domingo, 29 de junho de 2014

Bala perdida

BALA PERDIDA


João saiu de casa para o trabalho não muito cedo, até porque seu local de trabalho era bem perto de casa. No caminho, pouco antes das sete da manhã, ia pensando nos problemas que teria de resolver na empresa.

Como de costume, ia pensando sobre as coisas da sua vida. Pelo jeito agradecido de um cliente da firma, elogiando o seu trabalho, contava que seu patrão tinha reconhecido sua importância. “Tomara que isso vire um aumento de salário ou coisa parecida”.

Depois sua mente focou a vida familiar. No último domingo, quando fizera um churrasco e chamara a parentada, acabara sofrendo uma decepção. Aquele babaca do seu cunhado, que lhe devia uma boa grana, nem tocara no assunto.

João já tinha ficado meio desconfiado quando o cunhado lhe pediu um empréstimo, dizendo que tinha um bom dinheiro para entrar nos próximos dias, mas que aparecera uma oportunidade única. Se ele não conseguisse arrumar o dinheiro, perderia uma chance de lucrar bastante...

Sua mulher ajudara o irmão, seu cunhado, dizendo que não custava ajudá-lo, que certamente ele devolveria a grana logo, e toda aquela conversa própria de quem já tinha tido a cabeça feita pelo irmão.

O problema era que, passados quatro meses, aquela oportunidade única não era tão única assim e o empréstimo estava tomando ares de doação. E o cara ainda vai filar churrasco e cerveja em sua casa no domingo...

O pior, além da grana que parecia ter virado vento, era ter de aguentar a bronca do velho. Bem que o pai, quando soube do empréstimo, o qualificara de “sonora besta quadrada”. Agora, a cada momento, o velho o lembrava do dinheiro perdido.

Bem”, pensava João, mas já era sexta-feira e o futebolzinho com os amigos iria rolar no sábado, embora sua barriga estivesse tomando proporções que começavam a atrapalhar suas jogadas de craque.

E nessas divagações ia João até que uma coisa chamou sua atenção. Um carro passou velozmente por ele e, logo adiante, deu uma sonora freada, parando junto de um carro forte, desses que transportam dinheiro.

Em seguida João ouviu o som de um tiro. “Êpa, pensou, isso é um assalto e aqui vai ficar perigoso”.

Ao ouvir o segundo tiro, João, pensando rápido, jogou-se ao chão para não ficar no meio do caminho das balas. Em seguida, seus ouvidos foram agredidos por uma intensa fuzilaria.

Deitado no chão João estava e deitado ficou, pensando em fingir-se de morto para evitar que os bandidos “invocassem” com ele, ou que um policial amalucado achasse que ele também era bandido.

Ouviu-se o som do carro dos bandidos partindo em velocidade, “cantando os pneus”.

Não havia mais tiros, mas João resolveu continuar ali imóvel até se certificar de que não havia mais perigo. Sua mente já antegozava o momento em que poderia contar aos colegas de trabalho a aventura de que fora protagonista.

Ficou envolvido com esses pensamentos até que teve sua atenção despertada por alguns policiais que se aproximavam dele. João pensou em levantar-se bem devagar e explicar sua condição de mera testemunha do crime.

Mas, estranho, seus braços não se mexeram para levantá-lo do solo. Tentou mover a cabeça, mas também não teve resposta do corpo.

Aquilo era esquisito, e João não entendia o que estava acontecendo. Mas o que ouviu de um dos policiais o remeteu à verdade:

Este aqui não teve a menor chance. Foi atingido por uma bala perdida, bem na testa, e caiu já morto. Infelizmente, ele estava no local e na hora errados.”



segunda-feira, 12 de maio de 2014

Três cascavéis e uma víbora

TRÊS CASCAVÉIS E UMA VÍBORA



Uma das poucas coisas que eu faço bem é preparar e assar um churrasquinho. Quando bem jovem, um cunhado, conhecido como Ligeirinho, ensinou-me um novo jeito de assar uma carne, que eu adorei e levei comigo para toda a vida.

