segunda-feira, 9 de abril de 2018

PODIA TER DADO TUDO ERRADO, MAS...


PODIA TER DADO TUDO ERRADO, MAS...


Nestes dias em que se discutem os crimes imputados ao ex-presidente Lula da Silva, há os que defendem (a meu ver cegamente, ofuscados pela idolatria...) que não há provas de que Lula aproveitou-se do fato de ser Presidente da República para encher seus cofres e, por extensão, aumentar o seu patrimônio.

Há outros que, diante das evidências que o padrão de vida ostentado por Lula e sua família (padrão alto, com evidências de enriquecimento suspeito por parte de seus filhos), bem como diante das provas apresentadas pelo Ministério Público perante o Poder Judiciário, entendem que, efetivamente aquele político – dito de esquerda – acrescentou às suas posses, advindos de “presentes” dados por empreiteiras de obras públicas, “desinteressadamente”, um apartamento de cobertura na praia, um outro apartamento vizinho ao seu, um sítio espetacular de lazer na cidade de Atibaia-SP e alguns milhões de reais em sua conta bancária.

Nesse momento, discute-se se Lula já pode ser encarcerado, até porque a Justiça, em demorados julgamentos, considerou-o culpado. Isso num primeiro processo criminal! Outros estão em andamento...

Qual é a razão desse intróito, desses prolegômenos, ou, para os que detestam dicionários, desse “cerca Lourenço”?

O motivo é que eu, num passado já remoto, quase pude ser “condenado” diante de evidências que me colocariam numa situação extremamente difícil. Vamos aos fatos.

No já distante ano de 1982 eu, advogado recém-formado, resolvi candidatar-me ao cargo de Promotor de Justiça no também recém-criado Estado de Rondônia.

As provas de conhecimentos jurídicos foram aplicadas na capital brasileira, Brasília, dada a inexistente infra-estrutura na capital de Rondônia, Porto Velho, bem como a dificuldade para se chegar lá, ou seja, quase que exclusivamente por via aérea.

Tratando de viajar para Brasília para participar das provas, cuidei de levar todos os Códigos de legislação (Direito Civil, Penal, Processo Civil, Processo Penal, etc, etc.) Esses Códigos não poderiam ser do tipo comentado, ou seja, aqueles que contém anotações jurisprudenciais sobre cada artigo de lei.

Naqueles tempos de “dureza” (pode me chamar de bolsos vazios), tive que emprestar alguns desses Códigos de amigos da área do Direito.

Fui para Brasília, todo animado e esperançoso, porque tinha (e tenho ainda) muita admiração pela carreira de Promotor de Justiça do Ministério Público.

Na entrada do salão onde eram aplicadas as provas ficavam postadas as pessoas encarregadas de fiscalizar a lisura da aplicação das provas (atividade que também é conhecida como impeditiva da prática da “cola”), as quais examinavam os objetos – e os Códigos de Leis! - trazidos pelos candidatos.

Tudo tranquilo, e eu “passei” na fiscalização. Fiz as provas todas, que duraram três dias, e acabei por passar no concurso.

Essa aprovação no concurso para Promotor de Justiça definiu o futuro da minha vida – e de minha família -, pois passei por lá trinta anos, na carreira do Ministério Público de Rondônia, sendo considerado ums dos pioneiros na instalação do novíssimo Estado brasileiro.

Anos depois, ao trabalhar em casa, tive que consultar os velhos Códigos de Leis que tinha em minha estante residencial, vez que os Códigos de Leis atualizados ficavam no meu gabinete de trabalho.

Pois bem! Para minha surpresa, ao manusear o Código de Processo Penal, estranhei o seu encadernamento e pus-me a examiná-lo.

O amigo que me emprestou aquele Código (e que não o quis de volta) possuía uma “moderna” máquina de escrever, antecessora longínqua dos nossos computadores de hoje, máquina esta que reproduzia com exatidão as letras da impressão original daquele livro de Leis.

