sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Tô fora dessa de nervosismo!

TÔ FORA DESSA DE NERVOSISMO!



Este causo ocorreu em Espigão do Oeste, em Rondônia, cidade que, naqueles tempos, era também chamada de Espingardão do Oeste, por motivos óbvios.

Houve uma época, naquela cidade e comarca, que se matava muito. Angelo, Promotor de Justiça que lá trabalhava, dizia que ele tinha que “fazer” tantos Júris, tipo de julgamento que só ocorre quando é caso de crime de morte, ou quase-morte (quase-morte ocorre quando o matador, por incompetência ou mira ruim, não consegue matar a vítima), que ele ficava cansado.

Segundo o Ângelo, os bandidos da região resolveram não estressar o Promotor e, quando chegavam ao número de dez assassinatos, deixavam as vítimas amarradas para aguardar a chegada do próximo mês. Assim, não entupiam a Justiça e não cansavam tanto o Promotor.

Mas o causo que vou contar agora deu-se alguns anos mais tarde, quando já não era mais necessário deixar as futuras vítima de assassinato amarradas para não ultrapassar a quota mensal.

Um novo Promotor de Justiça (hoje Desembargador) viajava de ônibus para a cidade de Espigão do Oeste para trabalhar e, ao ver uma irregularidade qualquer no transporte público, manifestou seu desagrado para o motorista.

O motorista, sabendo que tratava-se do novo Promotor da cidade, fez-lhe uma pergunta inusitada:

  • O que houve, Doutor? O senhor está nervoso?

Logo após a pergunta do motorista os demais passageiros do ônibus explodiram numa gargalhada, deixando o Promotor encafifado com o fato.

Resolveu levar a coisa numa boa e, após sua chegada na cidade, contou ao pessoal do Fórum o que havia acontecido em sua viagem, bem como que não tinha entendido nada sobre o que houvera.

A explicação que lhe deram deixou-o estupefato (estupefato é ótimo).

Contaram a ele que algum tempo antes ocorrera na cidade um fato escabroso e, ao mesmo tempo, engraçado.

Um casal de moradores da cidade de Espigão do Oeste estava fazendo uma reforma em sua casa e, para isso, lá estavam alguns trabalhadores, entre pedreiros, carpinteiros e pintores.

A esposa precisou sair para ir ao centro da cidade para pagar contas e fazer algumas compras, tendo o marido ficado em casa para “cuidar” das obras.

Algum tempo depois, quando a esposa voltou para casa, para sua surpresa, flagrou uma cena dantesca!

Num dos quartos da casa, ela surpreendeu o marido sendo sodomizado por um dos trabalhadores (pelo jeito, o sujeito era multitarefas, não é?).

A pobre mulher entrou em pânico com aquela situação e chamou a Polícia, que logo veio atender a ocorrência.

O pessoal do triângulo amoroso, ou seja, o marido, a esposa e o trabalhador, foi levado à Delegacia de Polícia.

Delegado de Polícia vê e ouve cada coisa no seu trabalho, cada uma mais cabeluda que a outra, que alguns nem as contam para as outras pessoas, sob pena de ser tachado de mentiroso.

Diante daquele acontecimento esquisito – para dizer pouco -, o Delegado resolveu tomar o depoimento do marido.

Ao perguntar o porquê daquele ato sexual extemporâneo e fora da curva (não é somente no Supremo Tribunal Federal – STF -, que se usa essa expressão), o constrangido marido respondeu:

  • Sabe como é, Doutor... eu fiquei sozinho em casa e foi me dando um nervoso e aconteceu tudo isso!

Por um bom tempo naquela cidade e na região mais próxima, quando alguém via uma pessoa brava, enfurecida com alguma coisa, logo perguntava:

  • Que é isto?, rapaz, você está nervoso?

O Promotor, diga-se, aceitou a brincadeira com ele feita no ônibus e deixou de lado o assunto.

Até porque, se ficasse bravo com o que lhe acontecera, sempre haveria um gaiato para perguntar-lhe:

  • Que é isso, Doutor, o senhor está nervoso?



quinta-feira, 9 de novembro de 2017

"Trolando" o barro...