Quase todos conhecem o tal churrasco, que é chamado, dentre outros nomes, de Gengis Khan. O preparo da carne deve ser feito com alguma antecedência – de preferência de um dia para o outro -, e envolve algumas coisas esquisitas como gengibre, shoyu, cebola e... carne, é óbvio.

Quando fui para Rondônia, apresentei aos amigos de lá esse tipo de churrasco, do qual gostaram muito. Acariciavam o meu ego me pedindo para fazê-lo de vez em quando.

Deu-se que, numa ocasião, quando eu era Promotor de Justiça em Guajará-Mirim, resolvi fazer um Gengis Khan e convidei alguns amigos. Infiel à política de não citar nomes nos meus “causos”, vou dizer o nome deles: Wadih e Valdir, com suas esposas, e o Cássio.

Preparei caprichosamente o tempero da carne com minha esposa e coloquei a carne na geladeira para descansar e “pegar” o tempero. Tudo pronto, pois, para regalar os amigos com minha especialidade.

Mas, após isso, recebi um telefonema da capital, dos meus superiores no Ministério Público, me dizendo que havia um problema qualquer na comarca de Costa Marques, pela qual eu também era responsável.

Acatando a determinação, na manhã seguinte um avião me transportou para Costa Marques, onde fiquei alguns dias resolvendo problemas. Para não deixar os amigos frustrados, pedi à minha esposa para que congelasse a carne para que, no meu retorno, eu fizesse o churrasco.

Ela, solidária com o meu churrasquus interruptus (já disse antes que o blog também é cultura...), colocou a carne toda num recipiente redondo e branco, depositando-a no congelador.

Voltei alguns dias depois para Guajará-Mirim, sentindo-um um guerreiro de volta ao lar. Dei uma rápida olhada no congelador e verifiquei que a carne lá ainda estava, pelo menos aparentemente.

Assim, no primeiro final de semana seguinte, eu disse à Zilda que iria fazer o churrasco de Gengis Khan e que iria chamar os mesmos amigos, cujos nomes já citei antes.

Liguei então para o Cássio, para o Wadih e para o Valdir, chamando-os novamente e já fui pegando a churrasqueira especial para assar a carne, assim como o carvão.

Contudo, para minha surpresa, quando peguei o tal recipiente redondo no congelador, notei que ele estava muito leve.

Intrigado, abri-o e vi que dentro dele havia apenas um bilhete, escrito com a letra da cascavel Cássio:

  • Vale um churrasco de Gengis Khan.

Não precisei ser nenhum gênio para concluir que, enquanto eu me esforçava fazendo Justiça na cidade de Costa Marques, as três cascavéis foram à minha casa, assaram o churrasco e comeram toda a carne.

Tudo isso não poderia ser feito sem o auxílio e conivência de minha esposa, que me deixou “namorar” o recipiente vazio dentro do congelador, sem contar-me que o churraquus interruptus não mais existia.

Partindo do título, vocês facilmente saberão quem é a víbora deste “causo”, não é?

Finalizo contando que os peçonhentos convidados compareceram de novo à minha casa e exigiram que eu preparasse outro churrasco.

Pois é: para fazer Justiça, sofri uma injustiça!








quinta-feira, 24 de abril de 2014

Identificando partes corporais

IDENTIFICANDO PARTES CORPORAIS



Dentre os acontecimentos que são alvo de “causos” deste blog, todos ligados à minha atuação como membro do Ministério Público, minha memória “puxou”, talvez entranhada dentro deles, uma lembrança ligada à minha infância, ainda como aluno do primeiro ano do primário (não sei que nome leva, hoje, essa etapa escolar).

Pois bem. Determinado dia, a nossa professora resolveu levar toda a classe para visitar a biblioteca pública.