Descobri, então, que o meu amigo comparecia às provas na faculdade, enquanto cursava Direito, munido de engenhosa e bem oculta “cola”...

Assim, em vez de o “Código” conter os artigos de lei, continha em seu interior definições teóricas da matéria denominada Direito Processual Penal. Algo assim:

Artigo 540 – A tese relativa à responsabilidade penal objetiva está estabelecida nos seguintes termos e dispositivos: blá blá blá...

Esclareço, para os não-versados, que o tal artigo 540 dizia coisa completamente diferente, coisa de letra fria da lei.

Um examinador mais atento poderia ter descoberto a “cola” no tal Código, o que causaria minha vexaminosa desclassificação no concurso e cortaria, pela raiz, o futuro que vim a ter no esplêndido Estado de Rondônia.

Esse “fato” (entre aspas porque não cconteceu) até hoje faz-me pensar nas armadilhas e desvios do destino, quando um acontecimento menor gera consequências terríveis na vida das pessoas.

Eu sei que sou inocente – até porque desconhecia e não utilizei a “cola” -, mas as pessoas terão direito de não acreditar em mim. Minha consciência está e sempre esteve tranquila, e prova disso é que conto esse evento dentre os meus “causos”.

Voltando ao Lula da Silva, e falando sobre o imponderável, talvez se ele não tivesse ficado embevecido com as mordomias do poder, com os elogios moldurados por sorrisos gentis, com o luxo proporcionado por empreiteiros “desinteressados”, repito, talvez ele não estivesse tendo a sua história pessoal sendo destroçada por acusações de corrupção, lavagem de dinheiro, favorecimento ilegal aos apaniguados.

Talvez...


domingo, 8 de abril de 2018

O Brasil tem mesmo essa sina?


O BRASIL TEM MESMO ESSA SINA?



Ouvi, quando ainda era adolescente, que a Máfia, e os mafiosos, não vinham para o Brasil se estabelecer porque sabiam como era o nosso país. A criação criminosa dos italianos (e sicilianos) não resistiria à esculhambação que nos governa desde sempre.

A omertà, a lei do silêncio imposta aos que ingressavam nas hostes mafiosas, seria, no Brasil, sujeita ao famoso “jeitinho brasileiro”. Nos tempos de hoje, os segredos da Máfia logo estariam expostos no Facebook, no Twiter, Instagram e até no Whatsapp...

Bom, se até mesmo os brasileiros diziam isso, bem fizeram os mafiosos italianos de não corromperem (?) as leis seculares da Máfia, a Cosa Nostra, vindo tentar se estabelecer em terras tupiniquins.

Acho que o fato de as esquerdas internacionais, comunistas à frente, não terem observado nosso pais acuradamente, bem como o modo brasileiro de ser, foi a causa do grande erro que elas cometeram.

Todos os indicadores prenunciavam que uma esquerda brasileira teria logo transformado o comunismo, o socialismo, o cubanismo e outros ismos numa geleca incongruente que marcharia para fazer exatamente o contrário do que aquelas ideologias pregam.

Assim, a democracia seria uma coisa que impossibilitaria a exposição das ideias, quaisquer ideias, que contrariassem, mininamente, a noção socialista de igualdade, de distribuição (?) das riquezas e igualdade de oportunidades para todos.

O maior exemplo mundial dessa forma de pensar e governar teve seu início em 1917, na Rússia. Embora os russos não sejam tão relaxados (nos dois sentidos da palavra) quanto os brasileiros, mesmo assim a doutrina comunista não entregou o que prometeu.

Assim, enquanto o povo esperava nas filas para comprar alimentos de prateleiras vazias, os ocupantes do Kremlin gozavam as delícias do poder, com alimentos e bebidas à vontade, podendo descansar em suas famosas Dachas (nome russo para fazenda, casa de campo ou mansão).

