BALA
PERDIDA
João saiu de casa para o
trabalho não muito cedo, até porque seu local de trabalho era bem
perto de casa. No caminho, pouco antes das sete da manhã, ia
pensando nos problemas que teria de resolver na empresa.
Como de costume, ia pensando
sobre as coisas da sua vida. Pelo jeito agradecido de um cliente da
firma, elogiando o seu trabalho, contava que seu patrão tinha
reconhecido sua importância. “Tomara que isso vire um aumento
de salário ou coisa parecida”.
Depois sua mente focou a vida
familiar. No último domingo, quando fizera um churrasco e chamara a
parentada, acabara sofrendo uma decepção. Aquele babaca do seu
cunhado, que lhe devia uma boa grana, nem tocara no assunto.
João já tinha ficado meio
desconfiado quando o cunhado lhe pediu um empréstimo, dizendo que
tinha um bom dinheiro para entrar nos próximos dias, mas que
aparecera uma oportunidade única. Se ele não conseguisse arrumar o
dinheiro, perderia uma chance de lucrar bastante...
Sua mulher ajudara o irmão,
seu cunhado, dizendo que não custava ajudá-lo, que certamente ele
devolveria a grana logo, e toda aquela conversa própria de quem já
tinha tido a cabeça feita pelo irmão.
O problema era que, passados
quatro meses, aquela oportunidade única não era tão única assim e
o empréstimo estava tomando ares de doação. E o cara ainda vai
filar churrasco e cerveja em sua casa no domingo...
O pior, além da grana que
parecia ter virado vento, era ter de aguentar a bronca do velho. Bem
que o pai, quando soube do empréstimo, o qualificara de “sonora
besta quadrada”. Agora, a cada momento, o velho o lembrava do
dinheiro perdido.
“Bem”, pensava João,
mas já era sexta-feira e o futebolzinho com os amigos iria rolar no
sábado, embora sua barriga estivesse tomando proporções que começavam a atrapalhar suas jogadas de craque.
E nessas divagações ia João
até que uma coisa chamou sua atenção. Um carro passou velozmente
por ele e, logo adiante, deu uma sonora freada, parando junto de um
carro forte, desses que transportam dinheiro.
Em seguida João ouviu o som de
um tiro. “Êpa, pensou, isso é um assalto e aqui vai ficar
perigoso”.
Ao ouvir o segundo tiro, João,
pensando rápido, jogou-se ao chão para não ficar no meio do
caminho das balas. Em seguida, seus ouvidos foram agredidos por uma
intensa fuzilaria.
Deitado no chão João estava e
deitado ficou, pensando em fingir-se de morto para evitar que os
bandidos “invocassem” com ele, ou que um policial amalucado
achasse que ele também era bandido.
Ouviu-se o som do carro dos
bandidos partindo em velocidade, “cantando os pneus”.
Não havia mais tiros, mas João
resolveu continuar ali imóvel até se certificar de que não havia
mais perigo. Sua mente já antegozava o momento em que poderia contar
aos colegas de trabalho a aventura de que fora protagonista.
Ficou envolvido com esses
pensamentos até que teve sua atenção despertada por alguns
policiais que se aproximavam dele. João pensou em levantar-se bem
devagar e explicar sua condição de mera testemunha do crime.
Mas, estranho, seus braços não
se mexeram para levantá-lo do solo. Tentou mover a cabeça, mas
também não teve resposta do corpo.
Aquilo era esquisito, e João
não entendia o que estava acontecendo. Mas o que ouviu de um dos
policiais o remeteu à verdade:
“Este aqui não teve a
menor chance. Foi atingido por uma bala perdida, bem na testa, e caiu
já morto. Infelizmente, ele estava no local e na hora errados.”