E lá fomos nós, devidamente enfileirados, portando as lancheiras, sob cuidados dos professores, cruzando a empoeirada cidade de Maringá daquela época.

Em determinado trecho da caminhada, havia um muro todo branco, contendo, grafado nele em tinta preta, a palavra:

B U C E T A

Eu olhei aquilo intrigado e, já sabendo ler, perguntei ao coleguinha que estava ao meu lado na fila estudantil:

  • B u c e t a? O que é b u c e t a? - obviamente eu não falei a palavra sílaba por sílaba, ou seja, pronunciei o que vocês leram aí acima.
Meu coleguinha, horrorizado, puxou-me para bem perto dele e cochichando de forma incisiva, ao mesmo tempo advertiu-me e deu-me uma lição para o resto da vida:

  • Não fale essa palavra, e nem deixe a professora ouvir! Isso aí significa pinto de mulher!!

E mais não disse e nem lhe foi perguntado...


segunda-feira, 24 de março de 2014

Expulsando os intrusos: vitória fantasmagórica

EXPULSANDO OS INTRUSOS: VITÓRIA FANTASMAGÓRICA



Nesse “causo”, eu vou abordar um acontecimento que eu próprio não vivenciei, mas que me foi contado por um dos principais envolvidos. Os acontecimentos tiveram seu palco na cidade de Rolim de Moura, lá em Rondônia.

Na época dos fatos aqui narrados, eu era Corregedor-Geral do Ministério Público e, por força da função, viajava por todo o Estado de Rondônia visitando as Promotorias de Justiça. Numa dessas viagens, tive conhecimento dos fatos que agora vou narrar.

Um Promotor de Justiça, depois de ser designado para exercer suas funções na cidade de Rolim de Moura, logo tomou a providência primeira: procurar uma casa para instalar sua família.

É sabido que, nas pequenas cidades, as dificuldades para se encontrar um bom imóvel para comprar ou alugar são imensas, dada a exiguidade das opções.

Mas, contrariando essa regra de mercado, o Promotor logo encontrou uma casa que parecia ótima. Construída em alvenaria, com bons aposentos, churrasqueira e – cereja do bolo – uma bela piscina.

Arrematando tudo isso, o aluguel era bem modesto em termos de valor. Parecia que o Promotor tinha tido um rasgo de sorte, coisa que os fatos futuros iriam desmentir de forma cabal.

Mudança feita, família instalada na nova casa, o Promotor decidiu que poderia se dedicar ao trabalho na nova Promotoria de Justiça para a qual fora promovido.

Mas... coisas estranhas começaram a acontecer.

Vou contar apenas alguns desses acontecimentos, até porque tenho que recorrer à memória, vez que deles tive conhecimento há já algum tempo.

O Promotor, à noite, em sua residência, confortavelmente instalado na poltrona da sala para assistir o noticiário televisivo, notou que seu filho, de parca idade, olhava fixamente para um dos cantos da sala.

Em seguida, demonstrando medo de alguma coisa, o menino correu para o colo do pai. Como crianças de pouca idade têm percepções que nós adultos não temos (ou vemos), o pai julgou que aquilo era fruto da imaginação do filho.

Às vezes, altas horas da noite, com todos já dormindo, a família ouvia alguém bater fortemente na porta de entrada, chamando o Promotor pelo seu nome. Pensando que tratava-se de alguém clamando por sua ajuda, o Promotor abria a porta e nada ouvia ou encontrava.

Um dia, no meio da tarde, a empregada doméstica tirava um cochilo, já que as coisas estavam calmas e a família estava toda fora de casa. Ela foi acordada, de repente, por uma forte batida em sua janela, acompanhada de um grito: “Acorda, que seu patrão está chegando!”

O pior é que, logo depois disso, o Promotor realmente chegou em casa, mais cedo do que o costume.

Embora estranhasse essas coisas inexplicáveis à luz da razão, a família seguiu sua vida, até porque nada de mais expressivo havia ocorrido até então.