Canalhas (para não dizer xingamento mais forte) como Lênin e Stalin reinavam sobre um povo amedrontado pela polícia política: suas palavras eram leis, incontrastáveis.

Os comunistas russos tratavam seus inimigos exatamente como os detestados (por eles e pelo resto do mundo) nazistas: mimetizaram os campos de concentração, criando os odientos gulags.

Não podia dar certo e não deu. Se na Rússia, com sua seriedade e alto grau de maldade, não deu certo, como iria dar certo aqui no Brasil?

Mas foi tentado. O Partido dos Trabalhadores (PT) teve a maior chance de implementar em “terra brasilis” a Justiça Social. Conquistaram o poder e, aparentemente, governavam com o apoio do Congresso Nacional. Estávamos, enfim, rumo ao Brasil potência mundial!

Só que não.

Os deputados e senadores do Congresso Nacional que apoiavam o projeto petista de Brasil faziam isso motivados pelo chamado vil metal.

Mesmo os expoentes do Partido não se contentaram com o exercício do poder, e trataram de embolsar dinheiro para fazer um belo patrimônio (em imóveis no Brasil e em dólares no exterior) e curtir uma vida à larga, de luxos. Justificavam-se, perante suas consciências, dizendo que o país melhorara e que – vejam só! - os pobres já podiam viajar de avião.

Daí para copiar os russos nas coisas ruins foi um passo pequeno, ou seja, passaram a ter casas de campo luxuosas e, até para ir à praia, davam um jeito de ir e voltar de jatinhos particulares.

Os russos e seu regime maléfico caíram por causa dos seus pressupostos econômicos e pela ignorância arrogante dos seus incultos (embora endeusados) líderes. Os brasileiros, com seu regime maléfico e podre, caíram por sua ganância.

Roubaram escandalosamente, talvez prevendo a fatal queda futura e tentando garantir sua sobrevivência após o término do seu reinado.

Trocando em miúdos: as esquerdas (se assim se pode chamá-las, devido ao seu primitivismo) não tomaram a precaução que a Cosa Nostra tomou, ou seja, a de evitar o Brasil.

E, parodiando Geraldo Vandré, para não dizerem que não falei das hostes da Direita, também ela é uma gosma parecida com o que sai de nosso órgão excretor. A diferença é que as nossas elites (?) da Direita são as responsáveis pela esculhambação generalizada que impera em nossa Pátria.

Nenhum país chega à desigualdade vigente entre nós, às leis cumpridas apenas se isso for conveniente, aos nossos juízes politizados e, finalmente, ao povo ignorante e incivilizado cuidadosamente produzido por escolas ruins e desinteresse generalizado pela Educação, sem um trabalho longo e percuciente.

Nosso futuro? Acho que o futuro, por ora, não nos promete nada de bom, dada a quantidade de jovens que, cegos pela falta de leitura e instrução, endeusam verdadeiros sacripantas que merecem não menos que a prisão.

Aos brasileiros que conseguem ver as coisas como elas são, está restando o verdadeiro êxodo daqueles que, querendo trabalhar, vão de mala e cuia para outros países.


sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Nominação em conformidade com a fé

NOMINAÇÃO EM CONFORMIDADE COM A FÉ



Já faz algum tempo que não publico nada neste blog, e deve-se isto à preguiça atávica do ramo humano ao qual eu pertenço, seja qual ele for.

Deve-se também ao fato de que o cérebro humano não armazena memórias em ordem alfabética, como fazem os computadores.

Decorre disso que acabo por me lembrar de alguns fatos acontecidos na minha carreira de Promotor de Justiça quando, ao conversar com alguém, comento sobre um fato curioso e, voilà!, as sinopses cerebrais (se é que eu tenho isso...) me trazem à memória um processo judicial que espelhava esse tipo de coisa estranha.

Como é de sabença geral, há pais que, por falta de estudos regulares na escola, ou mesmo por espirito-porquismo puro e simples, dão aos seus filhos recém-nascidos nomes que os exporão ao ridículo durante sua vida.