TROLANDO” O BARRO...


Nos idos de 1984 e 1985, quando fui Promotor de Justiça de Guajará-Mirim, o isolamento era um fato. Trezentos e vinte quilômetros nos separavam de Porto Velho, a capital do Estado.

Hoje em dia são os mesmos 320 kms de um asfalto cheio de buracos, tornando difícil e demorada uma visita à Pérola do Mamoré, codinome altamente merecido.

Naqueles tempos, não havia asfalto. Logo, tínhamos que vencer 320 quilômetros de barro e areião, o que nem sempre era possível.

Como o período chuvoso amazônico dura seis meses, a cidade e seus habitantes tinham que dar seu jeito para levar a vida com dificuldades de abastecimento de alimentos e combustíveis.

Dentre os combustíveis, estava o gás de cozinha. Para que os modernos tenham uma ideia, minha casa tinha seis botijões de gás para vencer o período das chuvas, e isso porque durante um mês e meio eu estava em gozo de férias.

As pessoas mais humildes recorriam ao carvão, à lenha, etc. Vida dura.

Mas ocorreu que minha mãe foi visitar-me na minha comarca (tenho um carinho muito grande por Guajará-Mirim e, sempre que posso, faço pelo menos uma visita anual à cidade e aos amigos de lá).

Ao final da visita, minha mãe precisava ir a Porto Velho, onde embarcaria no avião para a viagem de volta. Como eu dispunha de tempo e precisava ver algumas coisas na Capital, resolvi levá-la de carro, levando também minha família, mulher e filhos.

Grifei um trecho aí acima para ressaltar que essa não foi uma decisão inteligente: meu carro era um Monza, ou seja, um automóvel de passeio.

Os primeiros cem quilômetros foram uma beleza! Tudo ia bem. Mas...

Não mais que de repente, o motor do carro pára de funcionar. Eu entendo de mecânica tanto quanto entendo da aerodinâmica dos helicópteros e de energia nuclear.

Como consequência, eu abri a tampa do motor e fiquei ali, na beira da estrada com aquela cara de “pois é”.

Por sorte, parou um sujeito para ajudar e, olhando o motor, deu o diagnóstico: a bobina estava esquentando – coisa que fazia o motor parar de funcionar -, e a solução seria trocá-la, coisa obviamente impossível de fazer naquele fim de mundo.

Em seguida, vejo um ônibus seguindo para Porto Velho e rapidamente tomo a decisão de pará-lo e embarcar mãe e família nele para seguirem viagem.

Fiquei sozinho na estrada, com um carro avariado (sonho dos traficantes que coloquei na cadeia, mas nenhum aproveitou...). O jeito era seguir viagem do seguinte jeito: bobina esfria, motor funciona e pé na estrada; bobina esquenta, encosta na beira da estrada e espera esfriar.

A cidade mais próxima era Abunã, um lugarejo ao qual cheguei no começo da noitinha. Fui à Delegacia de Polícia e narrei meu problema para um policial. Ele disse-me que lá não havia venda de autopeças e sugeriu-me dar uma olhada nos carros apreendidos.

No pátio da Delegacia encontrei um jipe velho, mas com bobina! Tirei a bobina do jipe e coloquei no meu Monza. Funcionou!

Mas o problema ainda não estava resolvido, pois faltavam ainda mais de 200 quilômetros de barro até Porto Velho.

Para sorte minha, o policial perguntou-me se eu poderia levar três outros policiais até a Capital e eu, rapidamente, com péssima motivação, concordei.

A péssima motivação era o fato de que eu teria, caso encalhasse no barro, três caronas para pisar no barro e empurrar o carro.

Seguimos viagem. O barro, embora muito, não me levou ao encalhe, já que antes de ser Promotor de Justiça eu fora vendedor viajante, acostumado a viajar em estradas sem asfalto.

Contudo, volta e meia o motor ficava superaquecido e eu tinha que parar. Descobrimos que o motivo do superaquecimento era que o barro, subindo pelo motor, paralisava a hélice do radiador.

Então, quando isso acontecia – e aconteceu várias vezes! - um dos policiais se ajoelhava no barro e na lama para retirar, com as mãos, o material que impedia a hélice de funcionar e resfriar o motor.