Mas, inesperadamente, deu-se um episódio que – digamos assim - “acelerou” os acontecimentos.

Chegou na casa do Promotor, em visita, um parente próximo e que era dotado de dons espirituais, ou mediúnicos.

Em conversas, foram a ele narrados os eventos estranhos da casa e este ficou de investigar. Já tarde da noite, o casal foi deitar-se, deixando o parente com a empregada da casa, que iria aprontar o aposento destinado a ele, “fazendo a cama” e fornecendo-lhe toalhas e outros itens necessários.

Logo depois de se deitar, o casal foi chamado, às pressas, pela empregada:

  • Por favor, venham depressa ver, pois seu parente está muito estranho.

O Promotor, sua esposa e a empregada dirigiram-se, então, ao quarto onde estava o hóspede. Quando lá chegaram, este estava sentado na cama, com um olhar esquisito e falando (ou seria engrolando?) palavras incompreensíveis.

Logo depois, as gavetas de um armário próximo à cama começaram a abrirem-se e fecharem-se violentamente, com forte estrondo.

Em seguida, as coisas acalmaram-se. Mas aquilo foi a chamada “gota d'água” para a família.

Todos fizeram as malas rapidamente, saindo da casa. Foram para um hotel da cidade, pois ficara evidente que havia algo errado com a casa.

No dia seguinte, pela manhã (mas com o sol já bem alto, para não facilitar) o Promotor foi sozinho até a casa para retirar documentos e outras coisas indispensáveis. Nada aconteceu.

Após acomodar a família numa outra casa emprestada, o Promotor dedicou-se a procurar outro imóvel para alugar.

Encontrada a nova casa, o Promotor contratou o aluguel da que seria a futura residência da sua família. Em seguida, contratou uma transportadora local para fazer a mudança dos móveis.

Quando já estavam no processo de arrumação dos móveis na nova casa, o transportador foi até a Promotoria de Justiça para receber pelos seus serviços.

O Promotor fez o pagamento devido, mas o sujeito disse para ele, com um ar misterioso, que sabia o motivo pelo qual ele havia mudado de casa.

  • Como assim, o senhor sabe porque eu mudei daquela casa?

A resposta que ele recebeu parece resumir, com exatidão, os eventos inexplicáveis narrados neste “causo”:

  • Doutor, quando nós já havíamos retirado todos os seus móveis, eu fiz uma última vistoria pela casa e, depois que eu fechei com chave a porta de entrada, eu ouvi uma gritaria assombrosa dentro da casa, junto com o que pareciam muitas mãos batendo de contentamento nas paredes de dentro da casa.

O caso deste “causo” é uma comprovação de que, neste mundo, há muitas coisas que as religiões, e mesmo a ciência, não conseguem explicar. Existem, certamente, coisas que nossos sentidos não percebem.

Mas que elas estão lá, isso estão...

Encerrando o “causo”, até quando acompanhei a casa não mais foi alugada. Quem teria a coragem?








sábado, 22 de fevereiro de 2014

Cobrança divina dos pecados

COBRANÇA DIVINA DOS PECADOS



Este causo ocorreu em Guajará-Mirim, entre os anos de 1984 e 1985. Quem morava em Guajará, nada obstante as dificuldades daquela época (estradas ruins e energia elétrica com pavorosos racionamentos), vivia num paraíso.

No entorno de Guajará-Mirim há diversos igarapés e pequenos rios onde o pessoal ia nadar e passar o dia em lugares de estupefaciente natureza. Havia também o povo hospitaleiro – e festeiro! - e, principalmente, no verão, as belas praias do rio Pacaás Novos.

Nesta última opção de diversão, as pessoas alugavam barcos de porte médio e subiam o rio Mamoré, em direção à foz do rio Pacaás Novos.

Nesse local, onde as águas do Pacaás Novos desaguam no rio Mamoré, o espetáculo é muito bonito: as águas claras e límpidas do pequeno rio demoravam a misturar-se com as águas barrentas do Mamoré.

