domingo, 25 de junho de 2017

A foto nunca vista

A FOTO NUNCA VISTA



Para os tempos modernos, as fotografias que tirávamos no passado parecem coisa de outro mundo, coisas que hoje parecem muito difíceis de fazer.

Para as máquinas fotográficas de anos atrás, você precisava ter o filme, cujo tamanho variava. Eles podiam ser para doze, vinte e quatro e trinta e seis fotografias. Podiam, também, ser em preto e branco ou coloridas.

Você era obrigado a clicar para “tirar” as fotos e somente iria saber se haviam ficado boas quando todas as fotos do filme eram utilizadas e enviadas para um laboratório para serem “reveladas”.

Somente então você iria saber que você tinha “cortado” a cabeça de sua tia, se sua irmã tinha saído de olhos fechados, etc.

Olhando para trás, vemos que era uma verdadeira ginástica o ato de fotografar. Hoje, sequer precisamos de uma máquina fotográfica, pois fazemos fotos usando tablets, celulares e, até, máquinas fotográficas...

Pois o “causo” que eu vou contar deu-se nos tempos ainda heroicos da fotografia, pois aconteceu em 1983.

Eu, recém-empossado como Promotor de Justiça, cheguei à cidade de Guajará-Mirim, onde ajudaria o titular daquela Comarca a fazer alguns júris. Meu colega chamava-se, também, Osmar, dado importante no desfecho deste “causo”.

Naquele finalzinho da ditadura militar, a grana era escassa e, para economizar, hospedei-me na casa do outro Promotor de Justiça.

Também no intuito de economizar o parco dinheirinho, pedi licença à dona da casa, esposa do outro Osmar, para usar o seu tanque de lavar roupas. Eu pretendia, e realmente o fiz (para espanto daqueles que me acham, com razão, uma nulidade nas artes domésticas), lavar as minhas cuecas, pelo menos elas...

Uma tarde qualquer eu peguei as ditas cujas (as cuecas) e, brioso como o exército alemão invadindo a Rússia, dirigi-me ao tanque de lavar roupas e comecei a praticar o branqueamento cuecal.

Meu colega, o dono da casa, tinhoso como todo Promotor de Justiça (concordarão com isso todos os alcançados hoje pelas investigações da Lava Jato), ao notar minha atividade laboral, sorrateiramente pegou sua máquina fotográfica e ...

… fotografou minha higienização das roupas íntimas, para usar uma linguagem mais adequada ao histórico cultural deste blog.

Aquele gesto de traição suprema dos princípios gerais estatuídos na Declaração Universal dos Direitos dos Homens, fruto maior da Revolução Francesa de 1789, eu considero até hoje um ato tresloucado daquele amigo que, se não se chamasse também Osmar, estaria inscrito nos anais da Infâmia.

Mas os tempos antigos tinham suas vantagens. Eu explico.

Alguns dias depois, estava eu no Fórum trabalhando sozinho (meu colega e homônimo estava na casa dele, palco do fato criminoso aqui relatado). Chegou um funcionário do Fórum e disse-me que alguém estava na porta procurando pelo “doutor Osmar”.

Logo pensei:

  • Não é comigo, pois aqui na cidade ninguém me conhece, deve estar procurando pelo meu colega.

Mas o destino trama contra os criminosos. O funcionário acrescentou que era o sujeito do “Foto”, que era o lugar onde se mandava “revelar” as fotos.

Meu cérebro não-menos-criminoso logo ligou as fotos com a foto que me flagrara lavando as cuecas.

Imediatamente mandei o sujeito entrar e o atendi. Expliquei que eu entregaria as fotos ao “Doutor Osmar” verdadeiro e que pagaria o custo da “revelação”.

Crime perfeito! Fotos entregues à vítima!

Logo localizei a foto que me mostrava em plena atividade na lavanderia (como hoje se chama o tanque de lavar roupas).

Para completa extirpação das provas, verifiquei os “negativos” do filme e, com uma tesoura, cortei o pedaço que poderia ser usado em outra revelação e para divulgação dos meus pendores lavatoriais.

Em minha defesa, acho que o tal de Pôncio Pilatos, que lavou apenas as mãos, é acusado de crime maior, não é?

Este “causo” vai servir para o meu bom amigo, o também Osmar, descobrir como “desapareceu” aquela foto, algo que sempre o assombrou.

Devo esclarecer que tive como parceiro, como co-autor, neste contra crime, o melhor amigo e o baita Juizaço Cássio, hoje fazendo das suas em outro plano, para onde iremos todos nós.

Finalizo dizendo que o que é antigo nem sempre é somente velho, pois enfeita a memória daqueles que viveram e revivem o que lhes aconteceu de bom.



5 comentários:

  1. Excelente e hilário texto, como sempre, caro mano. Parabéns mais uma vez. Abraço do mano Osvaldo.

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  2. Fez falta a dita cuja no final do conto. Estávamos esperando por ela, a foto.

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  3. Penso como meu querido tio Araújo ( in memorian), reagiria ao ver uma foto dessas e como renderia comentarios com risadas que só ele dava . Valeu Osmar !

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  4. Concordo com a Pat. Ficaria super bem explicado o fato. Bão pra você.
    Deli.

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  5. ZELÃO,o Galeguim duzoi azul vai te comer o fígado... kkkkkkk Beijão.

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