TRÊS CRIMES NO MESMO BALAIO
Já que falei da ciência do
Direito no último “causo”, volto a falar sobre o assunto. Nos
tempos em que cursei a Universidade, a ótima Universidade Estadual
de Maringá, tive a oportunidade de conhecer figuras ímpares.
Uma delas era o professor de
Direito Penal, o venerando Oscar Pereira dos Santos, Promotor de
Justiça aposentado e portador de um cérebro gigantesco: conhecia o
Código Penal inteiro de memória. Para falar sobre qualquer crime,
ao contrário dos demais mortais, ele não precisava consultar o tal
Código Penal.
Assim, ele era dado a, a
qualquer momento, chamar um dos alunos que a vítima discorresse um
crime qualquer.
Em se falando de figuras dignas
de ser lembradas, tínhamos um colega de turma que, ao depois, se
tornou magistrado e veio a ser presidente do Tribunal de Justiça do
Estado do Paraná.
Naquela aula de Direito Penal,
a vítima do professor Oscar veio a ser este último, o futuro
magistrado, dotado de um vozeirão estentóreo e poder de
convencimento comparável aos vendedores de geladeiras nos Pólos Sul
e Norte.
O professor o chamou à frente
da turma na aula e pediu ao aluno em questão que discorresse sobre
um crime qualquer, sobre o qual a vítima, e muito menos os colegas
ouvintes, sabia quase nada, assim de bate-pronto.
O aluno não se apertou. Fez um
intróito cheio de lero-leros, elogiando a inteligência do professor
ao lhe pedir que falasse sobre aquele crime tão nefasto à
sociedade.
Feito isso, engatou uma
primeira marcha e fez uma explanação sobre o elemento subjetivo
daquele tipo de crime, ou seja, o dolo.
Ao engatar a segunda marcha,
fez a observação de que o dolo exigido para a prática do crime em
questão, pedido pelo professor, era parecido com o dolo necessário
para a configuração do crime de furto (crime sobre o qual o aluno
enrolão havia estudado pouco antes).
Com cinismo raro entre os
não-especialistas, ele alçou voo:
- E, por falar no crime de furto, blá-blá-blá, blá-blá-blá....
Nós,
os outros alunos, vítimas da vítima,
olhávamos estupefatos aquela aula magna de empulhação...
O professor Oscar, olhos
semi-cerrados, ouvia atento, sem dizer nenhuma palavra.
Depois de executado aquele
perfeito efeito ricochete na pergunta do professor, o aluno-vítima
encerrou sua alocução afirmando:
- Bem, professor, isso é o que eu sei a respeito do crime sobre o qual o senhor perguntou.
O professor Oscar não passou
recibo. Com um ar perspicaz e certa ironia na voz, respondeu:
- Bem, K... (não, não vou dizer o nome dele, hehe), sua resposta foi brilhante, porque você fez uma explanação sobre três crimes, não é? O que melhor ficou explicado foi o de estelionato!
Finalizo dizendo apenas o
seguinte: grande e saudoso professor Oscar, figura humana
maravilhosa.
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