A
FAZENDA E O LONG-PLAY
Neste
causo vou
contar sobre como, e com que dificuldades, foi adquirida a hoje
Fazenda Carajás, uma propriedade rural localizada no município de
Pimenteiras, que fica no Sul do Estado de Rondônia.
Nos
anos 1970 e 1980, a ideia generalizada era a de que uma pessoa “bem
de vida” seria um fazendeiro. Tem fazenda? Está rico, dizia-se.
Não
era – e ainda não é – bem assim. Mas vamos seguir. Logo depois
que eu fui para o novo Estado de Rondônia, ao assumir o cargo de
Promotor de Justiça, meu irmão mais novo, o Paulo, seguiu atrás.
Como
ele é formado em agronomia, ele foi para lá munido de pipetas e
outros instrumentos estrambólicos destinados a verificar a qualidade
da terra.
Logo
achou terra de boa qualidade e compramos, os três rebentos da
família Araujo, um lote de terras, pontapé inicial rumo ao nosso
destino de futuros ricos fazendeiros.
Foi
uma dificuldade enorme pagar esse investimento inicial dos
“pré-fazendeiros”, e nós tivemos que raspar os cofres em busca
de dinheiro (inexistente, diga-se) para pagar a compra. Também em
razão disso, somente com muito bom humor pudemos “aguentar” os
calhambeques que passamos a utilizar como carros.
Tivemos
até problemas de memória: sair para comer uma pizza,
esqueça; ir
ao boteco tomar umas cervejas, esqueça.
O
fato é que vencemos a “dureza” inicial e esse primeiro lote
rural abriu caminho para que, anos depois, comprássemos uma área
maior. Nessa compra, demos, como parte do pagamento, o lote rural que
já tinhamos e ainda um jipe que era de minha propriedade.
Esse
jipe era fabricado pela empresa Gurgel e parecia “pau para toda
obra”, mas a verdade é que tinha um motor diesel fraquíssimo,
além de mecânica de duvidosa qualidade. Era o jipe Carajás.
Esse jipe acabou sendo apelidado, pelos entendidos em automóveis, de hemorróidas. A razão desse apelido seria que, segundo diziam as más línguas, quem tinha o jipe hemorróidas, digo, Carajás, tinha vergonha de dizer que tinha...
Esse jipe acabou sendo apelidado, pelos entendidos em automóveis, de hemorróidas. A razão desse apelido seria que, segundo diziam as más línguas, quem tinha o jipe hemorróidas, digo, Carajás, tinha vergonha de dizer que tinha...
Por
causa desse jipe é que veio a inspiração para o nome da fazenda:
Fazenda
Carajás.
Essa aquisição da fazenda
deu-se nos anos 1990 e até hoje integra o patrimônio da família
Araujo (“integra o patrimônio” é uma forma romântica de
referir-se a ela, pois nunca vimos um tostão de lucro por produzido
ali).
Então, aquela ideia sobre a
“riqueza” dos fazendeiros era mesmo uma falácia. Tecnicamente,
sou fazendeiro... grana que é bom...
Mas vamos ao causo
propriamente dito. Há um rio maravillhoso que corta as terras da
fazenda, o rio Santa
Cruz. É um rio
típico da amazônia, de águas límpidas e muito piscoso. Antes que
alguém comece a dar tratos à bola tentando imaginar como é um rio
que “pisca”, esclareço que o termo significa que lá há muitos
peixes.
Devido aos seus conhecimentos
agronômicos, quem passa mais tempo na Fazenda Carajás é o mano
Paulo.
Pois aconteceu que, no
anoitecer de um belo dia, ele juntou suas tralhas
de pesca e
aboletou-se às margens do rio Santa
Cruz para tentar
pescar o jantar.
Já bem escuro, ocorreu algo
assustador, fantasmagórico mesmo. Primeiramente, era um som quase
inaudível, mas que se repetia de tempo em tempo.
O Paulo apurou os ouvidos e
ficou imóvel, escutando.
Estupefato, ele verificou que,
da margem do rio, logo abaixo de onde ele estava, ouvia-se uma voz
humana, que cantava:
- Maringá, Maringá, depois que tu partiste...
A
seguir, o som parava, para logo depois voltar:
- Maringá, Maringá, depois que tu partiste...
Meu
irmão não é covarde, mas besta também não é e, por isso, largou
a pescaria e afastou-se do rio, conformado em comer apenas arroz com
feijão.
No
dia seguinte, pela manhã, chamou alguns amigos das redondezas,
inclusive um especializado em “rezas” (vai que é um espírito
vagante...), e foram investigar aquela cantoria inusitada.
Logo
acharam a resposta para o acontecido. Boiando nas águas do rio havia
um pedaço de um long play (os antigos discos de música, também
chamados de vinil).
A
cada vez que as águas da correnteza se movimentavam, o pedaço de
long play se movia para debaixo de um galho de limoeiro. Quando isso
acontecia, o espinho do limoeiro fazia as vezes de agulha de toca
disco e, atritando-se com o pedaço de disco, pegava exatamente
aquele trecho Maringá,
Maringá, depois que tu partiste.
Impressionante,
não? O blog informa que a canção, cuja letra segue abaixo, foi
obra do médico e compositor Joubert de Carvalho.
Foi
solicitado a Joubert de Carvalho uma música que retratasse o drama
das secas nas cidades paraibanas de Ingá,
Pombal e Areia.
A
letra da bela música fala de uma moça chamada Maria, da cidade de
Ingá. Partindo-se de Maria do Ingá chegou-se rapidamente à
corruptela Maringá,
que deu nome à cidade natal do autor do blog e sua moradia atual.
Abaixo,
a letra da música:
Foi
numa leva que a cabocla Maringá
Ficou sendo a retirante que mais dava o que falar
E junto dela veio alguém que suplicou
Pra que nunca se esquecesse de um caboclo que ficou
Maringá, Maringá
Ficou sendo a retirante que mais dava o que falar
E junto dela veio alguém que suplicou
Pra que nunca se esquecesse de um caboclo que ficou
Maringá, Maringá
Depois que tu
partiste
Tudo aqui ficou tão triste
Que eu garrei a imaginar
Maringá, Maringá
Tudo aqui ficou tão triste
Que eu garrei a imaginar
Maringá, Maringá
Para
haver felicidade
É
preciso que a saudade
Vá bater noutro lugar
Maringá, Maringá
Volta aqui pro meu sertão
Pra de novo o coração
De um caboclo assossegar
Antigamente uma alegria sem igual
Dominava aquela gente da cidade de Pombal
Mas veio a seca, toda água foi embora
Só restando então a mágoa
Do caboclo quando chora
Vá bater noutro lugar
Maringá, Maringá
Volta aqui pro meu sertão
Pra de novo o coração
De um caboclo assossegar
Antigamente uma alegria sem igual
Dominava aquela gente da cidade de Pombal
Mas veio a seca, toda água foi embora
Só restando então a mágoa
Do caboclo quando chora