Para aqueles que não gostam muito de ler, informo que o causo está chegando ao fim.

Por fim, chegamos a Porto Velho, deixei os policiais na Central de Polícia e, para minha surpresa, constatei que a viagem tinha durado 24, vinte e quatro longuíssimas horas!

E não dava nem para reclamar do Governador do Estado de Rondônia, porque, ao contrário dos políticos de hoje em dia, Jorge Teixeira de Oliveira era um homem honesto, com um Estado recém-criado nas mãos.

Achei de bom alvitre registrar esse tipo de dificuldade que tivemos nos anos iniciais de Rondônia para que as pessoas tenham uma ideia do enorme progresso que aquela terra já fez.



quarta-feira, 9 de agosto de 2017

O novo versus o moderno

O NOVO VERSUS O MODERNO



Hoje, o seu telefone celular aciona o despertador e, ao acordar, você verifica se está chovendo, como está a temperatura lá fora, confere as mensagens dos amigos e pode, até, telefonar. Tudo isso antes de sair da cama.

Tem uns tais de aplicativos nos celulares, cuja amplidão ainda não tenho nem uma vaga ideia, mas que são simplesmente maravilhosos. Você pode chamar um táxi (ou Uber), pedir um lanche, ver sua conta no banco, etc.

Eu sou do tempo em que este tipo de modernidades era simplesmente aventado nuns gibis como o do Flash Gordon (os mais jovens pesquisem no Google, tanto a expressão gibis quanto o Flash Gordon). Conversar com um amigo com imagens em tempo real no celular? Naquela época, quando eu era mais jovem, isso era coisa da imaginação, nunca aconteceria.

Pois está acontecendo. Nos meus augúrios para o futuro, já não descarto nada, nenhuma novidade tecnológica. Sabem aquele raio que desmaterializa uma pessoa num local e o materializa num outro, num instantinho?

Esse tipo de raio é a minha esperança para o futuro. Já pensou se você quisesse visitar um amigo num outro estado, num outro país? O sujeito aperta o botão no teletransportador e zap, você já está lá.

É lógico que uma máquina dessas teria que ter um antivírus poderoso... E se algo dá errado e você é teletransportado para dentro do banheiro do seu amigo, naquele exato momento em que ele está fazendo o número dois??

Ou, pior, se no momento do raio zap existe perto de você uma minhoca, uma barata, ou coisa parecida?

Você poderia ser transformado num honhoca, num horata...

A única possibilidade que não traria surpresas seria se dentro do teletransportador, junto com você, estivesse uma ratazana: você seria transformado um político brasileiro.

Pensemos no seguinte problema: você deseja ir para uma praia paradisíaca numa ilha do oceano Pacífico, entra na máquina do zap e ele lhe manda para a Coreia do Norte, no momento em que o maluquinho do Kim Jon-Un está disparando mais um dos seus mísseis?

Mas eu quero é falar dos tempos em que uma ligação telefônica tinha que ser solicitada pela manhã e, depois de passar por diversas telefonistas, era completada no final da tarde.

Sucesso? Não, se a pessoa com quem você queria falar tivesse saído:

  • Ah, o fulano saiu um momentinho. Você pode ligar daqui a dez minutos?
Isso, convenhamos, era o paraíso para devedores relapsos, para telefonemas do pai de sua noiva... bem as situações favoráveis ao recebedor da ligação são inúmeras.

Diante de tudo o que se faz hoje com um celular na mão, tipo ver sua conta no banco, pagar contas, mandar baboseiras pelo Whatsapp e muito mais, fico preocupado com algumas previsões futurísticas.

Dia desses li um sujeito que afirmou que, em dez anos (portanto, lá por 2027) o celular será coisa do passado, ninguém mais terá um deles.

Se a previsão é boa para quem detesta ter que se desviar, quando anda nas calçadas das cidades, dos idiotas que andam falando e digitando no celular, não dá nem para ter ideia do que virá no lugar dele, o tal de smartphone.

Que formato terá? Será feito de matéria? Um chip no seu cérebro? Uma parte de sua roupa?

