sábado, 22 de fevereiro de 2014

Cobrança divina dos pecados

COBRANÇA DIVINA DOS PECADOS



Este causo ocorreu em Guajará-Mirim, entre os anos de 1984 e 1985. Quem morava em Guajará, nada obstante as dificuldades daquela época (estradas ruins e energia elétrica com pavorosos racionamentos), vivia num paraíso.

No entorno de Guajará-Mirim há diversos igarapés e pequenos rios onde o pessoal ia nadar e passar o dia em lugares de estupefaciente natureza. Havia também o povo hospitaleiro – e festeiro! - e, principalmente, no verão, as belas praias do rio Pacaás Novos.

Nesta última opção de diversão, as pessoas alugavam barcos de porte médio e subiam o rio Mamoré, em direção à foz do rio Pacaás Novos.

Nesse local, onde as águas do Pacaás Novos desaguam no rio Mamoré, o espetáculo é muito bonito: as águas claras e límpidas do pequeno rio demoravam a misturar-se com as águas barrentas do Mamoré.

Pouco acima dessa maravilhosa separação de águas, onde pode-se soltar a imaginação torcendo pela vitória impossível das águas límpidas do Pacaás Novos, esse rio apresenta belas praias.

O banho ali é uma delícia, e as pessoas têm a única preocupação de evitar pisar numa raia (ou arraia), cujo ferrão pode ficar dolorosamente cravado no pé do incauto.

Quem pesca tem o trabalho de, tirando o peixe do anzol, jogá-lo para o pessoal que está na areia, para o seu devido preparo e fritura. Os mais carnívoros levam carnes e providenciam um churrasco.

Deu-se que, num sábado, subimos de barco para essas praias para passar o dia. O grupo era excepcionalmente grande, vez que vários amigos juntaram-se à nossa turma para o dia fluvial.

Minha turma, diga-se, era composta do meu impagável compadre Valdir e de outros amigos mais chegados.

Uma amiga querida, muito religiosa, naquele dia resolveu “descuidar-se” dos seus deveres de cristã e ir conosco. Mas, já dentro do barco e navegando em direção às praias, ela começou a lamentar-se, dizendo que estava falhando com seus deveres junto ao Criador.

Mais tarde, já instalados na praia, ela foi deslocar-se para pegar alguma coisa. Enquanto andava, tropeçou na areia e sofreu um tombo cinematográfico.

Ela levantou-se e, tentando consertar a dignidade acidentalmente perdida, exclamou:

  • Eu sabia! Esse tombo é castigo por eu não ter ido à missa hoje! Que Nossa Senhora Aparecida e meu Jesus me perdoem!

O compadre Valdir achegou-se e, olhando cinicamente para ela, arrematou a questão:

  • Dona Maria! Se Deus derrubasse todo aquele que não vai à missa nos finais de semana, eu não pararia em pé!!

Quem não parava mais em pé, de tanto rir, passei a ser eu...







terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Um matador implacável

UM MATADOR IMPLACÁVEL



Nos meus anos de Rondônia, fiz algumas amizades sólidas, daquelas que costumam nascer entre pessoas que enfrentam dificuldades no dia a dia. Era o caso de Rondônia, no início dos anos 1980, época em que trabalhar implicava também em driblar dificuldades de toda ordem.

As estradas eram péssimas e, no período das chuvas (de novembro a abril), intransitáveis. Telefonia era muito precária. O fornecimento de energia elétrica muito inconstante agregava (agregava é bastante aplicável ao caso) um sofrimento a mais.

Afinal, Promotores e Juízes tínhamos que, para exercer nosso ofício, estar devidamente vestidos (melhor seria dizer embalados) de terno e gravata. Sem energia elétrica, calor amazônico...

No meu caso específico, os amigos mais próximos eram os juízes com quem eu trabalhava todos os dias. Com todos os magistrados com quem eu atuei como Promotor de Justiça fiz amizades fraternas e duradouras.