Todo orgulhoso da paternidade, o pai dirige-se ao cartório para registrar o nascimento de seu filho e, quando o registrador pergunta o nome que o rebento terá, lá vai um Agrícola Beterraba Areia, Antônio Morrendo das Dores, Felicidade do Lar Brasileiro ou mesmo Fraternidade Nova York Rocha.

Imagine você no consultório de um médico e a secretaria fazendo o seu cadastro, quando você tem que dar todos os seus dados (endereço, telefone, etc), com todos os outros pacientes ouvindo, você ter que falar que se chama Jaspion Brasileiro Dantas...

A legislação brasileira tem artigos de lei que proporcionam ao nominado (ou seria vítima?) a possibilidade de ingressar em Juízo pedindo a mudança do nome vexaminoso.

Esse intróito todo foi para contar sobre uma ação judicial em que trabalhei. Uma mulher ingressou com uma ação pedindo para mudar o seu nome.

O nome dela era absolutamente normal, Maria Aparecida, não me recordo qual era o sobrenome.

Tanto o Promotor quanto o Juiz estranharam o pedido, já que o nome não diferia de tantos outros Brasil afora.

A justificativa apresentada pela mulher é bem representativa da simplicidade e inocência de grande maioria do povo brasileiro.

Ela justificou o pedido dizendo que, quando ela nasceu, seus pais eram católicos. Daí o Maria Aparecida.

Ela, então, concluiu seu raciocínio dizendo que, como agora ela era protestante, ou evangélica, seu nome não poderia fazer remissão a Maria, a virgem que concebeu Jesus.

Acrescentou, ainda, que ainda mais a chateava no nome dela era o fato de ser uma Maria Aparecida (em um lugar qualquer!), ora vejam!!

Termino o causo dizendo que ela não levou, ou seja, teve seu pedido indeferido.

Fica, finalmente, a especulação: será que ela, alegando motivos judiciais transitados em julgado, acabou retornando à fé católica ou desafiou o Poder Judiciário continuando evangélica?



sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Tô fora dessa de nervosismo!

TÔ FORA DESSA DE NERVOSISMO!



Este causo ocorreu em Espigão do Oeste, em Rondônia, cidade que, naqueles tempos, era também chamada de Espingardão do Oeste, por motivos óbvios.

Houve uma época, naquela cidade e comarca, que se matava muito. Angelo, Promotor de Justiça que lá trabalhava, dizia que ele tinha que “fazer” tantos Júris, tipo de julgamento que só ocorre quando é caso de crime de morte, ou quase-morte (quase-morte ocorre quando o matador, por incompetência ou mira ruim, não consegue matar a vítima), que ele ficava cansado.

Segundo o Ângelo, os bandidos da região resolveram não estressar o Promotor e, quando chegavam ao número de dez assassinatos, deixavam as vítimas amarradas para aguardar a chegada do próximo mês. Assim, não entupiam a Justiça e não cansavam tanto o Promotor.

Mas o causo que vou contar agora deu-se alguns anos mais tarde, quando já não era mais necessário deixar as futuras vítima de assassinato amarradas para não ultrapassar a quota mensal.

Um novo Promotor de Justiça (hoje Desembargador) viajava de ônibus para a cidade de Espigão do Oeste para trabalhar e, ao ver uma irregularidade qualquer no transporte público, manifestou seu desagrado para o motorista.

O motorista, sabendo que tratava-se do novo Promotor da cidade, fez-lhe uma pergunta inusitada:

  • O que houve, Doutor? O senhor está nervoso?

Logo após a pergunta do motorista os demais passageiros do ônibus explodiram numa gargalhada, deixando o Promotor encafifado com o fato.

Resolveu levar a coisa numa boa e, após sua chegada na cidade, contou ao pessoal do Fórum o que havia acontecido em sua viagem, bem como que não tinha entendido nada sobre o que houvera.

