quinta-feira, 9 de novembro de 2017

"Trolando" o barro...

TROLANDO” O BARRO...


Nos idos de 1984 e 1985, quando fui Promotor de Justiça de Guajará-Mirim, o isolamento era um fato. Trezentos e vinte quilômetros nos separavam de Porto Velho, a capital do Estado.

Hoje em dia são os mesmos 320 kms de um asfalto cheio de buracos, tornando difícil e demorada uma visita à Pérola do Mamoré, codinome altamente merecido.

Naqueles tempos, não havia asfalto. Logo, tínhamos que vencer 320 quilômetros de barro e areião, o que nem sempre era possível.

Como o período chuvoso amazônico dura seis meses, a cidade e seus habitantes tinham que dar seu jeito para levar a vida com dificuldades de abastecimento de alimentos e combustíveis.

Dentre os combustíveis, estava o gás de cozinha. Para que os modernos tenham uma ideia, minha casa tinha seis botijões de gás para vencer o período das chuvas, e isso porque durante um mês e meio eu estava em gozo de férias.

As pessoas mais humildes recorriam ao carvão, à lenha, etc. Vida dura.

Mas ocorreu que minha mãe foi visitar-me na minha comarca (tenho um carinho muito grande por Guajará-Mirim e, sempre que posso, faço pelo menos uma visita anual à cidade e aos amigos de lá).

Ao final da visita, minha mãe precisava ir a Porto Velho, onde embarcaria no avião para a viagem de volta. Como eu dispunha de tempo e precisava ver algumas coisas na Capital, resolvi levá-la de carro, levando também minha família, mulher e filhos.

Grifei um trecho aí acima para ressaltar que essa não foi uma decisão inteligente: meu carro era um Monza, ou seja, um automóvel de passeio.

Os primeiros cem quilômetros foram uma beleza! Tudo ia bem. Mas...

Não mais que de repente, o motor do carro pára de funcionar. Eu entendo de mecânica tanto quanto entendo da aerodinâmica dos helicópteros e de energia nuclear.

Como consequência, eu abri a tampa do motor e fiquei ali, na beira da estrada com aquela cara de “pois é”.

Por sorte, parou um sujeito para ajudar e, olhando o motor, deu o diagnóstico: a bobina estava esquentando – coisa que fazia o motor parar de funcionar -, e a solução seria trocá-la, coisa obviamente impossível de fazer naquele fim de mundo.

Em seguida, vejo um ônibus seguindo para Porto Velho e rapidamente tomo a decisão de pará-lo e embarcar mãe e família nele para seguirem viagem.

Fiquei sozinho na estrada, com um carro avariado (sonho dos traficantes que coloquei na cadeia, mas nenhum aproveitou...). O jeito era seguir viagem do seguinte jeito: bobina esfria, motor funciona e pé na estrada; bobina esquenta, encosta na beira da estrada e espera esfriar.

A cidade mais próxima era Abunã, um lugarejo ao qual cheguei no começo da noitinha. Fui à Delegacia de Polícia e narrei meu problema para um policial. Ele disse-me que lá não havia venda de autopeças e sugeriu-me dar uma olhada nos carros apreendidos.

No pátio da Delegacia encontrei um jipe velho, mas com bobina! Tirei a bobina do jipe e coloquei no meu Monza. Funcionou!

Mas o problema ainda não estava resolvido, pois faltavam ainda mais de 200 quilômetros de barro até Porto Velho.

Para sorte minha, o policial perguntou-me se eu poderia levar três outros policiais até a Capital e eu, rapidamente, com péssima motivação, concordei.

A péssima motivação era o fato de que eu teria, caso encalhasse no barro, três caronas para pisar no barro e empurrar o carro.

Seguimos viagem. O barro, embora muito, não me levou ao encalhe, já que antes de ser Promotor de Justiça eu fora vendedor viajante, acostumado a viajar em estradas sem asfalto.

Contudo, volta e meia o motor ficava superaquecido e eu tinha que parar. Descobrimos que o motivo do superaquecimento era que o barro, subindo pelo motor, paralisava a hélice do radiador.

Então, quando isso acontecia – e aconteceu várias vezes! - um dos policiais se ajoelhava no barro e na lama para retirar, com as mãos, o material que impedia a hélice de funcionar e resfriar o motor.

Para aqueles que não gostam muito de ler, informo que o causo está chegando ao fim.

Por fim, chegamos a Porto Velho, deixei os policiais na Central de Polícia e, para minha surpresa, constatei que a viagem tinha durado 24, vinte e quatro longuíssimas horas!

E não dava nem para reclamar do Governador do Estado de Rondônia, porque, ao contrário dos políticos de hoje em dia, Jorge Teixeira de Oliveira era um homem honesto, com um Estado recém-criado nas mãos.

Achei de bom alvitre registrar esse tipo de dificuldade que tivemos nos anos iniciais de Rondônia para que as pessoas tenham uma ideia do enorme progresso que aquela terra já fez.



2 comentários:

  1. Valeu, Zelão !
    Velhos e bons tempos !
    Forte abraço,
    Lúcio Balbi

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  2. Eu era uma menina à época com 10 anos e odiava morar no fim do mundo. Fiquei muito feliz quando, em 1986, nos mudamos para a capital. As quedas de energia diminuíram e as opções para os adolescentes eram bem melhores. E que saudade dos anos 80.

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