Dividíamos responsabilidades na função de distribuir Justiça, assim como partilhávamos os temores – era uma terra, à época, cheia de bandidos -, as dificuldades com as acomodações da família e filhos, bem como os sucessos advindos de nossa atuação.

Se estávamos juntos nas horas de labor, também o fazíamos nas horas de descanso, na diversão e nas aventuras.

Se Rondônia era dificultosa pela precariedade dos confortos da vida moderna, não menos verdade é dizer-se que era também uma coisa linda de se ver! A Amazônia, naquela época, ainda estava praticamente intocada, e a natureza era exuberante.

Deu-se que, certo dia, nós nos aventuramos numa pescaria no rio Pacaás Novos, com duração de uns três dias. Companheiro constante, comigo estava um dos juízes da bela Guajará-Mirim, amizade essa que dura até hoje, até porque nos tratamos como se irmãos fôssemos.

Durante a pescaria, saímos numa noite escura para tentar fisgar algum peixe, enquanto deixávamos o barco de bubuia (o barco fica sem tração do motor de popa, descendo o rio junto com a correnteza).

De quando em vez, alguém focava a lanterna na margem do rio e dizia: “Olha lá o tamanho do jacaré!”. Na verdade, viam-se apenas os olhos do jacaré, calculando-se o tamanho do bruto pela distância entre eles.

Mas o juiz em questão era desses que usava uns óculos de grau forte, e sem os quais tornava-se uma verdadeira toupeira, cego de dar dó.

E, a cada vez que alguém apontava o farolete e anunciava a presença do jacaré, ele reclamava, pois não tinha visto nada. Nós tentávamos explicar-lhe que os olhos pareciam duas bitucas de cigarro acesas, que brilhavam refletindo a luz da lanterna. Nada de ele ver o réptil.

Por mais que chegássemos perto do jacaré, ele continuava a dizer que nada vira.

Em razão disso, aproximamos mais o barco da margem onde o jacaré estava e focamos a lanterna diretamente sobre a cabeça do jacaré.

  • Agora não é possível que você não veja! O jacaré está bem aqui!

A reação do juiz deixou-nos, a todos, atordoados. Ele costumava levar nessas pescarias um enorme revólver Magnum, cano longo, calibre 38, um verdadeiro canhão.

Pois ele apontou o revólver para onde a lanterna estava focando e disparou, rapidamente e em sequência, três tiros.

Vocês podem imaginar o barulhão que os disparos disseminaram, no rio e na floresta. Penso até que, como estávamos próximos à fronteira com a Bolívia, los hermanos acharam que estavam sendo atacados pelo Brasil.

Tentando recuperar-me do susto e com os ouvidos ainda sofrendo com o barulho das três detonações do “canhão”, virei-me para ele e perguntei, triunfalmente:

  • Bem, agora parece evidente que você viu o jacaré, né? Nós dissemos que ele estava lá. Viu?

A resposta dele assustou-me mais que os tiros no rio silencioso:

  • Vi nada, sô. Eu atirei foi na luz!

Eu concluí que ele errou o mundo, pois o jacaré, ainda sem que o juiz o visse, afundou calmamente e desapareceu nas águas do rio.

Finalizando, para que ninguém pense mal dos dotes visuais do meu amigo magistrado, e potencial assassino de luz de lanterna, alguns dias depois ele entendeu o “espírito da coisa” e conseguiu ver os olhos do jacaré, bem como o resto do corpo do dito cujo.

Se não fosse como irmão meu, essa eu não contava aqui...






segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A vida é um sopro

A VIDA É UM SOPRO...



Vou contar, aqui, um acontecimento mais recente, já na condição de aposentado do Ministério Público. Faço isso mais como uma homenagem a uma pessoa que, bem-humorada e de bem com a vida, dela partiu por causa de eventos inusuais.

Logo que adquiri minha casa da Pousada do Paranapanema, localizada no município de Santo Inácio, tratei de comprar um barco destinado ao lazer e às minhas pescarias e da incomparável Zilda.