A explicação que lhe deram deixou-o estupefato (estupefato é ótimo).

Contaram a ele que algum tempo antes ocorrera na cidade um fato escabroso e, ao mesmo tempo, engraçado.

Um casal de moradores da cidade de Espigão do Oeste estava fazendo uma reforma em sua casa e, para isso, lá estavam alguns trabalhadores, entre pedreiros, carpinteiros e pintores.

A esposa precisou sair para ir ao centro da cidade para pagar contas e fazer algumas compras, tendo o marido ficado em casa para “cuidar” das obras.

Algum tempo depois, quando a esposa voltou para casa, para sua surpresa, flagrou uma cena dantesca!

Num dos quartos da casa, ela surpreendeu o marido sendo sodomizado por um dos trabalhadores (pelo jeito, o sujeito era multitarefas, não é?).

A pobre mulher entrou em pânico com aquela situação e chamou a Polícia, que logo veio atender a ocorrência.

O pessoal do triângulo amoroso, ou seja, o marido, a esposa e o trabalhador, foi levado à Delegacia de Polícia.

Delegado de Polícia vê e ouve cada coisa no seu trabalho, cada uma mais cabeluda que a outra, que alguns nem as contam para as outras pessoas, sob pena de ser tachado de mentiroso.

Diante daquele acontecimento esquisito – para dizer pouco -, o Delegado resolveu tomar o depoimento do marido.

Ao perguntar o porquê daquele ato sexual extemporâneo e fora da curva (não é somente no Supremo Tribunal Federal – STF -, que se usa essa expressão), o constrangido marido respondeu:

  • Sabe como é, Doutor... eu fiquei sozinho em casa e foi me dando um nervoso e aconteceu tudo isso!

Por um bom tempo naquela cidade e na região mais próxima, quando alguém via uma pessoa brava, enfurecida com alguma coisa, logo perguntava:

  • Que é isto?, rapaz, você está nervoso?

O Promotor, diga-se, aceitou a brincadeira com ele feita no ônibus e deixou de lado o assunto.

Até porque, se ficasse bravo com o que lhe acontecera, sempre haveria um gaiato para perguntar-lhe:

  • Que é isso, Doutor, o senhor está nervoso?



quinta-feira, 9 de novembro de 2017

"Trolando" o barro...

TROLANDO” O BARRO...


Nos idos de 1984 e 1985, quando fui Promotor de Justiça de Guajará-Mirim, o isolamento era um fato. Trezentos e vinte quilômetros nos separavam de Porto Velho, a capital do Estado.

Hoje em dia são os mesmos 320 kms de um asfalto cheio de buracos, tornando difícil e demorada uma visita à Pérola do Mamoré, codinome altamente merecido.

Naqueles tempos, não havia asfalto. Logo, tínhamos que vencer 320 quilômetros de barro e areião, o que nem sempre era possível.

Como o período chuvoso amazônico dura seis meses, a cidade e seus habitantes tinham que dar seu jeito para levar a vida com dificuldades de abastecimento de alimentos e combustíveis.

Dentre os combustíveis, estava o gás de cozinha. Para que os modernos tenham uma ideia, minha casa tinha seis botijões de gás para vencer o período das chuvas, e isso porque durante um mês e meio eu estava em gozo de férias.

As pessoas mais humildes recorriam ao carvão, à lenha, etc. Vida dura.

Mas ocorreu que minha mãe foi visitar-me na minha comarca (tenho um carinho muito grande por Guajará-Mirim e, sempre que posso, faço pelo menos uma visita anual à cidade e aos amigos de lá).

Ao final da visita, minha mãe precisava ir a Porto Velho, onde embarcaria no avião para a viagem de volta. Como eu dispunha de tempo e precisava ver algumas coisas na Capital, resolvi levá-la de carro, levando também minha família, mulher e filhos.

Grifei um trecho aí acima para ressaltar que essa não foi uma decisão inteligente: meu carro era um Monza, ou seja, um automóvel de passeio.