Não dá para, sequer, imaginar. Mas se alguém, nos anos 70 ou 80 do século passado, nos falasse do celular, acreditaríamos?

Minha única esperança, nessas dúvidas todas, é que, usufruindo das maravilhosas tecnologias em 2027, alguém leia meu blog e, ao deparar com este texto, suspire, com enfado:

  • Que idiota!!




domingo, 25 de junho de 2017

A foto nunca vista

A FOTO NUNCA VISTA



Para os tempos modernos, as fotografias que tirávamos no passado parecem coisa de outro mundo, coisas que hoje parecem muito difíceis de fazer.

Para as máquinas fotográficas de anos atrás, você precisava ter o filme, cujo tamanho variava. Eles podiam ser para doze, vinte e quatro e trinta e seis fotografias. Podiam, também, ser em preto e branco ou coloridas.

Você era obrigado a clicar para “tirar” as fotos e somente iria saber se haviam ficado boas quando todas as fotos do filme eram utilizadas e enviadas para um laboratório para serem “reveladas”.

Somente então você iria saber que você tinha “cortado” a cabeça de sua tia, se sua irmã tinha saído de olhos fechados, etc.

Olhando para trás, vemos que era uma verdadeira ginástica o ato de fotografar. Hoje, sequer precisamos de uma máquina fotográfica, pois fazemos fotos usando tablets, celulares e, até, máquinas fotográficas...

Pois o “causo” que eu vou contar deu-se nos tempos ainda heroicos da fotografia, pois aconteceu em 1983.

Eu, recém-empossado como Promotor de Justiça, cheguei à cidade de Guajará-Mirim, onde ajudaria o titular daquela Comarca a fazer alguns júris. Meu colega chamava-se, também, Osmar, dado importante no desfecho deste “causo”.

Naquele finalzinho da ditadura militar, a grana era escassa e, para economizar, hospedei-me na casa do outro Promotor de Justiça.

Também no intuito de economizar o parco dinheirinho, pedi licença à dona da casa, esposa do outro Osmar, para usar o seu tanque de lavar roupas. Eu pretendia, e realmente o fiz (para espanto daqueles que me acham, com razão, uma nulidade nas artes domésticas), lavar as minhas cuecas, pelo menos elas...

Uma tarde qualquer eu peguei as ditas cujas (as cuecas) e, brioso como o exército alemão invadindo a Rússia, dirigi-me ao tanque de lavar roupas e comecei a praticar o branqueamento cuecal.

Meu colega, o dono da casa, tinhoso como todo Promotor de Justiça (concordarão com isso todos os alcançados hoje pelas investigações da Lava Jato), ao notar minha atividade laboral, sorrateiramente pegou sua máquina fotográfica e ...

… fotografou minha higienização das roupas íntimas, para usar uma linguagem mais adequada ao histórico cultural deste blog.

Aquele gesto de traição suprema dos princípios gerais estatuídos na Declaração Universal dos Direitos dos Homens, fruto maior da Revolução Francesa de 1789, eu considero até hoje um ato tresloucado daquele amigo que, se não se chamasse também Osmar, estaria inscrito nos anais da Infâmia.

Mas os tempos antigos tinham suas vantagens. Eu explico.

Alguns dias depois, estava eu no Fórum trabalhando sozinho (meu colega e homônimo estava na casa dele, palco do fato criminoso aqui relatado). Chegou um funcionário do Fórum e disse-me que alguém estava na porta procurando pelo “doutor Osmar”.

Logo pensei:

  • Não é comigo, pois aqui na cidade ninguém me conhece, deve estar procurando pelo meu colega.

Mas o destino trama contra os criminosos. O funcionário acrescentou que era o sujeito do “Foto”, que era o lugar onde se mandava “revelar” as fotos.

Meu cérebro não-menos-criminoso logo ligou as fotos com a foto que me flagrara lavando as cuecas.

Imediatamente mandei o sujeito entrar e o atendi. Expliquei que eu entregaria as fotos ao “Doutor Osmar” verdadeiro e que pagaria o custo da “revelação”.

Crime perfeito! Fotos entregues à vítima!