Cauteloso, antes de colocar o meu barco para navegar no belo rio Paranapanema, procurei alguém que conhecesse o rio e seus mistérios, para me ensinar as armadilhas que – acreditem – todo rio tem.

Quando o meu “professor” do rio chegou, na manhã em que iríamos ser apresentados ao rio, ele se identificou como sendo o Baixinho.

Navegamos, Zilda, ele e eu por umas três horas, enquanto eu procurava memorizar os pontos problemáticos do rio Paranapanema.

Terminado o passeio fluvial, paguei ao Baixinho por seus serviços e perguntei o nome dele, pois não gosto de chamar ninguém pelo apelido.

Ele não disse. Afirmou que todo mundo o conhecia como Baixinho e que, se eu perguntasse por ele pelo nome de batismo, ninguém saberia dizer quem era. Se era esse o seu desejo, não seria eu a contrariá-lo.

Ao longo do tempo, fizemos outros passeios e pescarias no rio, sempre com ele sendo prestativo e atencioso.

Mas, o destino...

Certo dia, no ano de 2012, eu fui para a minha casa na Pousada a bordo de um carro novo, “zero” quilômetro”, todo pimpão com a novidade (pobre é assim mesmo...).

Logo depois que cheguei, o Baixinho apareceu, com sua moto, e veio conversar comigo. Desmoralizou, logo de saída, meu carro novo:

  • E aí, seu Osmar, carro bem reformadinho, hein?
Relevei a inoportuna agressão às minhas vaidades automobilísticas e, como tinha pouco antes ido, numa viagem, à Bolívia, o presenteei com uma carretilha nova em folha. Pescador inveterado, ele ficou felicíssimo.

A minha esposa, sabedora dos meus nulos conhecimentos práticos, logo pediu ao Baixinho que a ajudasse a montar um dos móveis da casa. Gente boa, ele não rejeitou o trabalho e logo resolveu a “coisa” que, para minhas inábeis mãos, levaria décadas.

Em seguida, eu perguntei-lhe se não poderíamos ir pescar um pouco naquela tarde, pois eu queria conhecer novos pesqueiros.

Pescaria o Baixinho não recusava de jeito nenhum. Assim, logo começamos a aprontar meu barco e separar a tralha de pesca, ficando tudo prontinho. Como era quase hora do almoço, ele disse-me que iria almoçar com a sua esposa e que, logo após, nós sairíamos para a pesca.

Passaram-se dez, quinze minutos, depois da saída do Baixinho e apareceu um sujeito, de moto, perguntando se era eu quem iria pescar com ele.

Eu respondi afirmativamente, é claro. O sujeito falou-me:

  • Olha, o Baixinho pediu para avisar o senhor que ele não vai poder mais ir pescar, pois ele caiu da moto e vai ter que ir ao Hospital.
Incontinenti, peguei meu carro novo, que o Baixinho desqualificara pouco antes, e sai atrás do motoqueiro, pois pretendia levar o acidentado ao Hospital com meu carro que, apesar de bem reformado, é grande e espaçoso.

Chegando ao local, ofereci-me para levá-lo ao Hospital, mas ele recusou, dizendo que, como tinha problemas na coluna cervical, esse tipo de transporte improvisado poderia prejudicá-lo ainda mais.

Assim, procurando ser solidário, aguardei junto com ele, que estava deitado no chão e com dores, até que a ambulância chegasse.

Depois de uma meia hora, esta chegou. Cuidadosamente colocamos o Baixinho na maca e o instalamos dentro da ambulância.

Como eu gostava muito do Baixinho, pouco antes de o motorista da ambulância fechar as portas do carro eu dei-lhe um tapinha nos ombros e disse-lhe para ficar tranquilo, e que tudo daria certo.

Palavras nada proféticas...

Como a pescaria estava cancelada, almocei tranquilamente, com direito à sesta depois.

