quinta-feira, 15 de junho de 2017

O tempo passa, mas...

O TEMPO PASSA, MAS...


Contrariando minha política de jamais citar nomes neste blog, vou fazer isso (contrariá-la) porque o objetivo destes escritos é preservar a memória dos primeiros anos do Ministério Público de Rondônia.

E quem os viveu não pode esquecer o nome de Getúlio Nicolau Santore. Eu encontrei essa figuraça na sua primeira comarca, Colorado do Oeste (sul de Rondônia), quando estava eu a caminho da minha primeira comarca, Cerejeiras.

A viagem, saindo de Vilhena numa viatura da Polícia Federal, não foi porque eu estava preso – sina inapelável de muitos de nossos luminares da política -, e sim por uma deferência do Delegado da PF daquela cidade.

A opção, viajar de ônibus, era uma incerteza total, dado o estado barrento dos 120 quilômetros que separam as duas cidades. Assim, como o Delegado e os agentes da Polícia Federal tinham que cumprir algumas diligências em Cerejeiras, ofereceram-me carona numa camionete Chevrolet adequada para estradas de terra em tempos de chuva.

Isso ficou evidente quando a camionete da PF cedeu à natureza: atolou em meio ao barro e ficamos cercados por enormes poças d'água.

Por sorte, logo apareceu um jipe Toyota de um banco (lembram-se do Bamerindus?) que nos tirou, facilmente, do atoleiro, provando que a tecnologia automobilística dos japoneses era superior à nossa até mesmo no inverno amazônico.

Depois de 80 quilômetros, chegamos a Colorado do Oeste. Fomos direto ao Fórum, onde procurei o Promotor de Justiça Getúlio Nicolau Santore (que eu não conhecia). Apresentei-me.

Ele, olhar desconfiado, mandou-me sentar e disse que somente sairíamos em direção a Cerejeiras após o almoço, que seria em sua casa.

Para meu espanto, disse-me para ficar longe do bar de sua casa, pois havia ouvido calúnias (verdadeiras, diga-se) sobre a minha intimidade com o uísque.

Diante do meu pasmo, avisou-me que já fora informado de minha expertise por um outro Promotor de Justiça que merece ter sua história contada, o Luiz Eduardo Custódio, que era o titular da comarca de Vilhena.

Logo fomos para a casa do Getúlio, pois, embora saindo de Vilhena às sete horas da manhã, levamos quase cinco horas para vencer os primeiros 80 quilômetros de trilha, pois outro nome não se podia dar às estradas de então.

Na casa dele, pude conhecer outra figura maravilhosa, a sua esposa Ana que, embora nunca tivesse me visto, pelo simples fato de ser colega de trabalho do marido, tratou-me com uma atenção e carinhos que só podiam ser encontrados na Rondônia de antanho (1983).

Getúlio, para nosso almoço, foi ao freezer e tirou um pedaço de costela de boi congelada. Eu, com meus botões, pensei esse almoço vai sair é nunca!.

Nunca entendi como ele fez aquilo, mas pouco mais de meia hora depois Getúlio e Ana serviram um belo almoço, com uma mais bela ainda costela assada.

Depois dessa recepção, e já trabalhando na comarca de Cerejeiras, iniciei uma longa amizade com Getúlio e Ana.

Como Cerejeiras somente tinha energia elétrica das 17:00 horas à meia-noite e apenas um posto telefônico com filas homéricas (não sei o que têm a ver com filas o grego Homero e a Ilíada...), quando dava tempo e o barro permitia, eu os visitava em Colorado do Oeste para filar boia e curtir um pouco a civilização moderna, com luz nas 24 horas do dia e telefone à disposição.

Getúlio, Ana e Luiz Custódio não estão mais entre nós, mas suas vidas e trabalho em Rondônia deixaram marcas nas vidas dos que os conheceram.

Fica aqui minha singela homenagem.



4 comentários:

  1. Boa tarde, meu nome e Luiz Eduardo de Sant'Ana Custodio, filho do Promotor Luiz Eduardo Custodio. Gostei muito da lembrança, tive o prazer de conhecer Rondônia nestes tempos. Um grande abraço

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    1. Está nos meus planos contar a história da inserção do Ministério Público de Rondônia na primeira Constituição Estadual, onde a Instituição saiu muito fortalecida. Seu pai, o saudoso Luiz Eduardo Custódio, teve uma atuação simplesmente magnífica junto aos Deputados Estaduais. Esse pode todo que os MPs têm hoje é fruto de uma semente plantada pelo seu pai e pelo marcante Ibrahimar Andrade da Rocha.

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    2. Bom dia. Me recordo, de meu pai contar as diversas e infindáveis tratativas na para Constituição Estadual, realmente foi uma grande vitória. Me lembro do Dr. Ibrahimar, Dr. Badra, Dra. Analia (ex-esposa de meu pai)pela qual tenha grande respeito e consideração. Vai ser muito interessante contar esta grande historia. Um grande abraço

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  2. Puxa ZELÃO, só assim tive algum contato com meu enteado Luizinho.pelo menos sei que ele não se desligou da lembrança do pai. Beijos , Ana LIA e Ilka.

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