Pouco acima dessa maravilhosa separação de águas, onde pode-se soltar a imaginação torcendo pela vitória impossível das águas límpidas do Pacaás Novos, esse rio apresenta belas praias.

O banho ali é uma delícia, e as pessoas têm a única preocupação de evitar pisar numa raia (ou arraia), cujo ferrão pode ficar dolorosamente cravado no pé do incauto.

Quem pesca tem o trabalho de, tirando o peixe do anzol, jogá-lo para o pessoal que está na areia, para o seu devido preparo e fritura. Os mais carnívoros levam carnes e providenciam um churrasco.

Deu-se que, num sábado, subimos de barco para essas praias para passar o dia. O grupo era excepcionalmente grande, vez que vários amigos juntaram-se à nossa turma para o dia fluvial.

Minha turma, diga-se, era composta do meu impagável compadre Valdir e de outros amigos mais chegados.

Uma amiga querida, muito religiosa, naquele dia resolveu “descuidar-se” dos seus deveres de cristã e ir conosco. Mas, já dentro do barco e navegando em direção às praias, ela começou a lamentar-se, dizendo que estava falhando com seus deveres junto ao Criador.

Mais tarde, já instalados na praia, ela foi deslocar-se para pegar alguma coisa. Enquanto andava, tropeçou na areia e sofreu um tombo cinematográfico.

Ela levantou-se e, tentando consertar a dignidade acidentalmente perdida, exclamou:

  • Eu sabia! Esse tombo é castigo por eu não ter ido à missa hoje! Que Nossa Senhora Aparecida e meu Jesus me perdoem!

O compadre Valdir achegou-se e, olhando cinicamente para ela, arrematou a questão:

  • Dona Maria! Se Deus derrubasse todo aquele que não vai à missa nos finais de semana, eu não pararia em pé!!

Quem não parava mais em pé, de tanto rir, passei a ser eu...







terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Um matador implacável

UM MATADOR IMPLACÁVEL



Nos meus anos de Rondônia, fiz algumas amizades sólidas, daquelas que costumam nascer entre pessoas que enfrentam dificuldades no dia a dia. Era o caso de Rondônia, no início dos anos 1980, época em que trabalhar implicava também em driblar dificuldades de toda ordem.

As estradas eram péssimas e, no período das chuvas (de novembro a abril), intransitáveis. Telefonia era muito precária. O fornecimento de energia elétrica muito inconstante agregava (agregava é bastante aplicável ao caso) um sofrimento a mais.

Afinal, Promotores e Juízes tínhamos que, para exercer nosso ofício, estar devidamente vestidos (melhor seria dizer embalados) de terno e gravata. Sem energia elétrica, calor amazônico...

No meu caso específico, os amigos mais próximos eram os juízes com quem eu trabalhava todos os dias. Com todos os magistrados com quem eu atuei como Promotor de Justiça fiz amizades fraternas e duradouras.

Dividíamos responsabilidades na função de distribuir Justiça, assim como partilhávamos os temores – era uma terra, à época, cheia de bandidos -, as dificuldades com as acomodações da família e filhos, bem como os sucessos advindos de nossa atuação.

Se estávamos juntos nas horas de labor, também o fazíamos nas horas de descanso, na diversão e nas aventuras.

Se Rondônia era dificultosa pela precariedade dos confortos da vida moderna, não menos verdade é dizer-se que era também uma coisa linda de se ver! A Amazônia, naquela época, ainda estava praticamente intocada, e a natureza era exuberante.

Deu-se que, certo dia, nós nos aventuramos numa pescaria no rio Pacaás Novos, com duração de uns três dias. Companheiro constante, comigo estava um dos juízes da bela Guajará-Mirim, amizade essa que dura até hoje, até porque nos tratamos como se irmãos fôssemos.