Depois de acordado, sai para dar uma volta pelo lugar e encontrei uns funcionários do Condomínio, que me perguntaram:

  • O senhor soube do Baixinho?

Eu respondi que sabia, sim, pois eu até o ajudara a embarcar na ambulância. Para minha surpresa, eles disseram:

  • Não, então o senhor não sabe. Ele morreu.

Pois não é que a ambulância, velha demais, típica do desprezo dos políticos brasileiros depois do momento eleitoral, e com pneus “carecas”, teve um deles estourado na viagem e, capotando, causou no Baixinho ferimentos que o mataram?

Chocado, triste, somente me restou aguardar a chegada do corpo do Baixinho na cidade de Santo Inácio, onde seria velado e enterrado.

No dia seguinte, ao ir ao velório, finalmente descobri o nome do Baixinho: era Clodoaldo.

Como eu disse no título, a vida é um sopro...





quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Tempos pré-internet e DNA

TEMPOS PRÉ-INTERNET E DNA



Hoje, nesses tempos bicudos, quando está em evidência o matadouro patrocinado pelos Sarney lá no Maranhão, é até fácil prender criminosos. O problema é que faltam cadeias.

Na década de 1980, o meio de comunicação mais moderno que havia era o telex, uma máquina grande e feia, dotada de um teclado enorme.

Assim, prender criminosos que fugiam para outras paragens do País era muito mais difícil, pois também era muito fácil obter-se novos documentos nos vários Estados do Brasil.

Para novo nome e novos documentos, bastava dizer que não tinha sido registrado pelos pais e, com alguma manha, obtinha-se uma certidão de nascimento novinha em folha, com um outro nome e filiação.

Por causa disso, uma vez tive que ajudar a prender um homicida lá do Mato Grosso quase que no “laço”.

O caso deu-se quando eu era Promotor de Justiça em Guajará-Mirim, a “Pérola do Mamoré”.

Havia, no comércio local, uma excelente padaria, com uma clientela bastante razoável para cidade pequena.

Certo dia, compareceu na Delegacia de Polícia a mulher do dono dessa padaria, reclamando que havia levado uma surra do marido (naquele tempo não tinha esse negócio de Lei Maria da Penha) e que, por isso, queria delatá-lo.

Ela narrou que, quando moravam em Rondonópolis, seu marido, usando o nome verdadeiro, havia matado a tiros um oficial de Justiça. Ela contou que, enquanto o processo caminhava no Fórum, o marido fugiu para Goiás, obteve novos documentos e acabou instalado em Guajará-Mirim.

Como o negócio comercial ia bem, ele quase havia esquecido a vida anterior, encerrada bruscamente com o episódio do homicídio.

Como eu dizia, se naquele tempo não havia ainda a Lei Maria da Penha, temos que levar em conta que mulher espancada e com raiva é pior do que dormir com uma cobra cascavel dentro de casa.

Pois ela foi à Polícia e contou tudo para o Delegado. O Delegado passou o problema para mim, pois não tínhamos como provar que o à época comerciante de sucesso era o homicida de Rondonópolis. Sem isso, a prisão não seria possível.

Fiz um contato com o Promotor de Justiça de Rondonópolis, que era meu conhecido, e contei-lhe tudo. Ele, corretamente, disse-me que somente com uma planilha datiloscópica contendo a impressão digital de todos os dedos das mãos do sujeito ele poderia confirmar a acusação feita pela mulher do espancador.

Mas, como obter as impressões digitais do comerciante sem afugentá-lo?

A chance apareceu quando o sujeito, na condição de comerciante, praticou um crime de pouca gravidade, crime esse contra o consumidor.

O Delegado de Polícia não perdeu a chance.

Foi até a padaria e prendeu em flagrante o seu dono, levando-o para a Delegacia e... colheu as impressões digitais dele.