Logo localizei a foto que me mostrava em plena atividade na lavanderia (como hoje se chama o tanque de lavar roupas).

Para completa extirpação das provas, verifiquei os “negativos” do filme e, com uma tesoura, cortei o pedaço que poderia ser usado em outra revelação e para divulgação dos meus pendores lavatoriais.

Em minha defesa, acho que o tal de Pôncio Pilatos, que lavou apenas as mãos, é acusado de crime maior, não é?

Este “causo” vai servir para o meu bom amigo, o também Osmar, descobrir como “desapareceu” aquela foto, algo que sempre o assombrou.

Devo esclarecer que tive como parceiro, como co-autor, neste contra crime, o melhor amigo e o baita Juizaço Cássio, hoje fazendo das suas em outro plano, para onde iremos todos nós.

Finalizo dizendo que o que é antigo nem sempre é somente velho, pois enfeita a memória daqueles que viveram e revivem o que lhes aconteceu de bom.



quinta-feira, 15 de junho de 2017

O tempo passa, mas...

O TEMPO PASSA, MAS...


Contrariando minha política de jamais citar nomes neste blog, vou fazer isso (contrariá-la) porque o objetivo destes escritos é preservar a memória dos primeiros anos do Ministério Público de Rondônia.

E quem os viveu não pode esquecer o nome de Getúlio Nicolau Santore. Eu encontrei essa figuraça na sua primeira comarca, Colorado do Oeste (sul de Rondônia), quando estava eu a caminho da minha primeira comarca, Cerejeiras.

A viagem, saindo de Vilhena numa viatura da Polícia Federal, não foi porque eu estava preso – sina inapelável de muitos de nossos luminares da política -, e sim por uma deferência do Delegado da PF daquela cidade.

A opção, viajar de ônibus, era uma incerteza total, dado o estado barrento dos 120 quilômetros que separam as duas cidades. Assim, como o Delegado e os agentes da Polícia Federal tinham que cumprir algumas diligências em Cerejeiras, ofereceram-me carona numa camionete Chevrolet adequada para estradas de terra em tempos de chuva.

Isso ficou evidente quando a camionete da PF cedeu à natureza: atolou em meio ao barro e ficamos cercados por enormes poças d'água.

Por sorte, logo apareceu um jipe Toyota de um banco (lembram-se do Bamerindus?) que nos tirou, facilmente, do atoleiro, provando que a tecnologia automobilística dos japoneses era superior à nossa até mesmo no inverno amazônico.

Depois de 80 quilômetros, chegamos a Colorado do Oeste. Fomos direto ao Fórum, onde procurei o Promotor de Justiça Getúlio Nicolau Santore (que eu não conhecia). Apresentei-me.

Ele, olhar desconfiado, mandou-me sentar e disse que somente sairíamos em direção a Cerejeiras após o almoço, que seria em sua casa.

Para meu espanto, disse-me para ficar longe do bar de sua casa, pois havia ouvido calúnias (verdadeiras, diga-se) sobre a minha intimidade com o uísque.

Diante do meu pasmo, avisou-me que já fora informado de minha expertise por um outro Promotor de Justiça que merece ter sua história contada, o Luiz Eduardo Custódio, que era o titular da comarca de Vilhena.

Logo fomos para a casa do Getúlio, pois, embora saindo de Vilhena às sete horas da manhã, levamos quase cinco horas para vencer os primeiros 80 quilômetros de trilha, pois outro nome não se podia dar às estradas de então.

Na casa dele, pude conhecer outra figura maravilhosa, a sua esposa Ana que, embora nunca tivesse me visto, pelo simples fato de ser colega de trabalho do marido, tratou-me com uma atenção e carinhos que só podiam ser encontrados na Rondônia de antanho (1983).

Getúlio, para nosso almoço, foi ao freezer e tirou um pedaço de costela de boi congelada. Eu, com meus botões, pensei esse almoço vai sair é nunca!.

Nunca entendi como ele fez aquilo, mas pouco mais de meia hora depois Getúlio e Ana serviram um belo almoço, com uma mais bela ainda costela assada.

Depois dessa recepção, e já trabalhando na comarca de Cerejeiras, iniciei uma longa amizade com Getúlio e Ana.

