COBRANÇA
DIVINA DOS PECADOS
Este causo ocorreu em
Guajará-Mirim, entre os anos de 1984 e 1985. Quem morava em Guajará,
nada obstante as dificuldades daquela época (estradas ruins e
energia elétrica com pavorosos racionamentos), vivia num paraíso.
No entorno de Guajará-Mirim há
diversos igarapés e pequenos rios onde o pessoal ia nadar e passar o
dia em lugares de estupefaciente natureza. Havia também o povo
hospitaleiro – e festeiro! - e, principalmente, no verão, as belas
praias do rio Pacaás Novos.
Nesta última opção de
diversão, as pessoas alugavam barcos de porte médio e subiam o rio
Mamoré, em direção à foz do rio Pacaás Novos.
Nesse local, onde as águas do
Pacaás Novos desaguam no rio Mamoré, o espetáculo é muito bonito:
as águas claras e límpidas do pequeno rio demoravam a misturar-se
com as águas barrentas do Mamoré.
Pouco acima dessa maravilhosa
separação de águas, onde pode-se soltar a imaginação torcendo
pela vitória impossível das águas límpidas do Pacaás Novos, esse
rio apresenta belas praias.
O banho ali é uma delícia, e
as pessoas têm a única preocupação de evitar pisar numa raia
(ou arraia),
cujo ferrão pode ficar dolorosamente cravado no pé do incauto.
Quem
pesca tem o trabalho de, tirando o peixe do anzol, jogá-lo para o
pessoal que está na areia, para o seu devido preparo e fritura. Os
mais carnívoros levam carnes e providenciam um churrasco.
Deu-se
que, num sábado, subimos de barco para essas praias para passar o
dia. O grupo era excepcionalmente grande, vez que vários amigos
juntaram-se à nossa turma para o dia fluvial.
Minha
turma, diga-se, era composta do meu impagável compadre Valdir e de
outros amigos mais chegados.
Uma
amiga querida, muito religiosa, naquele dia resolveu “descuidar-se”
dos seus deveres de cristã e ir conosco. Mas, já dentro do barco e
navegando em direção às praias, ela começou a lamentar-se,
dizendo que estava falhando com seus deveres junto ao Criador.
Mais
tarde, já instalados na praia, ela foi deslocar-se para pegar alguma
coisa. Enquanto andava, tropeçou na areia e sofreu um tombo
cinematográfico.
Ela
levantou-se e, tentando consertar a dignidade acidentalmente perdida,
exclamou:
- Eu sabia! Esse tombo é castigo por eu não ter ido à missa hoje! Que Nossa Senhora Aparecida e meu Jesus me perdoem!
O compadre Valdir achegou-se e,
olhando cinicamente para ela, arrematou a questão:
- Dona Maria! Se Deus derrubasse todo aquele que não vai à missa nos finais de semana, eu não pararia em pé!!
Quem não parava mais em pé,
de tanto rir, passei a ser eu...