Seria, guardadas as proporções do crime (o praticado contra o consumidor), como se alguém avançasse um sinal vermelho nas ruas da cidade e o BOPE, ou a ROTA, fossem chamados para prender o motorista.

O sujeito pagou fiança, foi solto e ficou tranquilo, sem sequer imaginar a “dedurada” que sua esposa espancada havia cometido.

Esses fatos ocorreram no ano de 1985, e vocês podem imaginar a dificuldade de enviar a planilha datiloscópica de Guajará-Mirim para Rondonópolis. Se fosse hoje, com tudo digitalizado, seriam segundos. Na época, levou muito tempo.

Demorou, mas o Fórum de Rondonópolis recebeu a planilha e confirmou que era ele mesmo o assassino do oficial de Justiça.

Finalizando, o comerciante foi preso e enviado para a cidade onde cometeu o homicídio, sendo condenado e mandado para a penitenciária.

Tudo ficou mais fácil dentro dessa dificuldade toda (Êpa!, temos aqui um paradoxo, facilidade versus dificuldade) porque eu havia feito amizade com o Promotor do Mato Grosso, o que facilitou a nossa conversa, e o fato de que, se você é um corajoso marido que bate na esposa, deve evitar cometer crimes por aí...

Não nos esqueçamos de que hoje em dia, com o exame de DNA, um simples fio de cabelo do criminoso na cena do crime e um outro fio obtido na pia da casa onde ele se esconde, bastaria para identificá-lo e prendê-lo.

Hoje em dia, com a explosão da informática e dos meios de comunicação, contraposta com a involução dos meios das Polícias, você comete o crime – qualquer crime -, tira sarro da cara dos policiais que o prenderam e do Delegado, sai da cadeia em tempo recorde e vai gozar a vida.

Alguns até conseguem fazer uma “vaquinha” para pagar as multas e despesas do processo criminal...






terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Escapando da vassourada

ESCAPANDO DA VASSOURA



Vou contar um “causo” do meu início de carreira, nos idos de 1984, bem curtinho como gostam alguns leitores.

Certo dia, saindo do Fórum para almoçar, eu dirigia-me até o restaurante. Andando junto comigo, ia um advogado, um sujeito já idoso, que também acabara de sair de uma audiência.

Não me lembro do nome desse advogado (e, se soubesse, não o diria aqui, por política do blog), mas era um desses nomes estranhos, estrambóticos, como Deuzêncio, Eulâmpio ou, no caso feminino, Holofontina.

Nós íamos conversando normalmente enquanto caminhávamos, mas, quando chegamos em certo trecho da rua, vi que ele ficou mais atento ao que nos cercava.

Logo mais adiante eu fiquei sabendo a razão daquela prudência inesperada do advogado.

Já mais próximo do restaurante, o advogado despediu-se rapidamente de mim e, andando muito rapidamente, cruzou a rua e sumiu numa transversal.

É que ele vira uma mulher, ao vê-lo passando, entrar correndo dentro de casa.

Só vi quando a mulher saiu na rua, munida de uma vassoura, gritando:

  • Cadê aquele cachorro que andou com conversinhas com minha filha? Cadê o safado?

Fiquei sabendo depois, ao comentar o ocorrido no Fórum, que o sujeito tentara “passar uma cantada” numa filha menor de idade daquela mulher, que prometeu pegá-lo de vassouradas.

Quase conseguiu...




domingo, 22 de dezembro de 2013

No esquecimento, não!

NO ESQUECIMENTO, NÃO!


Algumas coisas não podem cair no esquecimento, tal como aquele colega cheio de manhas que narrei no “causo” anterior.

Por isso, lembrei-me de uma pescaria inolvidável, menos pelos peixes fisgados e mais pelos vários acontecimentos de um período passado junto com bons amigos e no meio ambiente mais propício para se relaxar das tensões do trabalho: um rio.

Em meados da década de 1990, diante de um feriadão prolongado, alguns colegas Promotores de Justiça tivemos a ideia de aproveitar a folga no trabalho para fazermos uma pescaria no Rio Machado.