Como Cerejeiras somente tinha energia elétrica das 17:00 horas à meia-noite e apenas um posto telefônico com filas homéricas (não sei o que têm a ver com filas o grego Homero e a Ilíada...), quando dava tempo e o barro permitia, eu os visitava em Colorado do Oeste para filar boia e curtir um pouco a civilização moderna, com luz nas 24 horas do dia e telefone à disposição.

Getúlio, Ana e Luiz Custódio não estão mais entre nós, mas suas vidas e trabalho em Rondônia deixaram marcas nas vidas dos que os conheceram.

Fica aqui minha singela homenagem.



sábado, 10 de junho de 2017

A Boca Maldita!

A BOCA MALDITA!


Dizem que tudo tem um início. Há quem pense que o início da história do Mundo aconteceu quando, depois de criar a terra, os rios, os mares, os animais e um amontado de coisas mais (algumas das quais não vale a pena lembrar, como a criação dos pernilongos, baratas e ratos...), Deus teria posto Adão e Eva no Éden.

Mas os arquelogistas, que fuçam tudo que está enterrado na terra e no passado, dizem – e provam! - que antes de dar início à humanidade Deus teria brincado um pouco, criando alguns tipos esquisitos de animais (protótipos de políticos brasileiros?), ferozes e vorazes, que nós hoje chamamos de dinossauros.

Pelo jeito, Deus não gostou desses animaizinhos, pois deu uma pedrada na Terra (ou seria uma meteorada?) e acabou com eles todos. Provalmente, junto com os dinossauros, foram criados os pernilongos e baratas.

Assim, se uma pedrada celestial não acabou com eles, isso explica a ineficiência perdulária dos atuais inseticidas...

Falando em perdulário, GetúlioVargas criou, em 1932, um tal de TSE (Tribunal Sujeito a Especulações), o que marca o início do fim.

Mas eu quero falar é de outra coisa.

Nos anos 1985, 1986, o Ministério Público de Rondônia era uma Instituição jovem, levada avante por jovens, tanto na idade quanto na carreira de Promotores de Justiça.

Naquela época, anterior ao atual status constitucional que o Ministério Público tem hoje, tudo era luta, tudo era novidade, tudo era troca de experiências.

Nossa sede era num precário prédio situdo na avenida principal de Porto Velho onde, no térreo, num longo corredor, ficavam os gabinetes dos Promotores, lado a lado.

Assim, na movimentação de chegada e saída do trabalho, bem como nas saídas para audiências judiciais, todos nos víamos constantemente, diferentemente de hoje, quando cada um fica só em seu ambiente de trabalho.

Nesse encontro diário, nós fazíamos o que todo jovem faz, ou seja, conversávamos sobre o trabalho, família, adversidades e felicidades da vida e, até, mal uns dos outros.

A personalidade de cada Promotor de Justiça, nesses encontros e conversas, ficava evidenciada para os demais, fato que colocava o necessário “tempero” nas amizades entre nós.

Essa intimidade gerava o conhecimento mútuo das qualidades, dos defeitos e esquisitices de cada qual.

Sabíamos, então, quase tudo da vida e das ações dos colegas de trabalho e de luta.

Esse conhecimento gera, não raro, entre amigos, “gozações” e “zoações” que se eternizam no tempo e na memória deles, cimentando para sempre as amizades forjadas nos tempos difíceis.

Ali, nessas conversas, nasceram, entre outros, apelidos como Doutor Cataploft e Doutor Urtigão, bem como outros que não cabe agora citar.

Assim, cada ajuntamento de Promotores de Justiça naquele corredor do prédio antigo acabou, por sua vez, ganhando um apelido: Boca Maldita.

A Boca Maldita funcionava diariamente, e o que se falava ficava registrado, não tendo a validade etérea que têm algumas provas em processos eleitorais de tribunais ainda mais etéreos.

Como toda coisa viva (sim, a Boca Maldita pode ser chamada de coisa, pois, se ente vivo não era, era muito dinâmica.

Por isso, ela ganhou variações em seu nome, como por exemplo pantano (assim mesmo, sem o acento circunflexo da palavra original, pântano).

