“TROLANDO”
O BARRO...
Nos
idos de 1984 e 1985, quando fui Promotor de Justiça de
Guajará-Mirim, o isolamento era um fato. Trezentos e vinte
quilômetros nos separavam de Porto Velho, a capital do Estado.
Hoje
em dia são os mesmos 320 kms de um asfalto cheio de buracos,
tornando difícil e demorada uma visita à Pérola do Mamoré,
codinome altamente merecido.
Naqueles
tempos, não havia asfalto. Logo, tínhamos que vencer 320
quilômetros de barro e areião, o que nem sempre era possível.
Como
o período chuvoso amazônico dura seis meses, a cidade e seus
habitantes tinham que dar seu jeito
para levar a vida com dificuldades de abastecimento de alimentos e
combustíveis.
Dentre
os combustíveis, estava o gás de cozinha. Para que os modernos
tenham uma ideia, minha casa tinha seis
botijões
de gás para vencer o período das chuvas, e isso porque durante um
mês e meio eu estava em gozo de férias.
As
pessoas mais humildes recorriam ao carvão, à lenha, etc. Vida dura.
Mas
ocorreu que minha mãe foi visitar-me na minha
comarca (tenho um carinho muito grande por Guajará-Mirim e, sempre
que posso, faço pelo menos uma visita anual à cidade e aos amigos
de lá).
Ao
final da visita, minha mãe precisava ir a Porto Velho, onde
embarcaria no avião para a viagem de volta. Como eu dispunha de
tempo e precisava ver algumas coisas na Capital, resolvi levá-la de
carro, levando
também minha família, mulher e filhos.
Grifei
um trecho aí acima para ressaltar que essa não foi uma decisão
inteligente: meu carro era um Monza, ou seja, um automóvel de
passeio.
Os
primeiros cem quilômetros foram uma beleza! Tudo ia bem. Mas...
Não
mais que de repente, o motor do carro pára de funcionar. Eu entendo
de mecânica tanto quanto entendo da aerodinâmica dos helicópteros
e de energia nuclear.
Como
consequência, eu abri a tampa do motor e fiquei ali, na beira da
estrada com aquela cara de “pois
é”.
Por
sorte, parou um sujeito para ajudar e, olhando o motor, deu o
diagnóstico: a bobina estava esquentando – coisa que fazia o motor
parar de funcionar -, e a solução seria trocá-la, coisa obviamente
impossível de fazer naquele fim de mundo.
Em
seguida, vejo um ônibus seguindo para Porto Velho e rapidamente tomo
a decisão de pará-lo e embarcar mãe e família nele para seguirem
viagem.
Fiquei
sozinho na estrada, com um carro avariado (sonho dos traficantes que
coloquei na cadeia, mas nenhum aproveitou...). O jeito era seguir
viagem do seguinte jeito: bobina esfria, motor funciona e pé na
estrada; bobina esquenta, encosta na beira da estrada e espera
esfriar.
A
cidade mais próxima era Abunã, um lugarejo ao qual cheguei no
começo da noitinha. Fui à Delegacia de Polícia e narrei meu
problema para um policial. Ele disse-me que lá não havia venda de
autopeças e sugeriu-me dar uma olhada nos carros apreendidos.
No
pátio da Delegacia encontrei um jipe velho, mas com bobina! Tirei a
bobina do jipe e coloquei no meu Monza. Funcionou!
Mas
o problema ainda não estava resolvido, pois faltavam ainda mais de
200 quilômetros de barro até Porto Velho.
Para
sorte minha, o policial perguntou-me se eu poderia levar três
outros policiais até a Capital e eu, rapidamente, com péssima
motivação, concordei.
A
péssima motivação era o fato de que eu teria, caso encalhasse no
barro, três caronas para pisar no barro e empurrar o carro.
Seguimos
viagem. O barro, embora muito, não me levou ao encalhe, já que
antes de ser Promotor de Justiça eu fora vendedor viajante,
acostumado a viajar em estradas sem asfalto.
Contudo,
volta e meia o motor ficava superaquecido e eu tinha que parar.
Descobrimos que o motivo do superaquecimento era que o barro, subindo
pelo motor, paralisava a hélice do radiador.
Então,
quando isso acontecia – e aconteceu várias vezes! - um dos
policiais se ajoelhava no barro e na lama para retirar, com as mãos,
o material que impedia a hélice de funcionar e resfriar o motor.
Para
aqueles que não gostam muito de ler, informo que o causo
está chegando ao fim.
Por
fim, chegamos a Porto Velho, deixei os policiais na Central de Polícia
e, para minha surpresa, constatei que a viagem tinha durado 24, vinte
e quatro longuíssimas horas!
E
não dava nem para reclamar do Governador do Estado de Rondônia,
porque, ao contrário dos políticos de hoje em dia, Jorge Teixeira
de Oliveira era um homem honesto, com um Estado recém-criado nas
mãos.
Achei
de bom alvitre registrar esse tipo de dificuldade que tivemos nos
anos iniciais de Rondônia para que as pessoas tenham uma ideia do
enorme progresso que aquela terra já fez.