Para tanto, faríamos uma longa descida rio Madeira abaixo até chegarmos a uma localidade de nome Calama, situada exatamente defronte onde as águas do rio Machado deságuam no rio Madeira.

Éramos uns doze pescadores amadores, que, a rigor, não apresentavam grandes riscos para a fauna dos rios daquela região.

Começamos pelo óbvio: o planejamento. Este envolvia fretar um barco de dimensões médias, com capacidade para armarmos nossas redes de dormir no convés, além de cozinha e instalações sanitárias.

Além disso, teríamos que planejar as compras de mantimentos a serem levados para aquele curto período de cinco dias: carnes, aperitivos, cereais, etc, não podendo ser olvidada a importantíssima cerveja.

Os petiscos (azeitonas, salames e outras guloseimas) seriam destinados a, nas noites que passaríamos a bordo, instalados confortavelmente no convés superior do barco, podermos “colocar a conversa em dia” tomando uma cerveja gelada. Isso tudo regado à agradabilíssima brisa que sopra no rio enquanto navegávamos.

Dias antes da aventura piscatória, nos reunimos para checar a lista de gastos e ultimarmos as providências.

A lista de compras estava bastante bem discriminada, contendo carnes (costelas de boi, linguiças, picanhas, etc), o arroz e feijão tão básico para nós brasileiros e muita, mas muita mesmo, cerveja.

Nesta reunião antes da partida, decidimos que cada qual levaria o próprio equipamento de segurança, ou seja, o colete salva-vidas, para evitar que dependêssemos apenas dos fornecidos pelo dono do barco.

Essa decisão teve graves consequências para um funcionário de uma loja de Caça & Pesca, atormentado que foi por um dos colegas quando da escolha do colete salva-vidas, “causo” que já contei aqui no blog.

Ocorre que a lista de compras e providências necessárias para o período embarcados finalizava com um item pitoresco: “passagem marítima”!

Após uma rápida pesquisa no Google, confirmamos que o rio Madeira era isso mesmo, ou seja, um rio. Como, então, “passagem marítima”?

Reunidos os doutos e jurídicos pescadores-promotores, refizemos a denominação a ser dada ao pagamento dos serviços do dono do barco onde viajaríamos, chegando à impecável renomeação para “passagem fluvial”!


Resolvido tudo, embarcamos em Porto Velho e começamos a descer o rio Madeira. Para curtir aquele fim de tarde e o começo da noite, subimos todos ao deck superior da embarcação.

Todos sentados e curtindo a brisa do rio, começamos a tomar cerveja e a bater papo. Tudo parecia tranquilo e as horas passavam calmas, mas nós havíamos deixado ao acaso um importante evento ligado à navegação, e a tragédia se avizinhava.

A tragédia tomou, depois de ocorrida, o nome de sopão.

Junto conosco, havíamos levado um competente cozinheiro, que providenciaria ótimas comidas a bordo. Entretanto, como demorássemos a pedir o jantar, o cozinheiro ficou tranquilo em seu canto.

Para nossa surpresa, quando mais animado rolava o papo regado a cerveja, subiu até nós o cozinheiro “oficial” do barco e anunciou:

  • Pessoal, “a janta” está pronta, e eu fiz um sopão que dá para todo mundo”.

Uai, pensamos todos, não estava previsto que não seria o barco que providenciaria as comidas? Que surpresa era aquela?

Descemos ao deck inferior, onde estava servido o jantar. Lá estava um enorme caldeirão fumegante.

O sopão, ou melhor, a tragédia, era uma gororoba impensável – e incomível!

Todo orgulhoso, o cozinheiro, mexendo uma concha dentro do sopão, mostrou-nos os ingredientes que utilizara. O desinfeliz picara em quadradinhos os filet mignon que trouxéramos, ajuntara macarrões os mais diversos, salames fatiados, alguns tomates e, cereja do bolo, acrescentara as azeitonas destinadas a ser o “tira gosto das nossas cervejas.