Durante a pescaria, saímos numa noite escura para tentar fisgar algum peixe, enquanto deixávamos o barco de bubuia (o barco fica sem tração do motor de popa, descendo o rio junto com a correnteza).

De quando em vez, alguém focava a lanterna na margem do rio e dizia: “Olha lá o tamanho do jacaré!”. Na verdade, viam-se apenas os olhos do jacaré, calculando-se o tamanho do bruto pela distância entre eles.

Mas o juiz em questão era desses que usava uns óculos de grau forte, e sem os quais tornava-se uma verdadeira toupeira, cego de dar dó.

E, a cada vez que alguém apontava o farolete e anunciava a presença do jacaré, ele reclamava, pois não tinha visto nada. Nós tentávamos explicar-lhe que os olhos pareciam duas bitucas de cigarro acesas, que brilhavam refletindo a luz da lanterna. Nada de ele ver o réptil.

Por mais que chegássemos perto do jacaré, ele continuava a dizer que nada vira.

Em razão disso, aproximamos mais o barco da margem onde o jacaré estava e focamos a lanterna diretamente sobre a cabeça do jacaré.

  • Agora não é possível que você não veja! O jacaré está bem aqui!

A reação do juiz deixou-nos, a todos, atordoados. Ele costumava levar nessas pescarias um enorme revólver Magnum, cano longo, calibre 38, um verdadeiro canhão.

Pois ele apontou o revólver para onde a lanterna estava focando e disparou, rapidamente e em sequência, três tiros.

Vocês podem imaginar o barulhão que os disparos disseminaram, no rio e na floresta. Penso até que, como estávamos próximos à fronteira com a Bolívia, los hermanos acharam que estavam sendo atacados pelo Brasil.

Tentando recuperar-me do susto e com os ouvidos ainda sofrendo com o barulho das três detonações do “canhão”, virei-me para ele e perguntei, triunfalmente:

  • Bem, agora parece evidente que você viu o jacaré, né? Nós dissemos que ele estava lá. Viu?

A resposta dele assustou-me mais que os tiros no rio silencioso:

  • Vi nada, sô. Eu atirei foi na luz!

Eu concluí que ele errou o mundo, pois o jacaré, ainda sem que o juiz o visse, afundou calmamente e desapareceu nas águas do rio.

Finalizando, para que ninguém pense mal dos dotes visuais do meu amigo magistrado, e potencial assassino de luz de lanterna, alguns dias depois ele entendeu o “espírito da coisa” e conseguiu ver os olhos do jacaré, bem como o resto do corpo do dito cujo.

Se não fosse como irmão meu, essa eu não contava aqui...






segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A vida é um sopro

A VIDA É UM SOPRO...



Vou contar, aqui, um acontecimento mais recente, já na condição de aposentado do Ministério Público. Faço isso mais como uma homenagem a uma pessoa que, bem-humorada e de bem com a vida, dela partiu por causa de eventos inusuais.

Logo que adquiri minha casa da Pousada do Paranapanema, localizada no município de Santo Inácio, tratei de comprar um barco destinado ao lazer e às minhas pescarias e da incomparável Zilda.

Cauteloso, antes de colocar o meu barco para navegar no belo rio Paranapanema, procurei alguém que conhecesse o rio e seus mistérios, para me ensinar as armadilhas que – acreditem – todo rio tem.

Quando o meu “professor” do rio chegou, na manhã em que iríamos ser apresentados ao rio, ele se identificou como sendo o Baixinho.

Navegamos, Zilda, ele e eu por umas três horas, enquanto eu procurava memorizar os pontos problemáticos do rio Paranapanema.

Terminado o passeio fluvial, paguei ao Baixinho por seus serviços e perguntei o nome dele, pois não gosto de chamar ninguém pelo apelido.

Ele não disse. Afirmou que todo mundo o conhecia como Baixinho e que, se eu perguntasse por ele pelo nome de batismo, ninguém saberia dizer quem era. Se era esse o seu desejo, não seria eu a contrariá-lo.

