terça-feira, 4 de junho de 2019

Esperança frustrada (para cima)


ESPERANÇA FRUSTRADA (PARA CIMA)


Dia desses, conversando com um amigo, contei-lhe um fato, ocorrido no passado já longínquo, e que eu já havia relatado para vários outros amigos, em conversas informais.

Meu nível de inteligência é, para dizer pouco, bastante limitado. Digamos que, se o mundo dependesse da minha genialidade (!) ou criatividade, não teríamos hoje os celulares e as torrenciais mensagens de Whatsapp.

Estaríamos hoje, com certeza, trocando mensagens via rufar de tambores, como faziam os índios norteamericanos nos filmes de faroeste.

Mas, a despeito do excesso de falta de inteligência (vamos de oxímoro?), lembrei-me de contar sobre esse fato aqui no Blog, o local adequado para isso. Como eu disse, eu demoro, mas acabo fazendo o certo...

Mas vamos lá. Só há dois personagens neste causo, e um deles é o meu pai, que mostrou-me, de uma maneira incrível – quase insólita -, como age um homem que trata seus filhos de uma maneira que só causa admiração.

No início dos anos 1970, eu acabara de completar 18 anos de idade quando um dia meu pai me chama para ir junto com ele a uma agência Volkwagen de Maringá. Disse ele:

  • Quero que você me ajude a escolher a cor e os acessórios, pois vou comprar um Fusca 1500.

Concordei na hora, pois jovem gosta de dar palpite nas coisas que os mais velhos fazem (não somos todos muito espertos nessa faixa etária?).

Fomos a uma agência hoje inexistente, a Dama, para que o velho Araujo fizesse a sua compra assessorado pelo melhor especialista existente (eu).

Logo de cara, vi que meu pai não ia fazer o de costume; dar o fusca velho como parte do pagamento do carro novo.

Uma centelha de esperança começou a nascer em mim, pois cruzou minha mente o pensamento de que talvez, somente talvez, o fusca usado fosse passado para mim.

Assim, escolhida a cor (verde, não havia muitas opções, como hoje), meu pai foi consultando-me sobre o som (acho que era um rádio, pois na época um toca-fitas era coisa para multimilionário...), os tapetes, o enfeite no parachoque, etc.
Tudo acertado, voltamos para casa, tendo combinado voltar para pegar o carro novo depois de instalados os acessórios.

Nesse tempo todo, eu ali, firme, sendo consumido pela esperança de colocar minhas garras num fusca. Naqueles tempos, um jovem, na faixa dos dezoito anos, ter um carro era tudo, era o máximo.

O velho, parecendo que queria ver-me derreter na dúvida, nada falou a respeito da destinação do fusquinha velho. Mas a esperança...

Quando retornamos à agência para retirar o carrão (sim o Fusca 1500 era um carrão!), minha expectativa era total, mas fiquei quieto, igualzinho a cachorro de rua defronte à máquina de assar frangos.

Meu pai pegou as chaves do carro novo e chamou-me para sairmos da agência. Já na calçada, ele estendeu-me as chaves do carro zerinho e disse-me:

  • Pega o teu carro.

Enquanto eu caía para dentro do meu próprio espanto, ele explicou-me, como se fosse a coisa mais normal deste mundo, que o carro dele estava muito bom, e que ele queria continuar com o fusca usado.

Eu resolvi contar esse causo no blog por dois motivos.

O primeiro deles é para demonstrar, bem de leve, só mostrando uma pontinha do homem generoso que era o José de Araujo (sem acento no u, exigia ele), com total desapego a bens materiais e totalmente dedicado ao bem estar dos filhos.

O segundo motivo, devo confessar, é um motivo egoísta. Ao contar esse causo, eu mostro aos meus próprios filhos que, por mais que eu me esforce, jamais conseguirei ser um pai para eles à altura do que o meu pai foi para mim.

Pai, você tem uma estátua, em sua homenagem, dentro do meu cérebro.

3 comentários:

  1. Tal o pai tal o filho !

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  2. EMOCIONANTE!
    PARABÉNS PELO PAI! GOSTAVA MUITO DELE!

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  3. Realmente Zé Araujo foi um homem que plantou a vida toda a semente do bem ����������

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