Os primeiros cem quilômetros foram uma beleza! Tudo ia bem. Mas...

Não mais que de repente, o motor do carro pára de funcionar. Eu entendo de mecânica tanto quanto entendo da aerodinâmica dos helicópteros e de energia nuclear.

Como consequência, eu abri a tampa do motor e fiquei ali, na beira da estrada com aquela cara de “pois é”.

Por sorte, parou um sujeito para ajudar e, olhando o motor, deu o diagnóstico: a bobina estava esquentando – coisa que fazia o motor parar de funcionar -, e a solução seria trocá-la, coisa obviamente impossível de fazer naquele fim de mundo.

Em seguida, vejo um ônibus seguindo para Porto Velho e rapidamente tomo a decisão de pará-lo e embarcar mãe e família nele para seguirem viagem.

Fiquei sozinho na estrada, com um carro avariado (sonho dos traficantes que coloquei na cadeia, mas nenhum aproveitou...). O jeito era seguir viagem do seguinte jeito: bobina esfria, motor funciona e pé na estrada; bobina esquenta, encosta na beira da estrada e espera esfriar.

A cidade mais próxima era Abunã, um lugarejo ao qual cheguei no começo da noitinha. Fui à Delegacia de Polícia e narrei meu problema para um policial. Ele disse-me que lá não havia venda de autopeças e sugeriu-me dar uma olhada nos carros apreendidos.

No pátio da Delegacia encontrei um jipe velho, mas com bobina! Tirei a bobina do jipe e coloquei no meu Monza. Funcionou!

Mas o problema ainda não estava resolvido, pois faltavam ainda mais de 200 quilômetros de barro até Porto Velho.

Para sorte minha, o policial perguntou-me se eu poderia levar três outros policiais até a Capital e eu, rapidamente, com péssima motivação, concordei.

A péssima motivação era o fato de que eu teria, caso encalhasse no barro, três caronas para pisar no barro e empurrar o carro.

Seguimos viagem. O barro, embora muito, não me levou ao encalhe, já que antes de ser Promotor de Justiça eu fora vendedor viajante, acostumado a viajar em estradas sem asfalto.

Contudo, volta e meia o motor ficava superaquecido e eu tinha que parar. Descobrimos que o motivo do superaquecimento era que o barro, subindo pelo motor, paralisava a hélice do radiador.

Então, quando isso acontecia – e aconteceu várias vezes! - um dos policiais se ajoelhava no barro e na lama para retirar, com as mãos, o material que impedia a hélice de funcionar e resfriar o motor.

Para aqueles que não gostam muito de ler, informo que o causo está chegando ao fim.

Por fim, chegamos a Porto Velho, deixei os policiais na Central de Polícia e, para minha surpresa, constatei que a viagem tinha durado 24, vinte e quatro longuíssimas horas!

E não dava nem para reclamar do Governador do Estado de Rondônia, porque, ao contrário dos políticos de hoje em dia, Jorge Teixeira de Oliveira era um homem honesto, com um Estado recém-criado nas mãos.

Achei de bom alvitre registrar esse tipo de dificuldade que tivemos nos anos iniciais de Rondônia para que as pessoas tenham uma ideia do enorme progresso que aquela terra já fez.



quarta-feira, 9 de agosto de 2017

O novo versus o moderno

O NOVO VERSUS O MODERNO



Hoje, o seu telefone celular aciona o despertador e, ao acordar, você verifica se está chovendo, como está a temperatura lá fora, confere as mensagens dos amigos e pode, até, telefonar. Tudo isso antes de sair da cama.

Tem uns tais de aplicativos nos celulares, cuja amplidão ainda não tenho nem uma vaga ideia, mas que são simplesmente maravilhosos. Você pode chamar um táxi (ou Uber), pedir um lanche, ver sua conta no banco, etc.

