OUTRO TIPO INESQUECÍVEL: WILSON
Inicio falando da cidade de
Cerejeiras. Ela está situada no sudoeste de Rondônia e foi criada e
desenvolveu-se a partir da sede de uma fazenda. Aliás, por esse
motivo, em seus terrenos vazios, nos primórdios de sua criação,
havia muito capim colonião.
Como sempre digo, este blog
também é cultura. Então, lá vai. O tal capim colonião, batizado,
em latim, como panium maximum,
é habitado por um ácaro chamado de micuim,
bichinho que infernizava a vida dos moradores de Cerejeiras, à
época.
O
micuim é um
sujeitinho disgramado (como
dizia meu avô, para tudo aquilo que ele achava desgraçado, fdp,
etc.), que se instala na pele das pessoas e causa uma coceira
insuportável e sérias lesões epiteliais (cultura, lembrem-se...).
Mas
não é disso que eu quero falar, em relação a Cerejeiras. Informo
que, para a comarca de Cerejeiras, eu sou um personagem histórico,
porque fui o primeiro Promotor de Justiça nomeado para a
recém-criada comarca.
Bastante
tempo depois de ter sido promovido na carreira e de ter saído da
cidade, eu costumava voltar à cidade, que era – e é! - habitada
por pioneiros, o que vale dizer que são amistosos e solidários.
Num
desses retornos à cidade, acabei conhecendo e fazendo amizade com um
oficial de Justiça chamado Wilson. É dele que quero falar aqui.
Wilson
era um jovem simpático, engraçado e... pescador! Ele parecia ter um
trato, ou um contrato, com os peixes: esses sempre apareciam onde
Wilson colocava o seu anzol.
Nas
estradinhas de terra de antanho, quando, a caminho de uma pescaria,
parávamos para nos aliviar devido à cerveja ingerida, Wilson dava
um jeitinho para achar um igarapé e jogar o seu anzolzinho n'água.
O pior é que pegava, irritando a nós outros, meros seguradores de caniços.
Numa
certa ocasião, pescando no rio Guaporé, altas horas da madrugada,
um frio desgraçado (ou disgramado,
como diria meu avô), todos pegavam um peixe aqui e outro acolá.
Menos eu que, chateado, depus meu molinete e disse que desistia.
Wilson,
ao ver aquilo, disse-me:
- Não desiste não! Jogue a sua linha bem aqui.
O local em questão era
exatamente do meu lado direito, bem próximo ao barco em que
estávamos. Sabedor de com quem eu estava lidando, obedeci
prontamente e pimba!
Fisguei um grande e lindo
surubim, peixe delicioso. Confirmava-se naquele momento o
trato existente entre Wilson e os peixes.
Essa pescaria foi mais ou menos
em agosto. Mais tarde naquele mesmo ano, lá por dezembro, Wilson
pediu-me que eu contasse a um recém-chegado como tinha sido o evento
do surubim por mim pescado.
Dirigindo-me ao recém-chegado
em questão, eu comecei por informá-lo de que, em janeiro daquele
ano eu havia requerido férias, que tinham sido deferidas através da
portaria de número tal, etc, etc, etc.
Wilson cortou meu relato e
disse-me, peremptório:
- Assim não dá! Você é um contador de causos chato...
O acontecimento virou assunto
nas inúmeras outras pescarias que fizemos.
Em outra pescaria, Wilson (já
dentro do clima de gozação que envolvia meus “causos”) pediu-me
que eu falasse sobre outra pescaria que eu fizera em outro rio. Assim
comecei eu:
- Bem, tudo aconteceu numa noite brumosa e...
Fui
interrompido por Wilson, que reclamou:
- Para lá! Primeiro explique o que é “brumosa”!
Assim iam as coisas quando,
numa das pescarias seguintes, Wilson resolveu “vingar-se” da
minha chatice narrativa. Disse-me que ia contar sobre uma coisa que
acontecera com ele, e eu concordei. Tudo isso dentro de um barco,
alta madrugada e com frio.
Wilson começou seu “causo”
dizendo que acordara, escovara os dentes, pegara o seu carro, etc.
A cada informação que ele
dava, eu assentia com um respeitoso e silencioso Hum-hum.
Ele ia progredindo no “causo”
e eu assentindo: Hum-hum. Wilson, estacando seu
“causo”, deu-me uma “bronca”:
- Assim não dá!! Eu sabia que você era um contador de causos chato. O que eu não sabia era que você ERA UM OUVINTE CHATO!!
Esse
“causo” é uma homenagem ao Wilson, pois a morte o alcançou em
idade muito jovem, e ele era realmente um tipo inesquecível.
Hoje,
que não mais estou na ativa do Ministério Público, quando converso
com meus atuais amigos e conto sobre Wilson, sempre digo que, depois
de sua morte, Jesus, que chamou a si próprio de Pescador
de Almas, certamente estará
usando a expertise
dele e do seu “trato” com os peixes.
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