CABEÇA
(MUITO) DURA
Tive por colega, nos tempos da
Faculdade de Direito, um sujeito bastante desinteligente que,
todavia, queria tornar-se advogado.
Em quase todas as aulas, das
mais variadas matérias e professores, ele anotava furiosamente em
seu caderno, enquanto o professor fazia sua explanação.
Invariavelmente, quando ia
chegando o finalzinho da aula, ele procurava chamar a atenção do
professor e pedia a palavra para demonstrar sua dedicação ao
aprendizado das coisas do Direito.
Antes, diga-se que o sujeito
era extremamente baixinho (nada tenho contra os baixinhos, diga-se) e
usava uma peruca simplesmente ridícula. Com essa breve descrição
do tipo físico dele, vocês poderão imaginar melhor a cena.
Prossigamos.
Quando o professor o atendia,
ele levantava-se, todo empertigado, pegava as anotações feitas em
seu caderno e mandava:
- Professor, pelo que entendi, posso dizer que os contratos de compra e venda são... etc, etc, blábláblá...
A
cada vez, o professor da vez ficava ouvindo-o perplexo, enquanto o
aluno dizia como tinha entendido bem e aprendido, em definitivo,
aquela matéria. Após, ele olhava triunfante para o professor, como
querendo um elogio.
Como
sempre, o professor (aliás todos eles) respondiam, torturados em sua
paciência:
- Não, meu filho, você não entendeu nada do que eu disse. Leia a matéria no livro ou peça a algum colega para lhe explicar...
Assim
iam os dias, a cena repetindo-se em qualquer tipo de aula, seja de
Direito Penal, seja Civil, Constitucional... qualquer matéria!
Com
a chegada do final do semestre e suas inevitáveis provas, o
desespero ia tomando conta do tal aluno, que via sua futura formatura
em Direito tão perto quanto a conquista do planeta Marte pela
humanidade...
Então,
ele teve uma ideia brilhante, após conversar com alunos mais
adiantados que nós no curso. Descobriu que determinado professor
costumava aplicar exatamente a mesma prova, semestre após semestre.
Ele
dirigiu-se ao Diretório Acadêmico e, com muita lábia, inventando
mil mentiras sobre sua auto-evolução nos segredos da ciência do
Direito, conseguiu que uma funcionária lhe arrumasse um exemplar da
prova aplicada pelo professor no semestre imediatamente anterior.
Sucesso
à vista!, proclamou ele. Agora todos iam ver a boa nota que ele iria
“tirar” na prova, gabava-se para os outros colegas!
O
sujeito dedicou-se a decorar as respostas às perguntas da prova mais
do que o Papa deve dedicar-se à leitura das escrituras sagradas.
Uma
semana depois, o professor chega para a aula trazendo as provas
recém-aplicadas, bem como as notas dos alunos.
Apreensão
por parte dele; expectativa nossa, os colegas, pela performance
do
talvez (quem sabe, porventura, quiçá, etc.) advogado.
Antes
que anjos trombeteassem as alvíssaras, veio o anticlima. A nota dele
foi ZERO.
Ninguém
entendeu nada. Pois o sujeitinho não decorara as respostas? Como é
que pode?
O
mistério foi solvido quando o professor explicou, um tanto
desanimado com seu insucesso ao ensinar aquele sujeito:
- Eu não te entendo, meu filho! Você deu respostas equivocadas a cada uma das minhas perguntas! O pior é que você escrevia uma resposta que só era certa quando se aplicava a outra questão da prova..
Evidentemente
tudo ficou muito claro quando vimos que o professor trocara a ordem
das perguntas. Elas eram realmente as mesmas daquela que ele aplicada
no semestre anterior, mas TROCARA aleatoriamente sua ordem.
O
sujeitinho da peruca, ignorante da ciência do Direito, escrevera as
respostas decoradas EXATAMENTE na mesma ordem daquela prova que ele
obtivera por meios maliciosos.
Ele
ficou para trás, no decorrer do curso e da vida, mas acho que nunca
conseguiu formar-se em Direito.
Conseguiu,
entretanto, um feito: gravar na minha memória o episódio, tanto que
o conto aqui neste blog.