Eu sou do tempo em que este tipo de modernidades era simplesmente aventado nuns gibis como o do Flash Gordon (os mais jovens pesquisem no Google, tanto a expressão gibis quanto o Flash Gordon). Conversar com um amigo com imagens em tempo real no celular? Naquela época, quando eu era mais jovem, isso era coisa da imaginação, nunca aconteceria.

Pois está acontecendo. Nos meus augúrios para o futuro, já não descarto nada, nenhuma novidade tecnológica. Sabem aquele raio que desmaterializa uma pessoa num local e o materializa num outro, num instantinho?

Esse tipo de raio é a minha esperança para o futuro. Já pensou se você quisesse visitar um amigo num outro estado, num outro país? O sujeito aperta o botão no teletransportador e zap, você já está lá.

É lógico que uma máquina dessas teria que ter um antivírus poderoso... E se algo dá errado e você é teletransportado para dentro do banheiro do seu amigo, naquele exato momento em que ele está fazendo o número dois??

Ou, pior, se no momento do raio zap existe perto de você uma minhoca, uma barata, ou coisa parecida?

Você poderia ser transformado num honhoca, num horata...

A única possibilidade que não traria surpresas seria se dentro do teletransportador, junto com você, estivesse uma ratazana: você seria transformado um político brasileiro.

Pensemos no seguinte problema: você deseja ir para uma praia paradisíaca numa ilha do oceano Pacífico, entra na máquina do zap e ele lhe manda para a Coreia do Norte, no momento em que o maluquinho do Kim Jon-Un está disparando mais um dos seus mísseis?

Mas eu quero é falar dos tempos em que uma ligação telefônica tinha que ser solicitada pela manhã e, depois de passar por diversas telefonistas, era completada no final da tarde.

Sucesso? Não, se a pessoa com quem você queria falar tivesse saído:

  • Ah, o fulano saiu um momentinho. Você pode ligar daqui a dez minutos?
Isso, convenhamos, era o paraíso para devedores relapsos, para telefonemas do pai de sua noiva... bem as situações favoráveis ao recebedor da ligação são inúmeras.

Diante de tudo o que se faz hoje com um celular na mão, tipo ver sua conta no banco, pagar contas, mandar baboseiras pelo Whatsapp e muito mais, fico preocupado com algumas previsões futurísticas.

Dia desses li um sujeito que afirmou que, em dez anos (portanto, lá por 2027) o celular será coisa do passado, ninguém mais terá um deles.

Se a previsão é boa para quem detesta ter que se desviar, quando anda nas calçadas das cidades, dos idiotas que andam falando e digitando no celular, não dá nem para ter ideia do que virá no lugar dele, o tal de smartphone.

Que formato terá? Será feito de matéria? Um chip no seu cérebro? Uma parte de sua roupa?

Não dá para, sequer, imaginar. Mas se alguém, nos anos 70 ou 80 do século passado, nos falasse do celular, acreditaríamos?

Minha única esperança, nessas dúvidas todas, é que, usufruindo das maravilhosas tecnologias em 2027, alguém leia meu blog e, ao deparar com este texto, suspire, com enfado:

  • Que idiota!!




domingo, 25 de junho de 2017

A foto nunca vista

A FOTO NUNCA VISTA



Para os tempos modernos, as fotografias que tirávamos no passado parecem coisa de outro mundo, coisas que hoje parecem muito difíceis de fazer.

Para as máquinas fotográficas de anos atrás, você precisava ter o filme, cujo tamanho variava. Eles podiam ser para doze, vinte e quatro e trinta e seis fotografias. Podiam, também, ser em preto e branco ou coloridas.

Você era obrigado a clicar para “tirar” as fotos e somente iria saber se haviam ficado boas quando todas as fotos do filme eram utilizadas e enviadas para um laboratório para serem “reveladas”.

Somente então você iria saber que você tinha “cortado” a cabeça de sua tia, se sua irmã tinha saído de olhos fechados, etc.

