TEMPOS
PRÉ-INTERNET E DNA
Hoje, nesses tempos bicudos,
quando está em evidência o matadouro patrocinado pelos Sarney lá
no Maranhão, é até fácil prender criminosos. O problema é que
faltam cadeias.
Na década de 1980, o meio de
comunicação mais moderno que havia era o telex, uma máquina grande
e feia, dotada de um teclado enorme.
Assim, prender criminosos que
fugiam para outras paragens do País era muito mais difícil, pois
também era muito fácil obter-se novos documentos nos vários
Estados do Brasil.
Para novo nome e novos
documentos, bastava dizer que não tinha sido registrado pelos pais
e, com alguma manha, obtinha-se uma certidão de nascimento novinha
em folha, com um outro nome e filiação.
Por causa disso, uma vez tive
que ajudar a prender um homicida lá do Mato Grosso quase que no
“laço”.
O caso deu-se quando eu era
Promotor de Justiça em Guajará-Mirim, a “Pérola do Mamoré”.
Havia, no comércio local, uma
excelente padaria, com uma clientela bastante razoável para cidade
pequena.
Certo dia, compareceu na
Delegacia de Polícia a mulher do dono dessa padaria, reclamando que
havia levado uma surra do marido (naquele tempo não tinha esse
negócio de Lei Maria da Penha) e que, por isso, queria delatá-lo.
Ela narrou que, quando moravam
em Rondonópolis, seu marido, usando o nome verdadeiro, havia matado
a tiros um oficial de Justiça. Ela contou que, enquanto o processo
caminhava no Fórum, o marido fugiu para Goiás, obteve novos
documentos e acabou instalado em Guajará-Mirim.
Como o negócio comercial ia
bem, ele quase havia esquecido a vida anterior, encerrada bruscamente
com o episódio do homicídio.
Como eu dizia, se naquele tempo
não havia ainda a Lei Maria da Penha, temos que levar em conta que
mulher espancada e com raiva é pior do que dormir com uma cobra
cascavel dentro de casa.
Pois ela foi à Polícia e
contou tudo para o Delegado. O Delegado passou o problema para mim,
pois não tínhamos como provar que o à época comerciante de
sucesso era o homicida de Rondonópolis. Sem isso, a prisão não
seria possível.
Fiz um contato com o Promotor
de Justiça de Rondonópolis, que era meu conhecido, e contei-lhe
tudo. Ele, corretamente, disse-me que somente com uma planilha
datiloscópica contendo a impressão digital de todos os dedos das
mãos do sujeito ele poderia confirmar a acusação feita pela mulher
do espancador.
Mas, como obter as impressões
digitais do comerciante sem afugentá-lo?
A chance apareceu quando o
sujeito, na condição de comerciante, praticou um crime de pouca
gravidade, crime esse contra o consumidor.
O Delegado de Polícia não
perdeu a chance.
Foi até a padaria e prendeu em
flagrante o seu dono, levando-o para a Delegacia e... colheu as
impressões digitais dele.
Seria, guardadas as proporções
do crime (o praticado contra o consumidor), como se alguém avançasse
um sinal vermelho nas ruas da cidade e o BOPE, ou a ROTA, fossem
chamados para prender o motorista.
O sujeito pagou fiança, foi
solto e ficou tranquilo, sem sequer imaginar a “dedurada” que sua
esposa espancada havia cometido.
Esses fatos ocorreram no ano de
1985, e vocês podem imaginar a dificuldade de enviar a planilha
datiloscópica de Guajará-Mirim para Rondonópolis. Se fosse hoje,
com tudo digitalizado, seriam segundos. Na época, levou muito tempo.
Demorou, mas o Fórum de
Rondonópolis recebeu a planilha e confirmou que era ele mesmo o
assassino do oficial de Justiça.
Finalizando, o comerciante foi
preso e enviado para a cidade onde cometeu o homicídio, sendo
condenado e mandado para a penitenciária.
Tudo ficou mais fácil dentro
dessa dificuldade toda (Êpa!, temos aqui um paradoxo, facilidade
versus dificuldade) porque eu
havia feito amizade com o Promotor do Mato Grosso, o que facilitou a
nossa conversa, e o fato de que, se você é um corajoso marido que
bate na esposa, deve evitar cometer crimes por aí...
Não
nos esqueçamos de que hoje em dia, com o exame de DNA, um simples
fio de cabelo do criminoso na cena do crime e um outro fio obtido na
pia da casa onde ele se esconde, bastaria para identificá-lo e
prendê-lo.
Hoje
em dia, com a explosão da informática e dos meios de comunicação,
contraposta com a involução dos meios das Polícias, você comete o
crime – qualquer crime -, tira sarro da cara dos policiais que o
prenderam e do Delegado, sai da cadeia em tempo recorde e vai gozar a
vida.
Alguns
até conseguem fazer uma “vaquinha” para pagar as multas e
despesas do processo criminal...
Eu ia morrer doida e não sabia...kkkkkkkkkkk Agora entendo porque meus comentários nunca chegaram ao seu conhecimento. Só tem uma vantagem: a certeza de que você aprendeu a lidar com esta máquina de fazer doido bem mais rápido do que a "madrinha". E, por favor, continue com seus " causos", curtos ou longos, pois são uma leitura deliciosa. Sua eterna fã Ana Lia Martins.
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirTer uma leitora com os dotes intelectuais da minha madrinha Ana Lia Martins é de envaidecer qualquer um. Tomara que minha inspiração e minha memória continuem a me ajudar a escavar no passado esses causos
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