quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Tempos pré-internet e DNA

TEMPOS PRÉ-INTERNET E DNA



Hoje, nesses tempos bicudos, quando está em evidência o matadouro patrocinado pelos Sarney lá no Maranhão, é até fácil prender criminosos. O problema é que faltam cadeias.

Na década de 1980, o meio de comunicação mais moderno que havia era o telex, uma máquina grande e feia, dotada de um teclado enorme.

Assim, prender criminosos que fugiam para outras paragens do País era muito mais difícil, pois também era muito fácil obter-se novos documentos nos vários Estados do Brasil.

Para novo nome e novos documentos, bastava dizer que não tinha sido registrado pelos pais e, com alguma manha, obtinha-se uma certidão de nascimento novinha em folha, com um outro nome e filiação.

Por causa disso, uma vez tive que ajudar a prender um homicida lá do Mato Grosso quase que no “laço”.

O caso deu-se quando eu era Promotor de Justiça em Guajará-Mirim, a “Pérola do Mamoré”.

Havia, no comércio local, uma excelente padaria, com uma clientela bastante razoável para cidade pequena.

Certo dia, compareceu na Delegacia de Polícia a mulher do dono dessa padaria, reclamando que havia levado uma surra do marido (naquele tempo não tinha esse negócio de Lei Maria da Penha) e que, por isso, queria delatá-lo.

Ela narrou que, quando moravam em Rondonópolis, seu marido, usando o nome verdadeiro, havia matado a tiros um oficial de Justiça. Ela contou que, enquanto o processo caminhava no Fórum, o marido fugiu para Goiás, obteve novos documentos e acabou instalado em Guajará-Mirim.

Como o negócio comercial ia bem, ele quase havia esquecido a vida anterior, encerrada bruscamente com o episódio do homicídio.

Como eu dizia, se naquele tempo não havia ainda a Lei Maria da Penha, temos que levar em conta que mulher espancada e com raiva é pior do que dormir com uma cobra cascavel dentro de casa.

Pois ela foi à Polícia e contou tudo para o Delegado. O Delegado passou o problema para mim, pois não tínhamos como provar que o à época comerciante de sucesso era o homicida de Rondonópolis. Sem isso, a prisão não seria possível.

Fiz um contato com o Promotor de Justiça de Rondonópolis, que era meu conhecido, e contei-lhe tudo. Ele, corretamente, disse-me que somente com uma planilha datiloscópica contendo a impressão digital de todos os dedos das mãos do sujeito ele poderia confirmar a acusação feita pela mulher do espancador.

Mas, como obter as impressões digitais do comerciante sem afugentá-lo?

A chance apareceu quando o sujeito, na condição de comerciante, praticou um crime de pouca gravidade, crime esse contra o consumidor.

O Delegado de Polícia não perdeu a chance.

Foi até a padaria e prendeu em flagrante o seu dono, levando-o para a Delegacia e... colheu as impressões digitais dele.

Seria, guardadas as proporções do crime (o praticado contra o consumidor), como se alguém avançasse um sinal vermelho nas ruas da cidade e o BOPE, ou a ROTA, fossem chamados para prender o motorista.

O sujeito pagou fiança, foi solto e ficou tranquilo, sem sequer imaginar a “dedurada” que sua esposa espancada havia cometido.

Esses fatos ocorreram no ano de 1985, e vocês podem imaginar a dificuldade de enviar a planilha datiloscópica de Guajará-Mirim para Rondonópolis. Se fosse hoje, com tudo digitalizado, seriam segundos. Na época, levou muito tempo.

Demorou, mas o Fórum de Rondonópolis recebeu a planilha e confirmou que era ele mesmo o assassino do oficial de Justiça.

Finalizando, o comerciante foi preso e enviado para a cidade onde cometeu o homicídio, sendo condenado e mandado para a penitenciária.

Tudo ficou mais fácil dentro dessa dificuldade toda (Êpa!, temos aqui um paradoxo, facilidade versus dificuldade) porque eu havia feito amizade com o Promotor do Mato Grosso, o que facilitou a nossa conversa, e o fato de que, se você é um corajoso marido que bate na esposa, deve evitar cometer crimes por aí...

Não nos esqueçamos de que hoje em dia, com o exame de DNA, um simples fio de cabelo do criminoso na cena do crime e um outro fio obtido na pia da casa onde ele se esconde, bastaria para identificá-lo e prendê-lo.

Hoje em dia, com a explosão da informática e dos meios de comunicação, contraposta com a involução dos meios das Polícias, você comete o crime – qualquer crime -, tira sarro da cara dos policiais que o prenderam e do Delegado, sai da cadeia em tempo recorde e vai gozar a vida.

Alguns até conseguem fazer uma “vaquinha” para pagar as multas e despesas do processo criminal...






3 comentários:

  1. Eu ia morrer doida e não sabia...kkkkkkkkkkk Agora entendo porque meus comentários nunca chegaram ao seu conhecimento. Só tem uma vantagem: a certeza de que você aprendeu a lidar com esta máquina de fazer doido bem mais rápido do que a "madrinha". E, por favor, continue com seus " causos", curtos ou longos, pois são uma leitura deliciosa. Sua eterna fã Ana Lia Martins.

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  2. Respostas
    1. Ter uma leitora com os dotes intelectuais da minha madrinha Ana Lia Martins é de envaidecer qualquer um. Tomara que minha inspiração e minha memória continuem a me ajudar a escavar no passado esses causos

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