Olhando para trás, vemos que era uma verdadeira ginástica o ato de fotografar. Hoje, sequer precisamos de uma máquina fotográfica, pois fazemos fotos usando tablets, celulares e, até, máquinas fotográficas...

Pois o “causo” que eu vou contar deu-se nos tempos ainda heroicos da fotografia, pois aconteceu em 1983.

Eu, recém-empossado como Promotor de Justiça, cheguei à cidade de Guajará-Mirim, onde ajudaria o titular daquela Comarca a fazer alguns júris. Meu colega chamava-se, também, Osmar, dado importante no desfecho deste “causo”.

Naquele finalzinho da ditadura militar, a grana era escassa e, para economizar, hospedei-me na casa do outro Promotor de Justiça.

Também no intuito de economizar o parco dinheirinho, pedi licença à dona da casa, esposa do outro Osmar, para usar o seu tanque de lavar roupas. Eu pretendia, e realmente o fiz (para espanto daqueles que me acham, com razão, uma nulidade nas artes domésticas), lavar as minhas cuecas, pelo menos elas...

Uma tarde qualquer eu peguei as ditas cujas (as cuecas) e, brioso como o exército alemão invadindo a Rússia, dirigi-me ao tanque de lavar roupas e comecei a praticar o branqueamento cuecal.

Meu colega, o dono da casa, tinhoso como todo Promotor de Justiça (concordarão com isso todos os alcançados hoje pelas investigações da Lava Jato), ao notar minha atividade laboral, sorrateiramente pegou sua máquina fotográfica e ...

… fotografou minha higienização das roupas íntimas, para usar uma linguagem mais adequada ao histórico cultural deste blog.

Aquele gesto de traição suprema dos princípios gerais estatuídos na Declaração Universal dos Direitos dos Homens, fruto maior da Revolução Francesa de 1789, eu considero até hoje um ato tresloucado daquele amigo que, se não se chamasse também Osmar, estaria inscrito nos anais da Infâmia.

Mas os tempos antigos tinham suas vantagens. Eu explico.

Alguns dias depois, estava eu no Fórum trabalhando sozinho (meu colega e homônimo estava na casa dele, palco do fato criminoso aqui relatado). Chegou um funcionário do Fórum e disse-me que alguém estava na porta procurando pelo “doutor Osmar”.

Logo pensei:

  • Não é comigo, pois aqui na cidade ninguém me conhece, deve estar procurando pelo meu colega.

Mas o destino trama contra os criminosos. O funcionário acrescentou que era o sujeito do “Foto”, que era o lugar onde se mandava “revelar” as fotos.

Meu cérebro não-menos-criminoso logo ligou as fotos com a foto que me flagrara lavando as cuecas.

Imediatamente mandei o sujeito entrar e o atendi. Expliquei que eu entregaria as fotos ao “Doutor Osmar” verdadeiro e que pagaria o custo da “revelação”.

Crime perfeito! Fotos entregues à vítima!

Logo localizei a foto que me mostrava em plena atividade na lavanderia (como hoje se chama o tanque de lavar roupas).

Para completa extirpação das provas, verifiquei os “negativos” do filme e, com uma tesoura, cortei o pedaço que poderia ser usado em outra revelação e para divulgação dos meus pendores lavatoriais.

Em minha defesa, acho que o tal de Pôncio Pilatos, que lavou apenas as mãos, é acusado de crime maior, não é?

Este “causo” vai servir para o meu bom amigo, o também Osmar, descobrir como “desapareceu” aquela foto, algo que sempre o assombrou.

Devo esclarecer que tive como parceiro, como co-autor, neste contra crime, o melhor amigo e o baita Juizaço Cássio, hoje fazendo das suas em outro plano, para onde iremos todos nós.

Finalizo dizendo que o que é antigo nem sempre é somente velho, pois enfeita a memória daqueles que viveram e revivem o que lhes aconteceu de bom.