logo voltar para tratar
da salvação do recém-chegado. Enquanto ele estva, trêmulo,
sentado lá, logo sentou-se ao seu lado o “pé inchado” da
véspera.
Este, como que querendo
continuar a conversa da noite anterior, apontou para o chefe da
igreja e falou:
Lembra
daquele sujeito ruim de quem lhe falei ontem? É ele! O pessoal
daqui comenta que ele consegue expulsar os demônios que grudam nas
pessoas porque ele é tão brabo, tão ruim, que até os demônios
têm medo dele...
Nosso matador não viu outro
jeito senão tornar-se assessor da igreja, limpando a poeira (muita)
do templo e passando a sacolinha na hora das doações.
Passou a ser contada na
cidadezinha a história de que teria sido o nosso agora ex-matador
que, fazendo promessa a um santo, cuja figura que ele tirara de algum
lugar, quem conseguira afastar, para sempre, o matador contratado
para matar um morador dali...