O gosto daquilo era inenarrável! Uma tragédia!


O jantar daquele primeiro e glorioso dia foi pão com manteiga.

A pescaria envolveu, como é óbvio, muita pescaria, cercada esta última pelos jogos de truco e as piadinhas elegantes e requintadas que costumeiramente são contadas dentro um grupo de vários homens.

Fizemos uma ligeira parada na belíssima e curiosa cidade de Calama, situada na margem direita do rio Madeira, com uma população de mais ou menos 2.500 pessoas. Detalhe, as ruas de Calama são estreitas e gramadas, pois lá não tem veículos automotores. Uma tranquilidade.

Naquela bucólica cidadezinha o barco pernoitou, pois estava planejado que, de lá, iríamos iniciar o retorno a Porto Velho.

A viagem de ida para o local da pesca envolveu uma viagem de dez horas, praticamente um pernoite nas redes armadas no barco. Mas a viagem de retorno, agora enfrentando a forte correnteza do rio Madeira, duraria mais de quinze horas.

Durante aquele longo navegar, percebi que um dos colegas Promotores estava debruçado na amurada da embarcação, olhando pensativo as margens do belo Madeira.

Acerquei-me também da amurada e, quando ele percebeu minha presença, expôs-me seus profundos pensamentos:

  • Você sabia que técnicos altamente qualificados vindos do Japão para estudar a nossa Amazônia divulgaram, recentemente, uma surpreendente conclusão?

Olhei para ele com um ar inquisidor, razão pela qual o colega esclareceu-me:

  • Após exaustivos estudos e entrevistas com a população local, os cientistas japoneses concluíram que aqui está um percentual nunca alcançado na história da humanidade, ou seja, incríveis 100%! O relatório final deles demonstrou que 100% das pessoas que vivem nas margens do Rio Madeira são ribeirinhos!

Confesso que quase cheguei às lágrimas. Eu ali, relapso que sou, preocupado apenas com assuntos de pescaria. E aquele colega Promotor, não obstante estar num período de folga, dedicava-se a mergulhar, estudiosamente, nos mistérios da bela e selvagem Amazônia, ligando-os aos desígnios insondáveis da matemática.


Um portento!

Era um gênio, mas foi reprovado

ERA UM GÊNIO, MAS FOI REPROVADO


Existe uma teoria dos freios e contrapesos, desenvolvida para demonstrar como devem relacionar-se os poderes do Estado.

Nós temos, como é sabido, os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário. Segundo a tal teoria, eles devem ser independentes e harmônicos entre si. Como cada um desses poderes do Estado é autônomo, eles podem exercer algum controle um sobre o outro.

O principal teorizador sobre essa harmonia e independência dos poderes na organização do Estado foi Charles-Louis de Secondat (16/01/1689 a 10/02/1755), o barão de La Brède e de Montesquieu, nome pelo qual ficou mais conhecido.

Como este blog é também cultura (mas nem tanto), vamos logo ao “causo” que se relaciona com os pensamentos de Montesquieu.

Na década de 1980 estava acontecendo em Porto Velho um concurso para a contratação de novos Promotores de Justiça. Eu, já na carreira, era um dos fiscais, ajudando na organização da aplicação das provas.

Numa das provas, o examinador elaborou uma pergunta com o seguinte teor: No que consiste a teoria dos freios e contrapesos?

Quando contaram-me sobre a resposta que fora dada por um dos candidatos, não acreditei.

Como São Thomé, entrei disfarçadamente na sala de provas e cheguei próximo à carteira onde o candidato em questão demonstrava seus saberes jurídicos.

Lá estava, com todas as letras:

  • A teoria dos freios e contrapesos consiste exatamente na fiscalização exercida pelo DNPM, o Departamento Nacional de Pesos e Medidas.


Como costumam dizer por aí, a resposta foi na lata.