Mas essas reminiscências dos velhos tempos de lutas em Rondônia tem uma única finalidade, ou seja, afirmar que a AMPRO (Associação do Ministério Público de Rondônia), hoje uma entidade de classe que brilha País afora, teve na Boca Maldita uma força agregadora que viajou no tempo até os dias de agora.

Esse era um registro histórico que, apesar da minha falta de talento na arte de escrever, eu precisava fazer.




sexta-feira, 9 de junho de 2017

O Brasil por água abaixo

O BRASIL POR ÁGUA ABAIXO



Estamos vendo o Brasil, chamado antigamente pelos ingênuos de País do Futuro, ser transformado, por todas as correntes políticas (direita, esquerda e centro, mas pode me chamar de muro), em País do Faturo.

Quando adolescente, eu já ouvia críticas ao modo brasileiro de ser dizendo que, se a Máfia italiana (ou também da Sicília ou da Calábria) viesse para o Brasil, seria logo transformada em bagunça, rapidamente avacalhada pelos nossos ladrões totalmente amorais.

Parece uma bobagem falar sobre “ladrões amorais”, mas os nossos ladrões não respeitam nem os outros ladrões...

A bandidagem comum (traficantes, ladrões, assassinos, etc) parece ter perdido todos os limites da violência, matando indiscriminadamente as vítimas (os carneiros que, com seu suado trabalho, ganham o que deles será roubado), os policiais (sinal de perda do medo do Estado) e os bandidos de facções rivais.

Assim, a bala que sai da arma de um bandido “animado” pelo uso de drogas, nesses confrontos pelo controle de áreas das cidades (cercadinhos para os carneiros que serão tosquiados e os viciados que lhes compram as drogas), nada tem de perdida: será “achada” por um transeunte qualquer, seja um trabalhador, seja uma criança a caminho da escola.

O sentimento que se alastra em nosso País, e isso eu constato nas conversas com diversas pessoas, é o da vontade de sair do Brasil em definitivo. O brasileiro, que “não desiste nunca”, desistiu de ser cidadão da sua terra natal.

Para onde fugir dessa situação? O único modo de “consertarmos” o Brasil seria através de atuação de autoridades dignas, responsáveis, decentes.

Essa matéria-prima existe, mas não consegue infiltrar-se nos meios dominantes, seja na Política (só se elegem os que são acordes com a imoralidade reinante), seja no Judiciário (só chegam aos altos cargos, com raríssimas exceções, aqueles que bajulam o Poder.

O maior exemplo disso está no nosso Supremo Tribunal Federal. Aqueles que dele almejam ser Ministros, tem que passar por humilhantes rapapés e visitas aos gabinetes dos que estão no Poder, sem levar em consideração a estatura moral dos visitados.

Pode-se negar esse fato (e os “impolutos” negarão), mas todos sabemos que é a nossa triste realidade.

Escrevo esse texto, neste particular, sob a influência da humilhante experiência dos brasileiros a que nos sujeita nesses dias o Tribunal Superior Eleitoral, quando do julgamento da roubada eleição da dupla Dilma-Temer.

Onde enxergar-se a saída desse túnel desprovido de luz em que estamos se, na propaganda eleitoral gratuita (que a legislação aprovada pelos “impolutos” nos impõe) vemos que os supostos partidos de oposição chamam os cidadãos brasileiros para suas hostes dizendo que, neles, a chance de eleger com poucos votos é maior??

E o tal de futuro? Isso, para mim, fica absolutamente claro que não existe quando vejo que uma manifestação no centro de Maringá, promovida por membros da Universidade local, que deveria expor ao povo sua insatisfação com os rumos da Educação no País, e limitam-se a gritar slogans como “Fora Fulano, fora governador”.

Gostaria muito de poder dizer que esse descalabro brasileiro seria culpa de um determinado partido político, de um líder nacional, mas não posso.

Os religiosos costumam fiar-se em Deus e na salvação geral. Mas fazem isso filiados a igrejas que, não raro, exploram economicamente os fieis, dando ensejo à eleição de partidários seus (ungidos divinamente?), que se somam à bandalheira imperante.

A lama é geral.

Pobre Brasil.