Ao longo do tempo, fizemos outros passeios e pescarias no rio, sempre com ele sendo prestativo e atencioso.

Mas, o destino...

Certo dia, no ano de 2012, eu fui para a minha casa na Pousada a bordo de um carro novo, “zero” quilômetro”, todo pimpão com a novidade (pobre é assim mesmo...).

Logo depois que cheguei, o Baixinho apareceu, com sua moto, e veio conversar comigo. Desmoralizou, logo de saída, meu carro novo:

  • E aí, seu Osmar, carro bem reformadinho, hein?
Relevei a inoportuna agressão às minhas vaidades automobilísticas e, como tinha pouco antes ido, numa viagem, à Bolívia, o presenteei com uma carretilha nova em folha. Pescador inveterado, ele ficou felicíssimo.

A minha esposa, sabedora dos meus nulos conhecimentos práticos, logo pediu ao Baixinho que a ajudasse a montar um dos móveis da casa. Gente boa, ele não rejeitou o trabalho e logo resolveu a “coisa” que, para minhas inábeis mãos, levaria décadas.

Em seguida, eu perguntei-lhe se não poderíamos ir pescar um pouco naquela tarde, pois eu queria conhecer novos pesqueiros.

Pescaria o Baixinho não recusava de jeito nenhum. Assim, logo começamos a aprontar meu barco e separar a tralha de pesca, ficando tudo prontinho. Como era quase hora do almoço, ele disse-me que iria almoçar com a sua esposa e que, logo após, nós sairíamos para a pesca.

Passaram-se dez, quinze minutos, depois da saída do Baixinho e apareceu um sujeito, de moto, perguntando se era eu quem iria pescar com ele.

Eu respondi afirmativamente, é claro. O sujeito falou-me:

  • Olha, o Baixinho pediu para avisar o senhor que ele não vai poder mais ir pescar, pois ele caiu da moto e vai ter que ir ao Hospital.
Incontinenti, peguei meu carro novo, que o Baixinho desqualificara pouco antes, e sai atrás do motoqueiro, pois pretendia levar o acidentado ao Hospital com meu carro que, apesar de bem reformado, é grande e espaçoso.

Chegando ao local, ofereci-me para levá-lo ao Hospital, mas ele recusou, dizendo que, como tinha problemas na coluna cervical, esse tipo de transporte improvisado poderia prejudicá-lo ainda mais.

Assim, procurando ser solidário, aguardei junto com ele, que estava deitado no chão e com dores, até que a ambulância chegasse.

Depois de uma meia hora, esta chegou. Cuidadosamente colocamos o Baixinho na maca e o instalamos dentro da ambulância.

Como eu gostava muito do Baixinho, pouco antes de o motorista da ambulância fechar as portas do carro eu dei-lhe um tapinha nos ombros e disse-lhe para ficar tranquilo, e que tudo daria certo.

Palavras nada proféticas...

Como a pescaria estava cancelada, almocei tranquilamente, com direito à sesta depois.

Depois de acordado, sai para dar uma volta pelo lugar e encontrei uns funcionários do Condomínio, que me perguntaram:

  • O senhor soube do Baixinho?

Eu respondi que sabia, sim, pois eu até o ajudara a embarcar na ambulância. Para minha surpresa, eles disseram:

  • Não, então o senhor não sabe. Ele morreu.

Pois não é que a ambulância, velha demais, típica do desprezo dos políticos brasileiros depois do momento eleitoral, e com pneus “carecas”, teve um deles estourado na viagem e, capotando, causou no Baixinho ferimentos que o mataram?

Chocado, triste, somente me restou aguardar a chegada do corpo do Baixinho na cidade de Santo Inácio, onde seria velado e enterrado.

No dia seguinte, ao ir ao velório, finalmente descobri o nome do Baixinho: era Clodoaldo.

Como eu disse no título, a vida é um sopro...