quinta-feira, 24 de outubro de 2013

São invencionices?

SÃO INVENCIONICES?


Dia desses, encontrei uma amiga, aqui de Maringá, e ela fez-me uma pergunta sobre este blog. Ela queria saber se os meus “causos” ocorreram na realidade, ou se eu jogava dentro deles um pouco de ficção, para dar sabor às coisas acontecidas comigo no meu tempo de Rondônia.

Outro amigo questionou-me sobre a supostamente decantada coragem, que teria sido narrada nos “causos”. Este último apontou especificamente o “causo” intitulado “Um bandido às antigas”, questionando minha visita ao presídio prestes a entrar em rebelião.

Respondi negativamente aos dois amigos, mas não vi nenhuma má-fé por parte dos dois, e sei o que os motivou: ambos não conhecem Rondônia, e não a conheceram nos seus tempos pós-criação do novo Estado.

Ao longo desse texto, vou citar algumas situações típicas daqueles tempos, quando pioneiros do Ministério Público (Promotores e Procuradores de Justiça) e do Poder Judiciário (Juízes e Desembargadores), vindos das mais diversas partes do País, tomaram a si a tarefa de transformar aquela terra praticamente sem lei num Estado Federativo organizado.

Naqueles tempos, não havia tempo e nem condições materiais de se preparar os que passaram nos concursos relativos à Justiça (Ministério Público e Poder Judiciário) para o que eles encontrariam.

A maior parte deles recebeu uma carteira vermelha, com um brasão da República, tornando-os autoridades, sendo depois despachados para as respectivas comarcas. Muitos, na população, não sabiam bem o que eles eram e como deviam tratá-los.

Quanto à minha propalada (propalada é uma palavra horrível...) coragem, digo que foram poucas as vezes em que esta apareceu – como no “causo” citado acima -, e eu sempre digo que esse destemor era mais fruto do atrevimento da minha juventude.

Acho que em alguns “causos” propalei (vamos propalar, gente...) minha falta de coragem frente a acontecimentos fantasmagóricos, bem como minha absoluta incompetência no manejo de armas de fogo.

Como dificilmente haveria bandidos com a largura de dois elefantes abraçados, muito mais dificultosamente eu teria êxito me defendendo, a tiros, de um agressor.

Mas vamos a algumas situações que passei em Rondônia, como Promotor de Justiça no interior, e que dão uma boa ideia do que acontecia por lá no início da década de 1980.

Em fins de 1983, eu estava na comarca de Costa Marques, com a carteira de Promotor, o terno e a gravata estalando de novos, sentado em meu gabinete.

Anunciaram-me que um casal queria falar comigo, ou seja, com o Promotor. Mandei que os fizessem entrar.

Era um casal de índios, parcamente vestidos ele e ela, sendo que a mulher trazia ao colo um bebê-índio recém-nascido.

Não me lembro do assunto tratado (será uma visita daquele velho alemão, o Alzheimer?), mas ficou-me gravado na memória o cheio indescritível que exalavam. Deixemos de eufemismo: eles fediam, e fediam muito.

Lembro-me de olhar para aquele casal que, parecia, nunca vira um banho bem tomado, e que o bebê estava a mamar nos bicos dos seios da mãe índia.

Fiquei com mais pena do bebê do que de mim mesmo. Afinal, não devemos lavar as mãos (sem trocadilho com mães, por favor), talheres e pratos antes de comer?

Finalizada a sofrida (para mim) audiência com o Promotor, o casal saiu. Eu voei da cadeira onde estava sentado para abrir com violência as janelas da Promotoria.

Naquele dia louvei a inteligência e a argúcia do Promotor que me antecedera na comarca, pois achei um inusitado spray de aerosol, daqueles que perfumam o ar. Êta sujeito esperto e previdente!!

Continuemos com minhas peripécias, ainda tentando mostrar aos eventuais leitores as dificuldades pelas quais passávamos e porque alguns “causos” parecem muito estranhos.

Minha comarca seguinte, da qual eu seria o primeiro Promotor de Justiça, Cerejeiras (façam fila os historiadores, por favor), tinha uma Promotoria, como se diz hoje, virtual.

Não havia nada ali que lembrasse, ainda que remotamente, um órgão público para o Promotor trabalhar. Os móveis a serem utilizados numa inexistente sala do Promotor tinham sido despachados da capital, Porto Velho, e ainda estavam na estrada.

Aliás, a estrada era tão ruim (mais de 800 kms de buracos, barro e poeira) que os tais móveis, quando chegaram, chegaram completamente quebrados, inutilizáveis.

A saída foi eu procurar o mandatário que fazia as vezes de Prefeito, pois este seria eleito apenas na próxima e distante eleição.

Consegui dele uma escrivaninha e uma cadeira bem precárias, uma caixa de papel sulfite, uma caixa de papel carbono e uma máquina de escrever Remington Rand.

Com exceção do papel sulfite, recomendo aos leitores mais novos que pesquisem no Google o que eram as outras coisas.

Por incrível que pareça (e aqui vai um auto-elogio), consegui fazer tudo funcionar muito bem, inaugurando a nova comarca na base do vai ou racha.

A energia elétrica era um problemão, já que fornecida apenas em parte da tarde e da noite, sendo cortada após as 23:00 horas. Mas problema mesmo era uma coisa básica, quase banal: o corte de cabelos!

Cerejeiras não tinha um babeiro digno desse nome, e eu tinha que viajar quase 120 kms no barro para cortar os cabelos na metrópole Vilhena. Imaginem perder um dia inteiro, em viagem de ida e volta, apenas para ajeitar o penteado

Vou parar por aqui para não me alongar muito no assunto. Mas vejam, naquele tempo, com tantas dificuldades, encontrava-se pessoas diferentes, corajosas, desbravadoras, muitas sem escolaridade alguma.

Mas, com exceção dos bandidos que tentaram se esconder da Justiça naquelas paragens, fugindo da punição por seus crimes cometidos em outros lugares do País, eram pessoas boníssimas, prestativas, sempre prontas para amparar os recém-chegados.

Aliás, mesmo os bandidos eram mais corretos, em sua lógica fora-da-lei, sabendo que poderiam ser punidos se pegos pela Polícia. Hoje, sabemos que não mais é assim.

Espero ter respondido a eventuais questionamentos acerca dos “causos” que contei e das pessoas de quem falei.

Talvez eu mesmo seja uma pessoa estranha, diferente, modificada pelas agruras da profissão que abracei e pelos lugares onde passei, e talvez isso fique espelhado nesses “causos” que ando contando.


Uma coisa sei: no meu entender, sou um sujeito muito melhor, sei mais da vida e do respeito devido às outras pessoas, do que antes de eu sair do Paraná e ir ajudar a fazer parte da história de Rondônia. 

Um comentário:

  1. Foi um tempo muito difícil, mas é muito bom de recordar. Leitura muito agradável. Gosto de ler esses causos. Parabéns

    Walma

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